Amor e licantropia

Quando ocorrem órbitas coincidentes, garantem os astrônomos, a lua cheia fica mais bonita, mais clara, mais, naturalmente, plena. Isso aconteceu recentemente e, segundo meus arquivos da chamada cultura inútil, é resultado do periélio, que é quando o Sol se aproxima da Terra. Os tais astrônomos juram que, a olho nu, não se pode detectar o fenômeno no luar. Engano deles, certamente, pois no último, para usar uma palavra linda, plenilúnio, ali pelos fins do mês retrasado, percebi que a claridade certamente andou mais intensa. Depois, os efeitos dessas coisas andam ao nosso redor. Os pássaros, nesses dias, cantam melhor, como fazem o mesmo os galos que mais cedo abrem o bico. Não estranhem eu estar falando de galos em Campinas, pois perto de onde vivo há um, relíquia de antigos quintais, que toda madrugada desperta a vizinhança. Mas também as flores em tal época brotam opulentas, os frutos sazonam com perene ternura e os seres humanos, ah, os seres humanos, viajam. Como a formidável, a bela, a moderna Vivizinha.

Num dos últimos periélios, ocorridos no ano passado, a moça, pelas condições da presença e intensidade do luar, viveu uma estranha experiência; me garantiu, num papo de chope no fim de semana, ter sido a mais estranha de sua vida. Ela se apaixonou. De resto, desde o começo foi algo com feições, digamos, especiais. Pois conheceu o rapaz ao trombar com ele numa prosaica esquina na Treze de Maio. Os pacotes que ela carregava caíram, o moço ajudou a juntar, rolou um papinho e, logo, tomavam um café na Conceição.

– Te vejo de novo? – ele arquejou.

– Até as pedras se encontram.

– E nós?

– Amanhã. No Galeria.

Com um mês de namoro, uma amiga chegou pra Vivizinha e perguntou se ela já havia reparado direito em Rogério, que era o fruto da paixão.

– O que é que tem ele?

– Ah, sei lá, mas com tanto cabelo no rosto, no peito e nos braços, parece um lobisomem.

– Ah, Florinha…

– Não, parece sim um lobisomem. Se eu fosse você tomaria cuidado, pois vamos entrar no periélio.

– Em quê?

A outra, que era mais sabidinha que o normal das gurias da sua idade, explicou. Ao fim, levantou o indicador:

– Épocas de órbitas coincidentes, minha filha, quando a lua fica maior e o luar mais bonito, é que ocorrem as coisas da licantropia.

– De quê?

– É quando certas pessoas se transformam em lobisomens.

Por incrível que pareça aquilo ficou na cabeça de Vivizinha de forma total e intensa, a ponto de ter sonhado com o negócio. E tão impressionada andava que, quando leu no jornal que o periélio ia ocorrer na semana seguinte, chegou a ofegar de emoção. Era a chance de descobrir se Rogério, de fato, virava lobisomem.

No dia marcado para a lua cheia com as órbitas coincidentes, convidou o rapaz para irem a uma casinha que uma amiga lhe emprestara na estrada de Joaquim Egídio, próxima ao morro das Cabras. Foi para lá com o rapaz e, trêmula de emoção, esperou o luar se derramar. Isso posto, fez com que o cara tirasse a camisa. Uma réstia de luz, entrando pela janela, iluminava a sala.

Pois é, isso tudo Vivizinha me contava na mesa do chope no último fim de semana. Como ela fizesse suspense, apertei o seu braço.

– Mas e aí, vamos, conte, o que aconteceu?

– Aconteceu – ela deu um gole e limpou a espuma com a costa da mão – aconteceu que corri pro meu carro e fui embora.

– Porque o cara começou a ficar ainda mais peludo? E com focinho?

– Negativo. Larguei o imbecil lá porque ele não era porcaria nenhuma de lobisomem. E o que eu tava mesmo era a fim dum…

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio do Povo

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