Tudo vai mal

Em 1971, Roberto Carlos e Gal Costa gravaram “Como 2 e 2”, uma das canções mais desesperadamente tristes da música brasileira.

Desesperadamente triste – e não é porque o narrador foi abandonado pela mulher, tema de centenas, milhares das mais desesperadamente tristes canções de todos os cantos do planeta, de “Ne me quitte pas” de Jacques Brel a “Sarah” de Bob Dylan.

Não, não é uma dor solitária, como a dor do amor ou a dor de dente, que motiva “Como 2 e 2”. Muito ao contrário. É a dor ampla, geral, irrestrita, a dor de um país inteiro.

Tudo vai mal, tudo.

Tudo é igual quando eu canto e sou mudo

Mas eu não minto, não minto

Estou longe e perto

Sinto alegrias, tristezas e brinco.

Meu amor,

Tudo em volta está deserto, tudo certo,

Tudo certo como 2 e 2 são 5.

A gravação de Gal foi ao vivo. Foi feita numa das muitas apresentações do show Fatal, que se transformou no álbum duplo Fatal – Gal a Todo Vapor, uma maravilha, uma pedra preciosa.

Que Gal tivesse gravado em 1971 uma canção composta no exílio londrino por Caetano Veloso não era nada, nada surpreendente. Gal sempre havia gravado e sempre haveria de gravar Caetano. Sempre foram irmãos camaradas cúmplices.

Mas que Roberto Carlos, até outro dia mesmo o rei do ié-ié-ié, o comandante em chefe da Jovem Guarda, o representante mór música desengajada, alienada, babaca, gravasse “Como 2 e 2”, no entanto, parecia estranho, esquisito. Surpreendente.

A rigor, a rigor, só parecia. A rigor, a rigor, não era assim tão estranho, esquisito, surpreendente. O disco de Roberto de 1971 foi um marco, um ponto de ruptura na carreira do cantor-compositor. De cara, abria com “Detalhes”, uma das canções mais belas que ele e Erasmo já compuseram. Com “Detalhes”, Roberto se distanciou da imagem de rei do ié-ié-ié, do bicho da Jovem Guarda: mostrou-se amadurecido – e perto da MPB, muitíssimo mais perto da MPB do que poderiam supor os puristas, os chatos, tipo José Ramos Tinhorão.

Roberto abriu o disco de 1971 com “Detalhes”, seguiu com “Como 2 e 2” de Caetano, e depois ainda apresentou uma composição dele, assinada como sempre por Roberto-Erasmo, “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”, que era uma elegia ao compositor que a ditadura havia prendido e obrigado a deixar o país.

No disco de 1971, o “desengajado”, “alienado” Roberto Carlos se insurgia contra a ditadura gravando e elogiando uma persona non grata ao regime.

***

Em 1971, o Brasil vivia um dos piores momentos da ditadura militar instaurada em 1964.

O presidente era Emilio Garrastazu Médici, um general que tentava posar de bonzinho porque gostava, ou fingia gostar, de futebol – enquanto nas masmorras Exército, Marinha, Aeronáutica e polícias estaduais prendiam opositores do regime, torturavam e matavam.

A censura à imprensa era rígida, firme, forte. Havia censores dentro do prédio do Estadão, dentro do prédio da Editora Abril, cortando o que a ditadura não queria que os brasileiros ficassem sabendo. O Estado, o Jornal da Tarde, a revista Veja enfrentavam com coragem, firmeza, a ditadura – bem diferentemente, por exemplo, da empresa Folha da Manhã, que publicava os jornais Folha de S. Paulo e Folha da Tarde. No prédio da Folha na Barão de Limeira não havia censores – não era necessário. A Folha da Tarde tratava como bandidos puros e simples os jovens idealistas que tinham feito a opção – infeliz – pela luta armada. Conforme mostraria bem mais tarde o documentário Cidadão Boilesen, a Folha da Manhã até se prestava a fazer serviços para os órgãos de repressão, a Operação Bandeirantes, o Doi-Codi, os que torturavam e matavam.

O Estado mostrava os locais em que as notícias haviam sido censuradas publicando versos de Os Lusíadas. O Jornal da Tarde preenchia os trechos censurados com receitas de comida, de bolos, de doces. A Veja, com figuras de diabinhos.

A censura a todas as artes era tão firme, tão rigorosa, quanto a censura à imprensa.

***

Hum… Acho que me alonguei um tanto, ou talvez demais, em alguns detalhes, ”detalhes tão pequenos”… Mas vou me alongar ainda um pouco mais, porque não dá para não falar disto: enquanto Caetano Veloso e Gilberto Gil estavam em seu auto-exílio em Londres, entre 1969 e 1971, Roberto foi visitar Caetano.

É absolutamente fundamental, aqui, contextualizar: Caetano, entre 1969 e 1971, já era um compositor admirado, incensado por muita gente – basicamente, gente da elite intelectual. Roberto, no entanto, era o Rei. Caetano escreveu um texto tristíssimo, belíssimo, maravilhoso, no Pasquim: “O Rei esteve na minha casa e eu chorei”.

***

A voz de Roberto Carlos cantando “tudo vai mal, tudo” foi um dos melhores retratos da ditadura militar.

Nunca, nunca, jamais achei que a canção de Caetano pudesse retratar tempo tão terrível para este país quanto foi a ditadura nos anos Garrastazu Médici.

Nunca, nunca, jamais em tempo algum – até agora.

12 e 13/9/2019

Como 2 e 2

Caetano Veloso

 

Quando você me ouvir cantar

Venha não creia eu não corro perigo

Digo não digo não ligo, deixo no ar

Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar

Tudo vai mal, tudo

Tudo é igual quando eu canto e sou mudo

Mas eu não minto não minto

Estou longe e perto

Sinto alegrias tristezas e brinco

 

Meu amor

Tudo em volta está deserto tudo certo

Tudo certo como dois e dois são cinco

 

Quando você me ouvir chorar

Tente não cante não conte comigo

Falo não calo não falo deixo sangrar

Algumas lágrimas bastam pra consolar

Tudo vai mal, tudo

Tudo mudou não me iludo e contudo

A mesma porta sem trinco, o mesmo teto

E a mesma lua a furar nosso zinco

 

Meu amor

Tudo em volta está deserto tudo certo

Tudo certo como dois e dois são cinco

Meu amor

Tudo em volta está deserto tudo certo

Tudo certo como dois e dois são cinco

Meu amor

Tudo em volta está deserto tudo certo

Tudo certo como dois e dois são cinco

 

Cinco

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