Curitiba, Curitiba

Eu quero, agora, cantar Curitiba,

cidade branca, limpa e sadia,

pedindo à Musa que me não proíba.

 

Quero cantar miséria e alegria,

munido de poética coragem

e equipado de inspirada ousadia.

 

Começo, então, esta minha viagem

procurando arrolar seus disparates,

o seu trabalho e sua vadiagem.

 

Rua das Flores, dolés, chocolates,

cafés e churros. Todos misturados,

estelionatários e engraxates,

 

mendigos, bichas loucas, advogados,

confusão de inquietos e teimosos,

de ofendidos e de humilhados.

 

Boca Maldita, encontro de ociosos

com o linguajar ferino criticando,

mas sem nada assumir, de tão medrosos.

 

Batel, com suas bruxas convidando

outras bruxas pros chás beneficentes,

e o jornalista idiota, publicando

 

suas recepções e seus presentes,

suas viagens pela Argentina,

seus filhos belos, vis e delinqüentes.

 

Enquanto as filhas, diante da vitrina

discutem de vestidos dispensáveis

pra debutar a vaidade cretina.

 

Nas marechais, políticos vendáveis,

executivos, ladrões, contadores,

corruptos, banqueiros execráveis,

 

subornos, mordomias, mil horrores,

tudo de acordo com a justiça cega

e a proteção dos desembargadores.

 

E o dinheiro secreto que escorrega

pros cofres da canalha protetora

que despoja, assassina e sonega.

 

Rua Riachuelo, a domadora

provocando o passante com o convite

em troca da moeda enganadora.

 

Sede das pragas mil de Afrodite,

fome e dor simuladas e escondidas,

nas máscaras de um prazer sem limite.

 

Madrugadas eternas e sofridas,

batidas, cassetetes, frio e sono,

té que o sol afugente as desvalidas.

 

Passeio Público, o filho sem dono,

filho que é só filho da empregada

mal paga pela mãe do abandono.

 

Na areia a criança é negligenciada

enquanto a pobre moça fica à espera

do soldadinho que está de emboscada.

 

Nas áreas verdes, a alegria austera

dos papais e mamães endomingados

que a TV anunciou a primavera.

 

Em volta disso tudo, os amontoados

de cães, caixotes, latas, ferro velho,

lixo e alguns casebres definhados;

 

as roupas com remendos no joelho,

nas panelas só cabeças de bagre,

os bens aventurados do evangelho.

 

Filhos do fel diário e do vinagre,

disputando o diabólico pão:

sustentáculos do podre milagre.

 

Guabirotuba, Xaxim, Boqueirão,

Abranches, Oficinas, Barigüi,

Pinheirinho, Los Angeles, Portão,

 

Juvevê, Vila América, Tingüi,

Uberaba, Boa Vista, Cajuru,

Barreirinha, Cabral, Bacacheri,

 

Bigorrilho, Água Verde e Ahu,

Alto da Quinze, Mercês e Taboão.

Curitiba, querida, I love you.

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