A cabra e a confiança

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O cronista Nelson Rodrigues não tem culpa nenhuma, mas a cabra vadia tomou conta de nós. Nelson teria gostado muito de Samuel Goldwyn, se o tivesse conhecido. Judeu nascido Gelbfisz na Polónia, passou a Goldfish em Inglaterra e fez-se Goldwyn e produtor em Hollywood. Ora Goldwyn não queria cá saber da cabra vadia: nunca se deixou atormentar pela dúvida que hoje nos corrói a confiança.

Goldwyn fez filmes com a ambição de um Napoleão e com o espírito limpo de um Buda, um Jesus Cristo. Filmaram com ele John Ford, Howard Hawks e, sobretudo, William Wyler. Quando os lindos olhos dos meus leitores viram o Monte dos Vendavais, Os Melhores Anos da Nossa Vida, Porgy and Bess, era como se o estivessem a ver a ele. E com ele se riem, ao rirem-se com Ball of Fire. Como também é ele que dança quando Marlon Brando e Jean Simmons dançam em Guys and Dolls. Sentia, ria e dançava com uma crença pura.

Deixem que seja Goldwyn a apresentar a sua orientação moral e estética: “Objecto veementemente a que se veja no ecrã o que só se deve ver nos lençóis de uma cama.” Era essa a linha moral dele: nunca fazer do ecrã um lençol. É uma moral paralela à sua linha emocional de inabalável crença num crescimento exponencial: “O que quero é uma história que comece num tremendo terramoto e que siga em crescendo até um espectacular clímax.” Não admitia, vê-se, que a cabra vadia lhe andasse a pastar as histórias.

Seguro de si, Goldwyn acrescentou até algumas jóias à língua inglesa. É dele, embora Chaplin reclame a paternidade, a frase: “Em duas palavras: im – possível.” Mas ninguém, nem o vadio Chaplin, contesta que “Incluam-me fora” é um oxímoro goldwyniano. Conhecedor dos baixos fundos da natureza humana, foi ele que, à sua maneira criativa, disse: “Os realizadores mordem sempre a mão que põe os ovos de ouro.” Falava da sua própria mão, que punha ovos de ouro em perfeita sintonia com o coração do grande público. Ria o mesmo riso da sala cheia, chorava as mesmas lágrimas. Foi abençoado, a expressão é do cineasta Lindsay Anderson, com a divina confiança que o levava a não ter a mínima dúvida: o Bem era o filme que casava a moral certa, a estética certa e o seu certo instinto comercial. Que cabra vadia roeu em nós para termos perdido esta crença e confiança?

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

Monte dos Vendavais, no original Wuthering Heights, no Brasil é O Morro dos Ventos Uivantes.

Ball of Fire é literalmente Bola de Fogo.

Guys and Dolls é Eles e Elas.

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