A Espécie Humana. Capítulo 16

durante o café, o menino falou:

pai, eu esqueci de perguntar.  onde está o morcego?

depois te mostro.   

como descobriu que ele dorme atrás do espelho?

foi assim: sempre havia uns cocozinhos no meu presépio, embaixo do espelho.  eu achava que era rato.  um dia, eu estava limpando e ouvi um barulhinho.  então eu pensei: vou levantar o espelho e o ratinho vai sair correndo.  mas não, levantei o espelho e o barulhinho continuou.  então eu olhei e vi o morcego.  é bem miúdo.   

quero ver agora.   

acabe de comer.   

pouco depois, foi que levantei o espelho.   

fiquem aqui em baixo, fica mais fácil de ver.   

nossa!, pai, que bicho feio!

passe a mão nas costas dele.  parece de veludo.   

eu, nunca!

o velho porém passou o dedo de leve sobre as costas do morceguinho.  a cada toque ele abria a boquinha e se contraía.   

é muito feio.  parece com o capeta.   

risos.   

pai, outro dia os meus amigos entraram aqui pra beber água e me perguntaram por que é que no seu presépio tem um diabo.   

não é um diabo.  é um fauno.   

ele tem pés de bode e chifre e está pelado.   

e tem uma flauta de Pã nas mãos, veja.   

mas nenhum presépio tem fauno!

eu quis fazer um presépio juntando todas as religiões, para o nascimento do Homem.  não tive tempo de continuar, ou parei, não sei, e ficou só o fauno.   

pô!  um fauno no presépio e um morcego atrás do espelho.  eu vou, mas é brincar.   

saiu.  meu pai pegou as ferramentas de jardim e saiu.   

quer ajuda?

claro que não!

vou então lavar a roupa.   

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Leia a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

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