A moça da tarde

Foi então que, meio na fossa, resolvi, naquele verão, ir para uma cidadezinha na região de Serra Negra para procurar, como se dizia antigamente, meu eixo. Instalei-me numa pousadinha barata e, em poucos dias, estava relativamente bem inserido num pequeno grupo que, todo fim de tarde, ia tomar seus drinques no Ponto Chic.Eram cinco ou seis aposentados, simpaticíssimos, que adoravam comentar sobre as fofocas do lugarejo. O que me ajudou a entrar para o grupo foi que dois dos camaradas eram leitores da coluna diária que eu então escrevia num jornal da capital, com um desenho da minha cara feito pelo lendário e genial Otávio junto ao meu nome. Com as línguas sempre mais soltas depois da terceira pinga, falavam mal do prefeito, desancavam o juiz e faziam sérias restrições ao pároco. Nada mais típico.

Foi na terceira tarde do convívio esplêndido que vi, pela primeira vez, a moça. Ela vinha vindo com um vestido fresco sobre o corpo exato, os cabelos curtos tocados pela brisa e um perfil, no mínimo, de madona. Percebendo que todos se calaram quando passou, mas sentindo que de cada olhar saia uma chispa de desejo, indaguei, meio a medo:

– Quem é?

– Florinha, a mulher do boticário.

A cena se repetiu nas tardes seguintes, e eu também acabei tomado pela presença da moça, a ponto de, numa das vezes, ter sentido o perfume que vinha dela. Rosas. Ela, pura e simplesmente, exalava aroma de rosas. Ao contrário da canção de Cartola roubava, no bom sentido, o cheiro das pétalas.

– Florinha… – suspirei, um dia.

– Cuidado, é a mulher do boticário.

Na continuação fui captando, em frases soltas da turma, algumas informações. Uma delas: o marido curtia pela esposa uma dessas paixões arrebatadoras. E ela por ele, segundo todos imaginavam, pois seu Fadul, o tal boticário, não só tinha uma boa estampa, como também era uma espécie de paradigma da sociedade local, pela seriedade etc. etc.. Um dia, embalado pela terceira pinguinha, caí na besteira de perguntar se Florinha nunca… Imediatamente fui fuzilado pelo olhar de todos.

– Seriíssima – um gemeu.

– Mais do que uma santa – outro acrescentou.

Numa sexta-feira parti para um pesqueiro estrada acima, quase na divisa com Minas. Ao regressar, com meu eixo já devidamente em ordem, desabei no Ponto Chic para me despedir da turma. Fui então informado, pelo dono do bar, que há dois dias eles não apareciam. Indaguei se havia algum problema, e a resposta não poderia ter sido mais objetiva:

– Dona Florinha.

– O que aconteceu?

– Ela fugiu com um viajante que estava hospedado no Hotel Marechal.

– E quem era o galã?

– Um vendedor. Um tal de Fernando…

O curioso foi que, com bilhete comprado para voltar a Campinas na manhã seguinte, não consegui faze-lo. Algo dentro de mim inflava dizendo que deveria esperar a rapaziada do boteco reaparecer. Tanto que, no fim daquela tarde, me plantei na cadeira de sempre, junto da porta. Fiquei sozinho, porém tinha a impressão que, a qualquer momento, a moça da tarde reapareceria com o vestidinho leve sobre o corpo lindo, deixando no ar o impressionante cheiro de rosas que, admiti, deveriam ser necessariamente vermelhas.

Finalmente, no terceiro dia, meus camaradinhas reapareceram, cada um com a expressão mais lúgubre do que o outro. E enquanto ali estivemos, até o começo da noite, não ocorreu o menor ou mais exíguo comentário sobre a fuga da maravilhosa mulher do boticário. Porém, em todo o mundo, então, não havia ninguém que se pudesse sentir mais corneado do que todos nós. Voltei para Campinas com o eixo novamente fora do lugar.

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio Popular

2 Comentários para “A moça da tarde”

  1. Crônicas não envelhecem, sinal de que o bom texto agradava leitores de ontem e certamente segue agradando os de hoje. Outro dia Tão Gomes Pinto perguntou aqui em Brasília: onde andará o Antonio Contente? Quis saber, após um tweet no qual lembrei a meninada de hoje – e ao restante dos tuiteiros também – a respeito de “Paulicéia desvairada”. Nelson Townes de Castro, Nelsinho lá de Porto Velho (RO), também comentou comigo das gloriosas edições do NP, sob a batuta de Ebrahim Ramadan. Aí, não sei quem, parece-me que foi Wilson Marini, revelou que você continua ótimo na influente imprensa campineira. A todos que você fez contentes, brinde-nos com mais alegrias, sintetizadas em crônicas imperdíveis. Fraterno abraço

  2. Pois é, Montezuma velho de guerra, passa o tempo rápido, e de vez quando emergem da luz boas figuras como você. A última vez que vi o Tão, talvez ele nem lembre, foi no falecido restaurante Barão, em Campinas, um encontro muito rápido. Essa abertura que o Correio Popular me ofereceu tem possibilitado que continue a contar historinhas que gosto de escrever e algumas pessoas gostam de ler. Hoje divido minha vida entre uma ilha na foz do rio Amazonas, onde me escondo, e Campinas. E este 50anosdetextos do Servaz é uma maravilha. Através dele já reecontrei algumas pessoas muito especiais. Neste final de ano, um belo brinde pelos bons tempos!

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