O que eles fizeram com seu primeiro salário

Como se diz nas séries: “Previously, on Dexter…”

Nos capítulos anteriores, vimos que Carmo Chagas começou a trabalhar em 1958, meses antes de completar 17 anos, e usou seu primeiro salário para comprar um aparelho de som.

Ludenbergue Góes comentou que com ele foi muito diferente: usou seu primeiro salário de revisor para comprar uma calça “rancheira”. Isso foi o primeiro salário regular. Antes, dos 13 anos 16 anos, tinha ganho uma boa grana vendendo revistas e figurinos de moda de porta em porta.

José Guido Fré, aos 12, 13 anos, levou sua mãe para receber o primeiro salário.

Também em um capítulo anterior, eu contei, demorada, longa, detalhadamente, que usei parte do meu primeiro salário de office-boy-auxiliar de escritório no ICBEU de Curitiba, aos 16 anos de idade, para comprar o LP See What Tomorrow Brings, de Peter, Paul and Mary. Entre muitas outras coisas, o amanhã me trouxe milhares e mais milhares de LPs e depois CDs.

Dirceu Pio me bateu nos quesitos demorada, longa e detalhadamente, e, ao contar sobre seu primeiro trabalho e seu primeiro salário, também como auxiliar de escritório-office boy, fez uma cuidadosa – e deliciosa – reconstituição de época, digna de um filme de Todd Haynes.

***

Outros amigos atenderam ao nosso apelo – do Pio e meu – e contaram também, no Facebook, o que fizeram com seu primeiro salário.

Andréa Capelato:

“Tinha uns 16anos e trabalhei no mês de férias na gráfica do meu primo, na Maria Antonia. Comprei roupa. Atê lembro da malha listada azul e branca… 😊”

Silvia Torika, que no JT a gente chamava com o maior carinho de Xuxureca:

“Com uma parte comprei um perfume. A outra eu guardei (sou filha de imigrantes e aprendi desde cedo que ‘a gente nunca sabe o dia de amanhã’).”

Vânia Zanocco:

“Apliquei tudo.”

Carlos Marchi:

“Paguei o aluguel.”

Ao que o Pio retrucou: “Vai mais fundo, Carlos Marchi. Ficamos curiosos em saber por que um garoto já pagava aluguel…”

Acho que Marchi estava nos gozando…

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Adhemar Altieri:

“Primeira grana que ganhei trabalhando foi com 12 anos, em 1968. Dei para meus pais para ajudar em casa. Para mim ficou só um pouquinho, que gastei em doce e refrigerante…”

Fernando Portela:

“Em comemoração ao recebimento do primeiro salário, comprei duas garrafas de uísque para beber com Antonio Portela, meu irmão, e nosso amigo Zé Moraes, em um sábado à noite, no Recife.”

Portela, que no JT a gente chamava – nada carinhosamente – de Satã, porque tinha uma língua ferinamente satânica, como tem até hoje, depois de algum tempo acrescentou:

“Nossa! Servaz, diante de outras respostas, estou me sentindo um crápula. E alcoólatra, ainda por cima. Está vendo como é uma bosta ser sincero? Esqueci o que dizia Nelson Rodrigues, meu avatar: ‘Minta, minta! Por misericórdia, minta!’”

Portela foi meu primeiro editor, em 1970, quando cheguei ao JT foquinha de tudo e mais um pouco. Sempre tive o maior respeito por ele. Em 1971, ele decidiu – contra a opinião de algumas pessoas da Editoria de Reportagem Geral, que me achavam verde demais para a tarefa – me mandar como repórter especial para fazer matérias sobre o carnaval do Recife. Fiz algumas matérias de página inteira – poderia levar umas 100 linhas contando sobre isso –, e, carnaval acabado, me dei de presente mais um dia no Recife sem trabalho, de descanso puro. Me encontrei com Toninho Portela, o irmão do Fernando citado acima, e passamos umas cinco horas ou seis horas conversando e enchendo a cara num bar da Boa Viagem, de frente pro mar.

Mas isso não tem nada a ver com o tema o que você fez com seu primeiro salário.

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Charles Magno Medeiros:

“Fora o pagamento das minhas despesas diárias, comprei Crime e Castigo e fui ver Quem tem medo de Virginia Woolf, de Mike Nichols, lançado no ano anterior nos EUA.”

Elizabeth Santos de Almeida:

“Com meu primeiro salário da UFF, eu comprei uma jóia, que antigamente a gente podia usar na rua sem problema.”

Márcia Velloso:

“Comprei duas mudas de roupa pra poder trabalhar, comida pra ajudar em casa e guardei para poder pagar as passagens para trabalho e faculdade que esta última era bem longe.”

Di Monaco:

“Dei para minha mãe. Ela era a gerente da economia doméstica. Eu e minhas irmãs éramos responsáveis pela manutenção da casa. Meu pai faleceu quando eu tinha 12 anos.

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E você, eventual e caríssimo leitor? O que fez com seu primeiro salário? Pio e eu continuamos convidando a todos os que quiserem participar dessa brincadeira aqui, uma brincadeira gostosa, mezzo nostálgica, mezzo sociológica. Mezzo saudosista, mezzo curiosa. Mezzo “ah, que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha juventude querida que os anos não trazem mais”, mezzo estudo antropológico.

Agosto de 2016

2 Comentários

  1. Postado em 16/08/2016 às 5:42 pm | Permalink

    Correio da Manhã, sucursal de São Paulo, março de 1970. Recebi o primeiro salário e sai do Edifício Zarvos direto para uma leiteria da Xavier de Toledo, onde serviam um maravilhoso capuccino. Entrei na área do restaurante e pedi um filé a parmeggiana. Quando fui servida, mal toquei no prato. Sem companhia, pareceu muito sem graça. Fui criada em uma família que, reunida, celebra refeições.

  2. valdir
    Postado em 17/08/2016 às 7:57 pm | Permalink

    Não tenho a menor lembrança do quanto recebi, e o que fiz do dinheiro, como arquivista no escritório da fábrica de biscoitos Duchem, no centro de São Paulo, aos dezesseis anos. Só sei que não fui para a farra, porque o dinheiro não daria para molhar o biscoito.
    Servaz, você fica lançando a pecha de satânico no Portela por coisas pequenas. Como ele ter mandado para o jornal entrevista com o agente secreto do navio que trazia os restos do D.Pedro I, de Portugal para cá, no Sesquicentenário. Saudades do Toinho.

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