Turow invoca os deuses gregos

Três histórias de gêmeos passaram pela cabeça privilegiada de Scott Turow para que ele construísse Idênticos/Identical, seu 11º romance, lançado em 2013 nos Estados Unidos e em 2014 no Brasil, pela Editora Record. Duas são histórias reais. A outra é da mitologia grega.

Uma história é pessoal – e dramática.

“Minha fascinação com gêmeos começou antes dos 3 anos, quando minha irmã Vicki nasceu”, conta o próprio Turow, no posfácio do livro, “Notas sobre fontes”. “A gêmea que minha mãe carregava com Vicki nasceu morta. Esse evento pairou sobre minha infância e, desde então, o que significava ser e ter – e perder – um irmão gêmeo e o contraste inevitável com outros relacionamentos têm sido uma preocupação minha em algum nível.”

zzturrow1A segunda história real envolve um assassinato que mereceu grande destaque na imprensa americana, em especial na região de Chicago, onde Turow nasceu em 1949, em família de judeus russos. Valerie e Sharon eram irmãs gêmeas, nascidas em 1944, filhas de Jeanne Dickerson e Charles Harting Percy, rico homem de negócios e político republicano, que em 1966 foi eleito senador por Illinois e seria depois reeleito duas vezes, chegando a ser considerado um dos possíveis candidatos do Partido Republicano à presidência da República nos anos 70.

Exatamente em 1966, no dia 18 de setembro, quando Charles Percy fazia campanha para o Senado, sua filha Valerie foi espancada e esfaqueada em sua cama na mansão da família junto do Lago Michigan.

Embora o caso – por envolver a filha de uma figura importante – tenha sido amplamente noticiado, e tenha havido longas e teoricamente minuciosas investigações, jamais se identificou o autor do crime. É um dos mais famosos casos de assassinato ocorridos nos Estados Unidos que jamais foram solucionados – como o de Elizabeth Short, a Dália Negra, que inspirou o livro homônimo de James Ellroy e o filme de Brian De Palma.

***

Em Idênticos, a filha de um rico homem de negócios e candidato a governador do Estado é espancada e assassinada na sua própria cama. A moça não tinha irmão gêmeo, mas namorava um rapaz que era gêmeo univitelino – o qual acaba assumindo a culpa pelo crime, é condenado e passa 25 anos na cadeia.

zzturow2Segundo conta Scott Turow no posfácio, depois do final da belíssima trama que, na edição brasileira, ocupa 374 páginas, foi apenas alguns meses depois de estar trabalhando no novo romance que ele se lembrou da história de Valerie Percy: “Eu estava trabalhando há alguns meses em Idênticos quando percebi que tinha retirado alguns detalhes básicos do crime principal de um dos mais famosos assassinatos não resolvidos de Chicago, o de Valerie Percy, que ocorreu em setembro de 1966, a alguns quilômetros da casa de meus pais.”

Não há por que duvidar da palavra de Turow, de que ele já estava desenvolvendo a história quando percebeu que nela havia detalhes semelhantes aos do caso Valerie Percy. Seguramente a história real havia ficado no fundo da memória dele – afinal, Turow estava com 27 anos quando Valerie foi assassinada, e seguramente leu muitas notícias sobre o caso.

Ele faz questão de garantir: “não há nenhuma semelhança pretendida entre qualquer membro da família Percy e qualquer um dos personagens completamente fictícios de meu romance”. E em seguida explica: “Uma inspiração muito mais direta para o romance veio daquele que sempre considerei um dos mitos gregos mais comoventes, a história dos gêmeos Castor e Pólux.”

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Ah, a mitologia grega… Que coisa mais absolutamente fantástica. As histórias que aquele povo criou, sei lá, entre 10 e 6 mil anos antes de Cristo, estão entre as mais belas, mais consistentes e influentes que já foram criadas pela humanidade. Têm a mesma importância para a história e a cultura mundial que a Bíblia e o Corão – embora, ao contrário destes conjuntos de relatos, não tenha uma versão escrita definitiva, única. Eram histórias passadas oralmente através das gerações; os grandes autores do teatro clássico grego, assim como os grandes filósofos, usaram as histórias da mitologia – e o resultado é que há diferentes versões de cada uma delas.

E é fantástico, porque, segundo a Bíblia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Já os gregos criaram os deuses à imagem e semelhança dos homens: os deuses do Monte Olimpo têm todos os sentimentos e emoções humanas, amor, ódio, medo, desejo, ciúme, inveja… Bebem. Trepam alucinadamente.

Os mitos, as histórias arquetipais dos deuses gregos foram fundamentais para as bases da psicanálise. Não entendo lhufas dessa área, mas desde criança a gente ouve falar em complexo de Édipo, complexo de Electra – do mesmo jeito que usamos as expressões calcanhar de Aquiles, cavalo de Tróia, agradar a gregos e troianos…

Me apaixonei pela mitologia grega creio que como todos brasileiros letrados da minha geração, que é exatamente a de Scott Turow, a geração nascida nos anos seguintes ao final da Segunda Guerra Mundial: através de Monteiro Lobato.

zzturow3Não li os livros de Monteiro Lobato na ordem certa de publicação, e um dos primeiros que li foi O Minotauro. Ainda tenho em casa um exemplar – necessitando terrivelmente de um tratamento, uma reencadernação – de O Minotauro da sexta edição de capa dura, de 1954, da Editora Brasiliense, é claro, com as ilustrações originais de André Le Blanc.

Os Doze Trabalhos de Hércules, li numa edição fantástica, sempre da Brasiliense, de 12 brochurinhas, uma para cada um dos trabalhos. Uma colega minha do Grupo Escolar do Instituto de Educação de Minas Gerais ia me emprestando – não me lembro se um a um, ou se dois a dois, sei lá. Já acho fantástico me lembrar dessa edição em 12 livrinhos pequenos – e é uma lembrança forte que tenho.

Não sei precisar quantos anos tinha quando devorei todos os livros de Monteiro Lobato, mas tenho a certeza de quando, quando meu irmão Arnaldo me deu de presente de conclusão de curso primário a bela coleção de capa dura (de segunda mão, que não sobrava dinheiro, mas e quem se importava com isso?), não tinha nenhum inédito. Reli a maioria, mas dá para garantir portanto que li O Minotauro e Os 12 Trabalhos antes de fazer 11 anos.

Dá até vontade de relê-los, porque a sensação que a gente tem é de que Monteiro Lobato conseguiu a proeza de, nessas duas obras, apresentar as histórias mais fundamentais da mitologia grega, de uma maneira organizada, estruturada.

Se eu fosse um sujeito organizado na vida, mais estudioso, menos dispersivo, teria lido muito mais sobre mitologia grega do que li. No final dos anos 90, li o primeiro volume dos vários do eruditíssimo, seriíssimo pesquisador Junito de Souza Brandão. Deveria ter lido os demais. Deveria ter lido Homero. A rigor, ainda há tempo.

Afinal de contas, aquele povo que hoje ameaça a estabilidade econômica da Europa unificada no passado simplesmente inventou o conceito de cidade, de democracia, de filosofia e, de quebra, como se não fosse muita coisa, o teatro tal como o conhecemos hoje.

Perdão: viajei longe aqui com essas memórias.

Um dos personagens mais fascinantes do grande número de personagens de Idênticos, o veterano investigador Tim Brodie, foi casado com uma grega, morou num bairro que concentra imigrantes gregos e seus filhos, e, em 2008, quando se passa a ação principal do romance, usa seu tempo livre para ler livros sobre a mitologia grega.             A grande maioria do personagens principais de Idênticos é da colônia grega, descendente de gregos.

Sim, viajei, viajei, e não falei da história de Castor e Pólux, que, segundo Turow, foi uma inspiração direta para a elaboração da trama de Idênticos.

***

zzturow5Zeus, o deus dos deuses, o mais poderoso do Olimpo, encantou-se por Leda, uma humana belíssima, recém-casada com Tíndaro, herdeiro do trono de Esparta. Sabendo que a linda Leda era fiel ao marido, Zeus transformou-se em um cisne para se aproximar da mulher enquanto ela se banhava num rio. Leda pôs o cisne no colo, o acariciou – e, meses depois, gerou dois ovos. Um era do marido, e dele saem Castor e Clitemnestra. O outro era de Zeus, e dele saem a bela Helena – a que será um dos motivos da guerra de Tróia – e Pólux; como são filhos de Zeus, Helena e Pólux são imortais.

Os irmãos Castor e Pólux, embora vindos de ovos diferentes, de pais diferentes, são gêmeos idênticos, e têm adoração um pelo outro.

O mortal Castor, no entanto, é ferido numa batalha, e morre. Pólux fica inconsolável, pede ao pai que traga o irmão de volta do reino dos mortos, o reino do deus Hades. Se isso não fosse possível, Pólux argumenta com o pai, então ele também rejeita a imortalidade, para encontrar-se novamente com Castor na terra dos mortos.

Diante desse desejo tão forte do filho, Zeus cede, e faz uma combinação com Hades: os dois irmãos passariam parte do ano no reino dos mortos e outra parte no Olimpo.

Na página 223 da edição brasileira de Idênticos, o leitor se depara com uma situação um tanto semelhante ao maravilhoso mito de Castor e Pólux. E a semelhança ficará absolutamente nítida já bem no finalzinho do livro, exatamente na página 340.

Ah, sim: segundo uma das versões da história, Zeus transformou Castor e Pólux em estrelas. Eles são hoje as estrelas da constelação de Gêmeos.

Quem acredita em horóscopo pode não saber, mas está sempre se referindo a Castor e Pólux. A Nasa também se referia a eles, quando criou o Programa Gemini, em 1962, quatro anos antes do assassinato na vida real da ricaça Valerie Percy e exatos 20 anos antes do assassinato da fictícia Dita Kronon, filha de Zeus Kronon.

***

Idênticos tem tantos personagens – e os nomes deles, vindos do grego, são seguramente tão estranhos à imensa maior parte do público leitor americano – que Scott Turow decidiu fazer uma tábua de personagens, antes do início de seu romance. Como se costuma fazer no início dos livros de peças de teatro, como se faz ao final dos filmes, o cast of caracteres.

Então temos que, depois de uma página de epígrafe – quatro versos retirados de A Comédia dos Erros, de William Shakespeare –, há uma página com a tábua dos principais personagens.

São duas famílias, os Gianis e os Kronon. Muito rapidamente veremos que são  ligadas por profundos laços de amor e ódio que atravessam gerações,.

Paul e Cass Gianis são os gêmeos univitelinos, idênticos, da trama. Lídia Gianis é a mãe deles.

O patriarca da família Kronon é Zeus – exatamente Zeus, o nome do deus dos deuses. Estranho, não? Há judeus que dão a si próprios o nome de Jeová? Ou muçulmanos que batizem os filhos com o nome de Alá? Bem, que há Mohammeds a dar com pau, lá isso há, assim como proliferam os Jésus, Jesus, Cristiano e coisas parecidas.

Na verdade, o nome de batismo dele era Zizis. Na escola, os colegas americanos, os nada gregos, começaram a associar o som do nome a sissy – maricas, mariquinhas. E então, no ensino médio, ele passou a se assinar Zeus, conforme o leitor fica sabendo ainda bem no começo do livro, na página 50 (sempre me referindo, à claro, à primeira edição brasileira, da Record).

Veremos que isso é bem típico de Zeus, dar a si mesmo o nome do deus dos deuses. Zeus é um homenzarão grande, belo, poderoso, daquele tipo que tem o rei na barriga, se acha o melhor e mais importante homem do mundo – e tem até alguns motivos reais para achar isso.

Na família Kronon há ainda, conforme mostra a tábua de personagens, três personagens fundamentais. Um é Hal Kronon, primogênito de Zeus, que herda, com a morte do pai, a presidência da ZP, uma milionária empresa do ramo imobiliário. Outra é Teri, irmã de Zeus e melhor amiga de Lidia Gianis. E há ainda Dita Kronon, “irmã de Hal, vítima de assassinato”.

Antes de começar a narrativa, Scott Turow informa ao leitor que Dita foi vítima de assassinato.

Dita, na verdade, foi o nome que ela, born in the USA demais da conta e nada ligada às tradições dos antepassados, adotou, em lugar do original Afrodite, que os jovens americanos não saberiam pronunciar. Afrodite, a deusa do amor e da beleza – que os romanos chamaram de Vênus.

zzturow6Venus and Mars are all right tonight, dizia Paul McCartney. Planetas, diversas, diversas estrelas e constelações levam nomes originários na mitologia grega. Os deuses gregos estão para sempre impregnados no nosso inconsciente, segundo o doutor Sigmund, e também no céu para o qual olhamos tão menos do que deveríamos.

A tábua de personagens se complementa com dois investigadores: Evon Miller, apresentada como vice-presidente sênior de segurança do ZP, a empresa de Hal, e Tim Brodie, de quem já falei mais atrás, e é apresentado como “ex-detetive da Divisão de Homicídios responsável pela investigação da morte de Dita na época”.

***

Idênticos se compõe de cinco tomos, ou livros, ou partes, cada um deles com vários capítulos. Cada parte é identificada pelo algarismo romano correspondente, ou seja, de I a V. Cada capítulo – assim como Turow usou em outros de seus livros, e é uma delícia – tem um título que inclui a data da ação.

Cada uma das cinco partes abre com um capítulo que se passa no dia 5 de setembro de 1982 – o dia em que Zeus deu uma grande festa para a comunidade grega em sua casa, e ao fim do qual Dita foi espancada e assassinada dentro de seu próprio quarto, na sua própria cama.

Os demais capítulos de cada parte vão sendo apresentados em rigorosa ordem cronológica, e sempre no ano de 2008 – o hoje da história. O livro, repito, foi lançado em 2013; como a ação se dá em 2008, é praticamente nos dias atuais.

Um intervalo de 25 anos entre uma data – o dia em que Dita Kronon foi assassinada – e os dias de hoje, em que, após cumprir um quarto de século de prisão em estabelecimento de segurança mínima, Cass Gianis, irmão gêmeo idêntico de Paul Gianis, está para ser libertado.

Em 1982, Cass era namorado de Dita.

Em 2008, quando Cass está para ser libertado, Paul, senador estadual, líder da maioria, está concorrendo à Prefeitura.

Hal Kronon, o irmão de Dita, hoje o presidente da empresa milionária iniciada por Zeus, vai à Justiça tentar impedir que Cass seja solto. Mais ainda: dá declarações à imprensa de que Paul Gianis participou do crime.

E mais não precisa ser dito sobre a trama em si de Idênticos – uma trama fascinante, fantástica, maravilhosa, produto de uma mente de genial criatividade.

***

Os livros de Turow já foram publicados em 40 línguas, e venderam mais de 30 milhões de exemplares.

O problema é que o gênero de seus livros costuma ser definido como “literatura policial” – e literatura policial não é bem vista por quem se condidera dono da literatura, a academia e a crítica.

Agatha Christie escrevia numa prosa digna de uma ginasiana atenta, essa é que é bem a verdade. Bem, ao menos na minha opinião, essa coisa que não vale mais que uma nota rasgada de 3 guaranis paraguaios contrabandeada para o Mato Grosso. As tramas que ela bolava eram sensacionais, e algumas são de se aplaudir em pé, como na ópera. (A peça Testemunha de Acusação e a novela O Assassinato de Roger Ackroyd, só para dar dois exemplos, são das tramas mais geniais que já foram escritas.)

A prosa de Sir Arthur Conan Doyle, no entanto, é profundamente diferente da da velhinha doida. Tem riquezas fantásticas.

O próprio criador do que viria a ser chamado de literatura policial, Edgar Alan Poe, tinha uma prosa que faz a viagem de muito professor de semiótica. Ué, pois já não fizeram teses de mestrado sobre a escolha do nome Usher no conto “The Fall of the House of Usher”? Usher, disseram tantos acadêmicos, é uma fenomenal criação que une as expressões us, she e her – o significado já vindo com a própria palavra escolhida para ser o significante!

Mas o Establishment teima em diferenciar “literatura policial” de “literatura”. Insiste em que onde há crime a literatura é menor.

Acho que eles deveriam dizer isso ao pobre Fiódor Mikhailovich Dostoievski, tadinho.

O texto de Scott Turow é admirável. Sempre foi.

É muito difícil esquecer a primeira frase de Ônus da Prova/The Burden of Proof, de 1990, o segundo dos romances do autor:

“Foram casados por trinta e um anos, e na próxima primavera, cheio de decisão e com alguma esperança, ele tornaria a casar-se. Naquele dia, porém, o sr. Alejandro Stern voltava para casa. Com a maleta e a mala de viagem ainda nas mãos, da entrada, meio distraído, chamou Clara, sua mulher. Tinha cinquenta e seis anos, era atarracado e calvo, nunca fora propriamente bonito, e via-se num clima de intensa preocupação.”

Que maravilha de abertura de romance!

Na página seguinte, a segunda página de texto do livro, o advogado Alejandro Stern, conhecido como Sandy, encontra Clara morta na garagem. Ela tinha se matado com o gás do escapamento dos carros.

Este Idênticos traz belíssimas passagens com considerações sobre a vida o amor a morte. Há dúzias de frases lapidares, pérolas esculpidas por ourives calmo, meticuloso.

O que é absolutamente surpreendente, se o eventual leitor notar que Turow – que poderia perfeitamente viver dos direitos autorais de suas obras – tem trocentas outras atividades.

O cara fez Direito, é claro – ninguém poderia escrever tão bem sobre o mundo do Direito sem ter estudado. Mas não foi só. Ele trabalhou na promotoria de Chicago, participou de casos cabeludérrimos de investigação de esquemas de corrupção. Faz questão de se manter ligado a um grande escritório de advogacia de Chicago, e trabalha como advogado, em geral em casos pro bono, sem ganhar um tostão. Em 1995, conseguiu libertar um sujeito de ascendência latina que havia passado 11 anos no corredor da morte, condenado à pena capital. Já participou e presidiu associações de escritores e de juristas. Evidentemente, é um sujeito de esquerda no espectro político americano, e combate, por exemplo, a pena de morte.

Nas horas extras, escreve literatura da melhor qualidade, o filho da p…, perdão, de boa senhora judia.

***

zzturow8Scott Turow poderia perfeitamente situar suas histórias em cidades reais. Ele é da região de Chicago – poderia fazer seus personagens viverem em Chicago. Dennis Lehane conhece a região em que viveu e morou, Boston, e então seus personagens são de lá. John Grisham, esse outro extraordinário criador de belas tramas policiais e jurídicas, homem do Sul, cria personagens do Sul, gente do Mississipi, do Tennessee, da Lousiana. Luiz Alfredo Garcia-Roza nasceu e cresceu em Copacabana, e então o delegado Espinosa anda e investiga em Copacabana, assim o comissário Maigret investiga crimes em Paris e seus arredores, bem conhecidos do belga radicado na França Georges Simenon.

Turow não quis essa simplicidade, essa obviedade. Inventou um mundo à parte,

Mas aí é que está. Enquanto um autor como o sul-africano J. R. R. Tolkien inventa um mundo à parte, algo meio outro planeta, outra era, outro diapasão da realidade, e muito mais recentemente a inglesa J. K. Rowling cria um mundo alternativo, ao qual se chega por uma fenda de tempo ou sei lá de que numa estação de trem de Londres, Turow cria uma metrópole formada pela união de três cidades diferentes situadas ali mesmo onde ele nasceu, o Meio-Oeste americano.

O condado de Kindle, que Turow criou da mesma maneira com que Tolkien inventou a Terra do Meio e Rowling fez Hogwarts, é tão invenção quando esses outros dois citados. É coisa fictícia, não existente na vida real.

Só que, em Kindle, tudo acontece como na vida real.

Ou seja: enquanto outros criam universos à dessemelhança deste nosso mundinho pobre, sujo, babaca, e, sobretudo, real, Scott Turow cria um local que não existe – mas que é idêntico a qualquer lugar real do mundo.

A Fifa poderia ter agido em Kindle. A Petrobrás poderia ter comprado ali, e não no Texas, uma refinaria imprestável, pagando por ela 200 vezes o valor real.

Para os cristãos, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Os gregos criaram os deuses à nossa imagem e semelhança. Scott Turrow criou um universo que geograficamente é fictício, não existe – mas em que as histórias são exatamente iguais às das cidades em que vivemos.

Turow estava em tamanha boa forma ao escrever Idênticos que ele conseguiu fazer uma ligação clara, nítida – e que tem toda a lógica – entre a situação da empresa de Hal Kronon, do ramo imobiliário, com o estopim da grande crise financeira de 2008, o maior abalo que o regime capitalista já enfrentou desde a quebra da Bolsa de Nova York em 1929. O bicho é fogo.

***

Mas o mais fantástico é que Turrow torna secundários em alguns de seus livros personagens que, em outros, foram fundamentais.

zzturow7Por exemplo, Alejandro Stern, Sandy Stern. Ele está na abertura de O Ônus da Prova, e é o protagonista, o principal personagem daquele segundo romance do autor. Já havia aparecido no primeiro livro, Acima de Qualquer Suspeita/Presumed Innocent, lançado em 1987 e transformado em maravilhoso filme de Alan J. Pakula de 1990. Nessa história (e no filme ele é interpretado maravilhosamente por um Raul Júlia, no centro na foto, em momento esplendoroso), Sandy Stern é o advogado de defesa de Rusty Sabich (no filme, interpretado por Harrison Ford), o assistente da promotoria que é acusado de ter assassinado sua colega e amante Carolyn Polhemus (no filme, a estonteante Greta Scacchi).

O promotor, o chefe tanto de Rusty quanto de Carolyn, e também amante dela, era Raymond Horgan.

Os anos passam, as pessoas mudam de posto nos cargos oficiais da promotoria, da magistratura. Em 2008, época da ação deste fantástico Idênticos, Raymond Horgan trabalha como advogado para Paul Gianis. Sandy Stern, bem velhinho, respeitadíssimo, lenda viva, é advogado de defesa de Cass Gianis.

Scott Turow, esse filho da mãe, criou uma Terra do Meio, um mundo de Hogwarts, que, infelizmente, se parece muito mais com o lugar em que vivemos do que qualquer tipo de distopia desesperançada.

9 de junho de 2015

Ah, um PS: ao ler a página 126, anotei o que poderia ser uma verdade até então não revelada. Meu chute foi confirmado como verdade na página 232. Na página 129, cravei como possível a identidade final do assassino – confirmada no finalzinho da narrativa. Isso demonstraria que, como livro de mistério, de suspense, ele é falho? Bah! Coisa nenhuma. É um livro maravilhoso, extraordinariamente bem escrito, com uma trama fantástica. Se eu consegui sacar umas coisinhas antes, é porque estou sabendo chutar direitinho. Poderia até tentar um vestibular.

Um Comentário

  1. MILTINHO
    Postado em 11/06/2015 às 4:11 pm | Permalink

    Enfim o textinho. Como sempre bem escrito mas também como sempre o Sérgio divaga, enfia o pé na jaca e escorrega na maionese, mistura, política, romance policial, gregos, mitos, deuses, Turow com Lobato e Dostoievski, livros, crime e literatura, Chicago, Copacabana e Paris, suportes físicos e cinema, chama os críticos de tadinhos. Enfim, transforma tudo em texto, como diz Fernanda. Mas não separa, não aborda tudo a seu tempo e lugar. Põe tudo no liquidificador do seu febril teclado, melhor ou pior transforma 50ANOS em vitamina amplamente salutar, mas de digestão difícil e lenta, e com excesso de C, D e E. Sérgio sai e entra em campo sem qualquer parcimônia, tudo SÓ para enaltecer o livro IDENTICAL.

    CREIO que é uma técnica do jornalista para sutilmente introduzir PAUTAS em 50anos. Recentemente um texto sobre a música Marina e o machismo de Caymmi gerou alguns comentários, concordâncias e discordâncias entre os abnegados seguidores do site.

    Fica difícil com minhas limitações acompanhar cerebrais vitaminas mas não poderia deixar de destacar a alusão à GRECIA ANTIGA. Parafraseando SerVaz… ‘Afinal de contas, os GREGOS o povo que hoje ameaça a estabilidade econômica da Europa unificada no passado simplesmente inventou o conceito de cidade, de democracia, de filosofia e, de quebra, como se não fosse muita coisa, o teatro tal como o conhecemos hoje’.

    A representatividade política também foi obra dos GREGOS. A ideia da volta do sorteio na política vem ganhando fôlego e surpreendendo muitos daqueles que num primeiro momento desconfiam desse saber profano.O uso do sorteio na política.

    Na Grécia Antiga, havia três formas de se ingressar no poder: por eleição, por indicação e por sorteio. Isso mesmo, os cidadãos podiam ser escolhidos, de forma aleatória, para exercer cargos transversais ao que hoje chamamos de Legislativo, Executivo e Judiciário.

    Para Aristóteles, o sorteio era a forma mais democrática, já que qualquer cidadão podia exercer um cargo no poder. Mais tarde, os fundadores das repúblicas modernas rejeitaram esse mecanismo. A tese mais famosa é de que eles não queriam a volta da “verdadeira democracia” grega e sim uma nova aristocracia eletiva.

    Parafraseando SerVaz de novo…
    ‘Perdão: viajei longe aqui com essas memórias’.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Julieta em 04/11/2017 às 6:39 pm

    […] fisga o espectador como se aquilo fosse um thriller de Agatha Christie, de Stieg Larsson, de Scott Turow, de Jo Nesbø, e não um drama familiar em que não há detetive, crime, assassinato, […]

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