Ele está de volta

Começou a pipocar nas redes sociais nesta quarta-feira, 31/7, uma trágica charge de Adolf Hitler com o mapa do Brasil no lugar do bigode – ou seja, uma imagem associando o presidente Jair Bolsonaro ao ditador que lançou o mundo na Segunda Guerra Mundial e matou nos campos de concentração mais de 6 milhões de judeus, ciganos, portadores de problemas físicos.

Vários dos posts que vi no Facebook diziam que a charge havia sido publicada “num jornal francês” – sem dizer qual.

Na tentativa de saber qual jornal francês teria dado a charge, fiz uma rapidíssima, amadorística pesquisinha. Não, não no Google, mas na procura por imagens semelhantes, que, nem sei lá por que motivo, deu no Bing, o “Google” da Microsoft.

O desenho básico – os traços negros mostrando o cabelo de Hitler, e algo no lugar do bigode, no fundo todo branco – foi usado no lançamento do livro do alemão Timur Vermes Er ist wieder da, no Brasil Ele Está de Volta.

O mesmo desenho foi usado para as edições alemã, francesa, italiana, inglesa– e ainda outras. O título fazia as vezes do bigode – Lui è tornato, Look Who’s Back, Il Est de Retour.

Um desenho minimalista, absolutamente brilhante: com apenas os traços negros representando o cabelo e um ponto negro formado por letras no lugar do bigode, pronto. Lá estava a representação do rosto do ditador nazista. A representação do mal em si.

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A idéia básica do livro, ao mesmo tempo brilhante e apavorante, é a seguinte: de repente, do nada, cerca de 70 anos depois de sua morte, Adolf Hitler aparece vivo num terreno baldio num bairro de Berlim. Er ist wieder da foi publicado em 2012, quando Timur Vermes estava com 45 anos. O livro fez bastante sucesso, e foi traduzido para várias línguas.

Em 2015, foi transformado em filme, com o mesmo título do livro, dirigido por David Wnend, com o ator Oliver Masucci no papel do ditador nazista.

Três anos mais tarde, em 2018, o diretor italiano Luca Miniero adaptou a história do livro e do filme alemães para a realidade italiana. Ele mesmo escreveu o roteiro, juntamente com Nicola Guablionone. Sono Tornato, no Brasil Estou de Volta, é um filme intrigante, às vezes abertamente apavorante. (Não vi o original alemão.)

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Pois bem. O desenho básico original que foi capa do livro em várias línguas já serviu também para identificar com Hitler o palhaço populista de direita que é o ídolo do Capitão das Trevas.

Os americanos anti-Trump não perderiam a oportunidade.

É bem possível que em breve os britânicos anti-Boris Johnson lancem a versão britânico do desenho.

E agora chegou a vez do Brasil.

Usei, no início, a expressão “trágica charge”. É óbvio que não vai aí crítica alguma à charge em si. Quis dizer, claro, que ela é trágica para o Brasil, para nós, brasileiros. Mas é merecida. Quem mandou 57 milhões elegerem o Capitão das Trevas?

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Ahnn… Por que mesmo escrevi isto aqui? O que eu pretendia afinal dizer?

Nada estranho, nada misterioso. Não gostei da coisa do “publicado em jornal francês” – assim, sem dizer que jornal. Achei uma coisa solta demais, irresponsável. Fui atrás de algumas informações objetivas – e, como consegui algumas, quis expor. Só isso.

Agora, se algum jornal francês publicou a charge em que o mapa do Brasil forma o bigode de Hitler, não sei ainda. Não fiz uma pesquisa ampla, séria, boa.

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Agora, uma coisa é certa, é a mais indiscutível verdade dos fatos. O Capitão das Trevas, ao cortar o cabelo desse jeito, parece a rigor procurar a semelhança com Hitler – e não se afastar dela.

31/7 e 1º/8/2019

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