Levar você pra jantar no Maksoud

Leio na Vejinha que há um movimento para reavivar o Maksoud – e aí me dá uma vontade danada de escrever um textinho sobre o Maksoud, ou – vá lá – escrever um textinho usando o Maksoud como pretexto.

A manhã não nasceu azul ainda, mas, diacho, como é um bom poder tocar um instrumento, e meus dedinhos coçam para tocar as teclinhas. Infelizmente, meu computador faleceu anteontem, pela décima quarta ou décima quinta vez, e então meus dedinhos têm que se conformar com o teclado do laptop que Mary me deu pra eu tentar viver sem o teclado do computador que insiste em falecer a cada dois meses, e a verdade é que meus dedinhos de velho não se adaptaram ainda ao teclado do laptop, sentem falta do teclado velho como os pés sentem falta dos chinelos antigos.

Como seria bom tocar um instrumento que os dedos conhecem bem…

Mas estão aí os dedos tocando as teclas do laptop e tergiversando, fugindo do assunto, que é o Maksoud.

***

Tive um motivo forte de tristeza hoje – minha irmã está muito, muito mal, e não sei o que fazer, mas não quero falar sobre isso. Fiquei abalado, triste, e botar Kate Wolf pra ouvir, vários discos de Kate Wolf sem parar, não ajudou muito. Ouvir Kate Wolf é uma daquelas experiências que me fazem crer que talvez, afinal de contas, a humanidade não seja uma invenção que deu completamente errado – mas o som de Kate Wolf não é propriamente alegre. É lindo, é suave, é profundo, tem um espetacular cheiro de terra – mas é um tanto tristonho, melancólico.

E então, ao ler na Vejinha que o Maksoud “tenta retomar os bons tempos”, fiquei com vontade de sentar aqui e fazer um textinho.

Fui olhar os LPs na sala. Só tenho um LP do Língua de Trapo – na verdade estão lá dois exemplares do mesmo LP, um meu, um da Mary. Mas não é não nesse disco que está a música que diz “eu não pude, eu não pude levar você pra jantar no Maquissude”.

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“Eu não pude, eu não pude levar você pra jantar no Maquissude.”

“Fundado em 1979 por Henry Maksoud e seu filho Roberto, o hotel era um dos símbolos da elite paulistana da década de 80 e chegou a ser considerado o mais chique do país”, informa a matéria de duas páginas da Vejinha, que tem o título de “Os novos hóspedes do Maksoud Plaza”.

Sou um caipira, um troncho, um sem jeito. Sou a pessoa menos chique que já pisou na casca deste planeta – et pourtant, e no entanto, por mais que isso pareça estranho, tenho histórias com o Maksoud.

Fomos, Regina e eu, não uma, não duas, mas várias vezes ao 150 Night Club, a boate no piso abaixo do térreo, para a qual se entrava pela Alameda Campinas, número 150 – daí o nome do lugar. Era carésimo, como tudo, absolutamente tudo no Maksoud. Mas íamos com convite, na época em que eu estava no Jornal da Tarde,  e escrevia sobre música, e o pessoal da Variedades recebia convites, e algumas vezes me repassava. E então íamos, Regina e eu, na faixa, como se dizia.

Minha memória daquelas idas ao 150 Night Club são um tanto enevoadas. Exigia-se paletó? Não me lembro. Tomávamos uísque a preço de ouro? É provável que sim – ganhávamos relativamente bem, naqueles tempos, início dos anos 80.

Teríamos visto e ouvido Bobby Short? Creio que sim, que estávamos lá quando a lenda do jazz dos anos 80 dos melhores night clubs de Nova York tocou no Maksoud.

Me lembro que vimos Alberta Hunter. Alberta Hunter era o must, a coisa mais in, mais apreciada por quem sabia apreciar o que havia de melhor no jazz. Velhinha, bem velhinha, tinha a agilidade, a alegria de uma criança linda.

Regina e eu discutíamos sobre tudo, sobre cada tema possível. Acho que sobre Alberta Hunter não discutimos. Adoramos vê-la, tão pertinho de nós  – o 150 Night Club era um lugar bem pequeno, íntimo, aconchegante.

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Ao longo dos muitos anos em que Regina e eu fomos nos separando, tive algumas namoradas. Uma delas foi uma moça bem jovem, extremamente bela, que era fotógrafa da revista Afinal, da qual eu era então editor de Cultura. Em 1986, quando a revista já estava afundada no vermelho, e havia cada vez menos gente na redação, Claude Lelouch veio ao Brasil divulgar seu filme Um Homem, Uma Mulher Vinte Anos Depois/Un Homme et Une Femme Vingt Ans Déjà. Ficou hospedado no Maksoud – era o melhor hotel da cidade! -, com a sua mulher da época, Marie-Sophie Pochat. Organizaram entrevistas de Lelouch – um dos meus grandes ídolos de todos os tempos – para pequenos grupos de jornalistas, quase como se fossem exclusivas, e eu me inscrevi.

Nunca fui bom repórter. Sou bom copydesk, editor de texto, editor, mas não sou bom repórter, entrevistador. Mas lá fui para entrevistar o homem, porque achava que era importante para a revista.

Foi uma das minhas grandes experiências da vida como jornalista – como passar um dia inteiro com Chico Buarque para fazer uma matéria de capa da revista Afinal, como viajar ao Havaí para fazer matéria de uma página do Jornal da Tarde sobre turismo, como visitar diversas empresas canadenses da área de telecomunicações, como fazer um  curso de jornalismo econômico na sede da Reuters em Londres, como entrevistar Nara Leão ao longo de uma tarde inteira no apartamento dela em Ipanema.

Lelouch falou sobre o fato de todos os grandes hotéis modernos do mundo serem iguais, impessoais e idênticos, em qualquer lugar, Xangai, Paris, Nova York ou São Paulo.

A fotógrafa lindérrima, deslumbrante, por quem eu estava apaixonado, fez as fotos de Lelouch, naquele salão do Maksoud, ao lado de Marie-Sophie Pochat. Fiz um texto de duas páginas sobre o filme, com diversas aspas de Lelouch ditas apenas para a revista Afinal.

Isso foi em 1986. Mais tarde ainda, não sei se no final de 1987 ou no começo de 1988, a revista Afinal já se encaminhando para o brejo, voltei ao Maksoud para mais uma entrevista. Fomos, Bernardo Carvalho e eu, entrevistar Luíza Brunet. Lembro que era um fim de semana. Combinamos de nos encontrar no grande hall do Maksoud, aquele magnifico hall central, em que é possível ver os elevadores panorâmicos em ação. Lembro que estávamos sentados – e de repente Luíza Brunet surgiu, ao lado do então marido, um argentino simpático (sim, sim, existem argentinos simpáticos).

Me lembro como se fosse hoje: Luíza Brunet chegou perto de nós, nós nos levantamos das cadeiras. Quanto mais eu me levantava, mais eu via que a deusa não acabava nunca, que era muito, mas muito mais alta que eu.

Fomos então para um das salas privativas do Maksoud, para a entrevista. Luiza Brunet foi uma maravilhosa entrevistada, simpática, sorridente, à vontade. Resultou numa linda capa da revista.

***

A matéria da Vejinha fala que está se estabelecendo uma parceria do Maksoud com a MK2. A MK2 é o que há – é, em termos globais, o que a Versátil é no Brasil, a melhor empresa lançadora de filmes em DVD.  Cada DVD da MK2 é uma preciosidade, uma obra de arte. A MK2 lançou na França, por exemplo, toda a obra de Chaplin e de Truffaut, com horas e horas e horas de material adicional. Quando Mary me carregou até Paris, fomos a um cinema da MK2 em St. Germain de Près – e comprei alguns DVDs da MK2 que não existem por aqui.

Há anos não vou a cinema – prefiro ver os filmes em casa. Mas, quando for inaugurada a sala da MK2 no Maksousd, vou lá. Ah , sim, vou lá. E, mesmo que tenha que gastar o INSS do mês inteiro, vou convidar Marynha para comer um sanduíche no Maksoud.

18 de janeiro de 2015

4 Comentários

  1. Postado em 18/01/2015 às 1:07 pm | Permalink

    Mary, se é para ele te levar ao Maksoud comer um sanduíche, recuse. Exija um jantar, um belo e inesquecível jantar.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 19/01/2015 às 1:22 am | Permalink

    Valdir, eu mais que ninguém sei que Mary merece o melhor. Mas minha aposentadoria só dá para pagar um sanduíche no Maksoud – jamais um jantar!
    Sérgio

  3. LUIZ CARLOS TOLEDO
    Postado em 19/01/2015 às 2:26 am | Permalink

    Digitando aqui no meu smartphone, gostaria de deixar registrado que o seu texto no laptop é tão delicioso quanto os do velho desktop, Sérgio.  Ainda mais tratando-se de um laptop treinado pela Mary Zaidan, obviamente familiarizado com grandes textos. Mas, apenas um sanduíche? Depois de ter usado o laptop dela para falar de
    fotógrafas lindérrimas, o risco é ela deixar você com os dedinhos coçando e só emprestá-lo de novo após um convite para jantar no Maksoud. Siga o conselho do Valdir, Mary: exija um jantar,  nada menos do que um belo jantar.

  4. Postado em 21/01/2015 às 4:56 pm | Permalink

    Prezado Sergio Vaz,

    Tive o prazer de ler o seu texto sobre as lembranças do Maksoud Plaza, a pretexto da matéria “Os novos hóspedes do Maksoud Plaza”, publicada na Veja São Paulo desta semana.

    Os seus relatos de experiências recheados de detalhes enriquecem ainda mais a nossa história.

    Obrigado pelas considerações tão carinhosas ao nosso hotel!

    Um abraço,

    Henry Maksoud Neto

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