O champagne da impunidade

As festas de final de ano são uma bênção para toda sorte de políticos enredados em falcatruas.

Gente como o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, seus comparsas fora e dentro da Câmara Distrital, além de seu algoz, o ex-policial Durval Barbosa, têm a certeza de que poderão se aproveitar do calendário, e contam os minutos para abrir o champanhe da impunidade.

Há muito fizeram as contas: Natal, réveillon, férias, carnaval. O período mistura o marasmo político com espírito de generosidade e de euforia, ingredientes suficientes para que o escândalo da vez saia da mira e da mídia.

Adicionalmente, já devem ter pedido ao Papai Noel – com mais fé do que tiveram na oração da corrupção – a dádiva de estourar um escândalo novo em qualquer outro canto. O que, por aqui, convenhamos, não é nada difícil de acontecer.

Infelizmente, os larápios do DF não são os primeiros e nem serão os últimos a usar o tempo em seu favor. Todos os tipos já se aproveitaram do volume e da velocidade em que um escândalo se sobrepõe ao outro, não dando nem mesmo tempo para que sejam fixados na memória.

É tão impressionante que só para tentar colocá-los em ordem cronológica, em uma simples pesquisa no Google, são tantas horas que até o mais dos aplicados desiste. Inescrupulosamente, os malversadores se aproveitam disso.

Ao contrário do que seria a lógica, os escândalos não se acumulam como bola de neve. Um quase sempre mata o outro. Quem peca hoje está certo do perdão porque outros vão pecar no dia seguinte.

Os panetones do Arruda e toda a nojenta sessão de vídeos que escancarou a inesgotável mina de dinheiro sujo dessa corja foram bem vindos e até comemorados por muitos.

Reduziram, na hora certa para o ex-governador Eduardo Azeredo, o impacto do Caixa 2 de Minas Gerais e, se trouxeram novamente à tona o mensalão do governo Lula, tiveram o efeito de colocar todos os partidos em um mesmo balaio.

Com isso, o país quase se esqueceu das aprontações do presidente do Senado Federal e do Fora Sarney, que chegou a levar manifestantes às ruas, por várias vezes, em mais de 10 capitais brasileiras.

Exemplos não faltam. O ex-ministro José Dirceu ainda era intocável e todo poderoso quando usou desse expediente em um dos primeiros grandes escândalos do governo Lula – um vídeo de seu então subchefe de Assuntos Parlamentares, Waldomiro Diniz, filmado extorquindo dinheiro do empresário Carlos Augusto Ramos, ou melhor, do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Mas o recesso de fim de ano ajudou esfriar o caso que acabou purgado em um enredo do Pacotão, tradicional bloco carnavalesco de Brasília.

Quem se lembra do doleiro Toninho da Barcelona, que, na CPI dos Correios, confirmou ter operado em nome de Dirceu, do então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e do deputado petista José Mentor?

Aliás, quais foram mesmo as consequências da CPI dos Correios? O que aconteceu com o caso Genival Inácio da Silva, o Vavá, um dos seis irmãos do presidente Lula, flagrado intermediando favores junto a prefeituras do PT?

Onde parou a investigação sobre a estranha ascensão da GameCorp de Fábio Luis, o Lulinha? Esses, e tantos mais, superados por outros escândalos, são casos que se perderam no tempo.

Confiante de que o tempo tudo cura, o próprio presidente Lula abusou do espírito natalino para começar a esfarrapar desculpas para si e para seus companheiros.

Acuado pelas denúncias do mensalão, que lhe golpeavam seriamente a popularidade, Lula escolheu o Fantástico da TV Globo para dizer ao país que levara “uma facada nas costas”. Iniciava ali, no Natal de 2005, a série de falsas penitências que lhe valeriam o perdão futuro.

Ou seja, o governador Arruda e sua gangue não estão fazendo nada de novo ao confiar seus destinos ao tempo. Afinal, em nosso país o tempo não é senhor da razão, é senhor da impunidade.

 Este artigo foi escrito para o Blog do Noblat

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