A volta do dom divino que a fé em Alá calou

Se você ainda não ouviu, vá atrás de um disco chamado An Other Cup, de um tal de Yusuf. Esse sujeito é um dos dois maiores, melhores e mais profícuos criadores de melodias pop dos últimos 60 anos. Igual a ele, só Paul McCartney.

Os maiores, os melhores? Esses conceitos são subjetivos, cada um tem os seus. OK, tudo bem, perfeito. Você pode achar que Kurt Cobain é imbatível, ou, se gostar de coisas mais antigas, talvez tenha a certeza de que Keith Richards é o maior e o melhor.

Mas veja só: esse Yusuf botou 11 músicas entre as mais vendidas e tocadas entre 1971 e 1977 nos Estados Unidos; todos os seus dez primeiros álbuns foram disco de ouro na Inglaterra ou nos Estados Unidos – ou nos dois. Naquela época, tinha trocado o nome de nascimento, Steven Georgiou, por um inventado, Cat Stevens. Deste nome você certamente se lembra.

yusufSteven Georgiou, quer dizer, Cat Stevens, era um brilho. Lennon-McCartney, Jagger-Richards, Page-Plant num homem só, tinha o dom raro de criar, numa quantidade espantosa, melodias que misturavam a suavidade do folk com o balanço do rock, gostosas, fortes, contagiantes, fáceis de assobiar, dessas que grudam na orelha da gente e fazem balançar o corpo mais duro. E era também o autor de todas as letras – versos diretos, curtos-e-grossos, mas de grande sensibilidade, que iam muito além da descrição de paixonites adolescentes e demonstravam uma grande inquietação espiritual, uma busca por um sentido maior.

Seu quarto álbum, Tea for the Tillerman, que estourou nas paradas americanas (e puxou as vendas dos anteriores), foi lançado em 1971, na explosão dos singers-songwriters, como Joni Mitchell e Carole King, e por isso ele foi chamado lá de o James Taylor inglês. Naquela época, todos adoravam James Taylor – e todos adoravam Cat Stevens. Além de ser autor de boas letras e boas músicas, e de ter uma belíssima voz, ainda por cima o cara era boa pinta.

E ainda tinham os engenheiros de som. Os engenheiros de som ingleses são melhores que todos os outros, isso todo mundo sabe. Basta lembrar a mística que se criou em torno dos estúdios Abbey Road, onde até hoje são remixados discos de artistas importantes do mundo inteiro (inclusive Milton Nascimento e Paulinho da Viola). Ou de Alan Parsons, o engenheiro de som do Pink Floyd que virou líder de banda. Mas os engenheiros de som que trabalhavam com Cat Stevens eram o máximo do máximo – e tinham uma imensa liberdade de criação. Eles alternavam o volume no meio das músicas, faziam os instrumentos dançarem de uma caixa acústica para outra (ainda no tempo de apenas quatro canais), botavam ruídos vários e vozerio de gente no meio das músicas. Os modernos subwoofers adoram o que aqueles caras faziam nos pré-históricos (em termos de tecnologia) anos 60 e 70.

A força das canções de Cat Stevens era (e é) tão grande que elas voltaram várias vezes à lista das mais vendidas e tocadas. O jamaicano Jimmy Cliff gravou “Wild World” e botou a música entre as dez mais da Inglaterra; quando veio a gravação do autor, ela de novo foi parar no alto. No final dos anos 70, Rod Stewart regravou “The First Cut is the Deepest” (de 1967) e a canção voltou ao topo das paradas tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra; em 2003 Sheryl Crow levou a mesma música ao Top 20 americano. Em 1996, a louraça peituda (em todos os sentidos) Dolly Parton chamou os africanos do Ladysmith Black Mambazo para participar da regravação que ela fez de “Peace Train” (de 1971). Uma coletânea com 18 das mais conhecidas canções dele bateu de novo no alto do hit parade em 1990 – muito tempo depois que o autor tinha sumido do mapa.

Sim, porque, em 1977, o Steven Georgiou, filho de grego e sueca, nascido em Londres em 1947, tornado milionário e superstar mundial como Cat Stevens, jogou fora o nome famoso e virou Yusuf Islam. Agarrou o islamismo com a mesma força com que balançava o corpo no palco. Consta que leiloou o que adquirira ao longo de 12 anos de sucesso no show business, e abriu uma escola nos arredores de Londres para ensinar os princípios islâmicos. Só voltou a ter destaque nos tablóides ingleses quando cometeu a asneira de fazer uma declaração de apoio à sentença de morte dada ao escritor Salmam Rushdie pelos aiatolás do Irã (tem sempre um aiatolá pra atolar, como dizia a música da Rita Lee).

Entre 1995 e 2004, Yusuf Islam usou sua bela voz em cinco discos, não para cantar, mas para declamar poemas, versículos e histórias relacionadas ao Islã e ao profeta Maomé.

E aí, em 2006, quase 30 anos depois de ter dado uma banana para o mundo da música pop, gravou An Other Cup.

Quase 30 anos são tempo demais. Englobam gerações inteiras, milhões e milhões de pessoas que nasceram depois do lançamento de Back to Earth, seu 11º disco, que chegou às lojas em 1978, já depois da conversão de Steven Georgiou-Cat Stevens em Yusuf Islam. Incluem a criação e a decretação da morte do CD, o advento da internet, do download de música, do formato MP3, do iPod e suas tentativas de arremedo. E neste período de quase 30 anos houve o 11 de Setembro e os ataques do terrorismo árabe em Madri e em Londres, mais as guerras de Bush no Afeganistão e no Iraque.

Em 2005, Yusuf Islam foi barrado e proibido de entrar nos Estados Unidos pelo governo Bush. Justamente o autor de “Peace Train”, um dos maiores hinos que a música popular já fez em defesa da conciliação entre os homens. A direita raivosa americana confunde islamismo com terrorismo – mas, infelizmente, não é só ela. Depois de centenas e centenas de mortes causadas por terroristas árabes, difundiu-se no Ocidente uma imensa má vontade, para se dizer o mínimo, em relação a tudo que tem a ver com o islamismo. 

Tudo isso – os quase 30 anos, o terrorismo dos radicais islâmicos – pode explicar por que, ao contrário do que se poderia esperar, An Other Cup não estourou, passou longe da lista dos top 10, ou mesmo dos top 40 – embora em geral o disco tivesse recebido boas críticas. Danem-se as listas dos top isso ou aquilo, dane-se o sucesso estrondoso. An Other Cup é um belo disco – uma boa descoberta para quem nunca ouviu Cat Stevens, uma tremenda emoção para quem já gostava dele.

Numa fantástica prova de que é possível mudar e ao mesmo tempo ser coerente com o passado, Yusuf usou, em An Other Cup, vários dos músicos que o acompanharam naquela outra encarnação, lá atrás – os guitarristas Alun Davies e Jean Roussel e o baixista Danny Thompson.

Para ficar só em alguns dos grandes momentos:

O disco abre com “Midday (Avoid City After Dark)” – primeiro, um violão acústico e uma suave percussão; em seguida, junto com baixo, piano e bateria, vem a voz do cara, ainda bela, inimitável, marca registrada, numa melodia rica, que pega e marca já na primeira audição; no intermezzo entre uma estrofe e outra, entra o sopro, alto, vibrante, forte, marcante.

Começa a segunda faixa, “Heaven/Where True Love Goes”, e aí está o velho Cat Stevens. Os antigos fãs reconhecem imediatamente a melodia insinuante, gostosa, alegre – opa, essa ele já gravou, sim, mas qual é mesmo a música? Pode-se levar algum tempo para identificar. Essa “Heaven” é uma das cinco ou seis belíssimas melodias que ele juntou na longa (18 minutos e 19 segundos) “The Foreigner Suite”, que ocupava o primeiro lado inteiro do LP Foreigner, de 1973. A essa velha maravilha junta-se uma canção nova, “Where True Love Goes”. As duas se dão bem como goiabada com queijo.

A terceira faixa, “Maybe There’s a World”, é a primeira explicitamente espiritualista, quase religiosa. É assim uma espécie de “Imagine” à la Cat Stevens, ou melhor, Yusuf Islam: melodia suave, mas forte, que pega a gente de primeira, e versos de quem acredita que a humanidade pode fazer melhor do que tem feito nos últimos séculos, milênios: “I have dreamt of an open world, borderless and wide, where the people move from place to place and nobody’s taking sides” (Sonhei com um mundo aberto, sem fronteiras e largo, onde as pessoas se mudam de um lugar para outro e ninguém está tomando partido).

A faixa 8 é a segunda e única em que Yusuf regrava uma canção do velho Cat Stevens, “I Think I See the Light”, do disco Mona Bone Jakon, de 1970. Naquele tempo Georgiou-Stevens-Islam já procurava uma luz mais forte.

A décima e penúltima faixa, “The Beloved”, é um hino ao profeta Maomé. Uma melodia cheia de toques árabes, com um acompanhamento denso, pesado, instrumentação complexa, que até lembra a muralha sonora de Phil Spector. É uma canção perfeita para quem quer falar mal do disco como um todo e do artista inteiro. Ah, é religioso, é panfletário, e o som é rebuscado demais, podem dizer os críticos. O engraçado é que ninguém reclamou quando George Harrison fez “My Sweet Lord”, e Bob Dylan fez o disco Slow Train Coming, tudo religiosérrimo, panfletarérrimo, o primeiro pró Buda, o segundo pró Cristo. Por que pró Buda pode, pró Cristo pode, e pró Maomé não pode?

Mesmo quem resolver ouvir An Other Cup com todos os preconceitos possíveis, com a firme intenção de não gostar, correrá o risco de se desmanchar diante da faixa 7, “Don’t Let Me Be Misunderstood”.

Ao longo de toda a carreira, Cat Stevens fez pouquíssimos covers de músicas de outros autores – seguramente não mais que cinco. Pois ele resolveu regravar essa música que os Animals tornaram sua marca registrada nos anos 60, teve uma regravação marcante pelo Santa Esmeralda em 1977, no auge da era disco, ocupando um lado inteiro do LP, e por Nina Simone, a extraordinária cantora que simplesmente não deixa espaço pra ninguém gravar a mesma música que ela já gravou.

Pois Yusuf Islam põe tanta força, tanto de sua história pessoal e de sua maestria como cantor, que consegue nos fazer esquecer a versão dos Animals, suplantar a interpretação de Nina Simone e dar novo significado à letra. “I’m just a soul whose intentions are good; oh Lord, please don’t let me be misunderstood” (Sou apenas uma alma cujas intenções são boas; ó Deus, por favor não me deixe ser mal compreendido). Em meio a pizzicato de violinos, ele canta tão devagar, escandindo tanto as palavras para mostrar o que elas querem dizer que quase recita. É de arrepiar.

Depois de ouvir e reouvir e reouvir de novo esse disco, fica difícil não pensar uma coisa do tipo: mas que raio de fanatismo é esse capaz de silenciar por quase 30 anos um artista tão especialmente dotado por Deus, Jeová, Tupã, Oxóssi, Alá – seja qual for o deus?

A historinha por trás do texto

Fiz esta anotação no dia 31/8/2007, um dia depois que o Carlos Bêla colocou o texto acima no Aporias:

Minha estréia no blog de música do Carlos virou um acontecimento.

Há tempos o Carlos me deu o endereço do blog dele, o Aporias, e me pediu pra olhar, andar por ele, comentar – e, quem sabe, mandar uma participação. No dia 19 agora, no jantar a quatro, voltou-se a falar no assunto; o Carlos disse que gostaria muito que eu mandasse um texto pro blog; falei do disco do Cat Stevens do ano passado, An Other Cup, o primeiro disco pop dele depois de quase 30 anos, e o Carlos e a Fêzinha gostaram muito da idéia.

Incentivado por isso, na semana passada escrevi uma resenha sobre o disco – meu primeiro texto sobre música para publicação em muitos, muitos, muitos anos. Nem consigo me lembrar quando tinha sido a última vez. E gostei do resultado. Marynha gostou muito. Mandei pro Carlos no dia 23 ou 24. Ele adorou – e ontem, dia 30 de agosto, botou no ar. Li a mensagem dele informando que estava no ar e abri o blog logo depois de acordar, antes de lavar a cara – e levei um tapa. Ele deu um destaque tremendo, com um grande texto de apresentação, que imprimi e só li durante o café da manhã, algum tempinho depois. Foi um texto de emocionar, e fiquei de fato emocionado e muito feliz.

Mandei mensagens para diversas pessoas, dando o endereço do Aporias – André, Beto, Lourdinha, Valéria, Dona Lúcia, Márcio, Valdir, Sandro.

Tudo nessa história acabou sendo muito interessante, muito gostoso – até mesmo o dia em que o Carlos pôs o texto no ar, que foi rico, cheio de boas notícias. Mas o melhor de tudo, acho, foi o prazer que isso deu à Fêzinha. Ela ficou especialmente satisfeita com essa história de o pai escrever pro blog do marido, que gostou do que o pai escreveu, e o pai gostou do que o marido escreveu sobre o pai, tudo um círculo virtuoso, uma bola de neve morro acima de coisa boa. Marynha, claro, acompanhou toda a história e gostou de tudo também. Falamos horas ontem sobre isso, gostosamente.

Aí vai o texto que o Carlos fez, e que ficou abrindo o blog dele com um grande título Sérgio Vaz:

 “A pesquisa de novos sons, novas bandas, quase sempre é um trabalho solitário. Ao menos pra mim, sempre dependi de minha própria vontade pra achar músicos que eu não conhecia, sons que achasse interessantes, etc. Poucas foram as pessoas que me “aplicaram” coisas novas ou me chamaram atenção à outras que estavam de baixo do meu nariz (ou da minha orelha) e eu não podia ver (ou ouvir).

Se eu fosse fazer uma listinha das 5 pessoas que mais me abriram a cabeça e mostraram coisas novas, certamente o nome Sérgio Vaz apareceria nela.

Lembro até hoje da primeira vez que entrei em sua sala, em 1993, lotada de discos de vinil e CDs e me senti absolutamente em casa. Era justamente uma época que a minha sede por novidades estava me embriagando mas, ao mesmo tempo, eu não tinha muito como chegar a elas. Discos eram caros pro meu bolso de estudante e mp3 ainda não existia…

Foi graças ao Sérgio que ouvi Frank Zappa, R.E.M., Neil Young, Tom Waits e muita música brasileira com mais atenção; que eu escutei um dos melhores discos do John Zorn (um dos meus músicos prediletos desde então); que conheci King Crimson, Uakti, Duofel, Cream, Dave Brubeck, Ornette Coleman, Kronos Quartert, Naná Vasconcelos, Art Ensemble of Chicago e tantos outros grupos de jazz avant-garde, Ryuichi Sakamoto, Philip Glass, Mike Oldfield, Zakir Hussain, John McLaughlin, Jan Garbarek, Ravi Shankar e outros indianos, música latina, árabe, indígena, japonesa, francesa, cubana, celta, folk, clássica, etc, etc, etc, só pra citar o que primeiro me vem à cabeça neste momento.

Sérgio é um cara por quem eu tenho uma admiração que vai muito além da música.
É um imenso prazer e orgulho tê-lo entre o já ilustre hall de colaboradores do Aporias.

Servaz segundo Servaz: Sou ouvinte de música. Coleciono discos, livros e publicações sobre música há 41 anos. Como jornalista, tive que mexer com todo tipo de assunto, reportagem geral, política, economia, internacional, mas até consegui oportunidade de escrever um pouquinho sobre música no Jornal da Tarde, revista Afinal, revista Status e mais uma ou outra publicação.

E o cara já começou barbarizando com uma resenha excelente e completíssima sobre Yusuf Islam… só pra inflacionar a qualidade do blog e me deixar sem palavras.

Seja bem-vindo, Sérgio!”

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