A pale blue dot

A fotografia da Terra tirada do ponto mais distante dela está fazendo 30 anos.

É o que diz a coluna de Ancelmo Gois em O Globo. Ele afirma que foi no dia 14 de fevereiro de 1990 que a sonda Voyager 1, da Nasa, estava saindo do nosso Sistema Solar, e fez uma foto do caminho que havia percorrido até então. A Terra, nosso lindo balão azul, segundo a canção de Guilherme Arantes, a menina Terra que realiza uma viagem no nada carregando o nome da sua carne, como disse Caetano, aparecia como um pequenino ponto, um pontinho mínimo, minúsculo.

Poeira do cocô do cavalo do bandido, para recorrer uma expressão que uso muito.

A pale blue dot, na definição 200 milhões de anos-luz mais bela que a minha, feita pelo astrônomo Carl Sagan, o criador da série Cosmos, responsável por difundir entre o grande público noções básicas sobre astronomia.

Um pálido ponto azul.

O cineasta Jsson Reitman fez uma belíssima elegia ao pale blue dot em seu filme de 2014, Homens, Mulheres e Filhos.

A voz maravilhosa de Emma Thompson diz, em off, um texto que todas as pessoas apaixonadas por texto gostariam de ter escrito:

– “Em 5 de setembro de 1977, a Nasa lançou a nave Voyager, destino desconhecido, tendo como única carga um disco organizado pelo astrônomo Carl Sagan, projetado para durar um bilhão de anos e para oferecer aos extra-terrestres uma idéia do que é a humanidade. (…) Incluía música internacional, saudações em 50 línguas (as vozes ao fundo vão sendo substituídas por um tema de jazz), o som das ondas do mar, do vento entre os galhos de carvalhos, o canto das baleias, o som do coração humano, o som de um beijo.”

E mais adiante:

“Depois de 36 anos de viagem pelo espaço, a Voyager finalmente saiu no nosso Sistema Solar e entrou em território não mapeado. Mas não antes de tirar esta foto da Terra, de 3,7 bilhões de milhas.”

Mais adiante ainda no filme, a voz em off de Emma Thompson lê trechos de um livro escrito por Carl Sagan em que ele fala do pale blue dot.

É de chorar – de alegria por tanta beleza, de tristeza e desespero por pensar no que estamos fazendo com o pobre planeta:

“Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todas as pessoas que você ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada superstar, cada ‘líder supremo’, cada santo e pecador na História da nossa espécie viveu ali – em um grão de pó suspenso num raio de sol.

“A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração desse ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

“As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós mesmos.

“A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

“Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o pálido ponto azul, o único lar que conhecemos até hoje.”

13/2/2020

Um comentário para “A pale blue dot”

  1. Conheço a história das naves Voyager e segui com grande interesse as suas viagens, aliás como faço sempre com a exploração espacial.
    Sabia da existência da fotografia. O que não sabia é que Carl Sagan tinha escrito um livro sobre o assunto.
    Sou um grande admirador de Sagan, tenho vários livros dele e os DVDs da série Cosmos mas este livro não me lembro de ter visto.
    Já procurei e parece que há tradução portuguesa. Parece-me que vou comprar, embora tarde.

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