Jejum e mar de palha

O cinema só não é uma arte maior como a literatura porque não há cineastas virgens. O cineasta virgem seria uma contradição nos termos. A câmara de filmar é um falo hiperbólico: devassa, despe, acaricia. Bi ou promíscua, a câmara tanto faz estremecer Keira Knightely e Scarlett Johansson como Michael Fassbender.

O cinema nasce convivial e flui numa emulsão, enquanto a literatura, solitária, se derrama e seca sobre o papel. Há uma legião de escritores virgens. Uns morreram virgens por deformidade física, como Giacomo Leopardi. Emily Dickinson por rebeldia. Por orgulho ou preconceito, Jane Austen criou páginas e páginas de virgindade. Sabia do que falava, morreu intocada.

George Bernard Shaw era vegetariano. Dente de Shaw não mordia carne. E mesmo se casou foi só para conferir mistério ao mar de palha que era o seu jejum. Foi uma inglesa que disse: “Se Shaw tivesse comido um bom bife, o que teria sido das mulheres de Londres.”

Lembro que há um português virgem. O poeta que mais vivo está no imaginário colectivo da pátria que é a nossa língua, esse desdobrável Fernando Pessoa, se pinava era só com a cabeça. Disse-o Mário Cesariny e tê-lo-á lamentado Ofélia.

Pelo contrário, todo o cineasta é uma câmara: confunde-se e funde-se com a sua actriz. Orson Welles e Rita Hayworth, Godard e Anna Karina, Bergman com Liv Ullman e etc, Milla Jovovich com Luc Besson e Paul Anderson, Woody Allen com Mia Farrow e Diane Keaton, Isabella Rosssellini com Scorsese e David Lynch.

Volto ao papel. E.M. Forster, o autor de Howard’s End e de Passagem para a Índia, que o cinema também assaltou, foi virgem até aos 37 e até aos 37 escreveu a sua obra. Logo que descobriu o humpy rump nunca mais escreveu nada de jeito.

E desminto já esta deriva ascética. James Joyce tinha uns meninos 14 anos quando uma jovem mulher da noite o apanhou na fria madrugada de Dublin e, por módica quantia, o guiou nuns consoladores três minutos de vaivém entre a imanência e a transcendência. Deveremos a esse anónimo ventre a desconcertante polissemia de Ulisses?

Tolstoi teve a primeira suada batalha aos 16 anos. Quando acabou, meio vestido, a outra metade de si ainda nua, sentou-se ao fundo da cama da mulher a quem pagara e chorou copiosamente. Foram essas copiosas lágrimas que alimentaram o seu Guerra e Paz?

Este artigo foi originalmente publicado no jornal português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a velha ortografia.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*