Aproveitemos para caçar ursos

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Era homem para dobrar a natu­reza. E mulhe­res, dizem. Mesmo que só o tenham amado metade das que amou, ou com quem se dei­tou, já daria para fazer um gra­ci­oso cor­dão humano à volta dos estú­dios da Fox ou da Warner.

Dar­ryl F. Zanuck nas­ceu no Nebraska. Os pais injectaram-lhe uma com­pe­ten­tís­sima edu­ca­ção pro­tes­tante. Come­çou como gui­o­nista, e há quem jure que os pri­mei­ros guiões dele eram plá­gios retin­tos, para pôr os pon­tos que até ele punha nos ii. Quei­xas que a His­tó­ria engoliu.

Zanuck depressa des­co­briu a voca­ção de saca-dinheiro, a alma de pro­du­tor. Na Fox, na War­ner, ou inde­pen­dente, Zanuck pro­du­ziu fil­mes para o seu tempo e à frente do seu tempo. Era eu miúdo quando vi o nome dele no gené­rico do Dia mais Longo. Pen­sei que era um gene­ral e não me enga­nei muito. Foram os galões e as estre­las dele que fize­ram nas­cer o pri­meiro sonoro, The Jazz Sin­ger, o grito do povo de The Gra­pes of Wrath, de Ford, o All About Eve, onde já está, todi­nha e em sobres­sal­ta­das cur­vas, a Marilyn Monroe.

Era um tirano. Quero, posso e mando. Tinha na sua lista de paga­men­tos um argu­men­tista, Edward Cho­do­rov, muito bom em cano­a­gem. “Quero levar um amigo às Mon­ta­nhas Rocho­sas. Vamos lá fazer canoa con­tigo, ok?”

Foi o que Cho­do­rov ouviu da boca de Zanuck. A cor­tês for­mu­la­ção não dis­far­çava a ordem de ferro que aquilo era. Quando che­ga­ram, Zanuck com­ple­tou a frase: “… apro­vei­ta­mos para caçar ursos.” Se a pers­pec­tiva assus­tou Cho­do­rov, a ver­dade é que foi ao amigo de Zanuck, um rea­li­za­dor do mudo, que lhe deu uma coi­si­nha má e se apa­gou. Esta­vam nas Rocho­sas e tinham um morto às cos­tas. Por terra, demo­ra­riam seis dias a trans­por­tar o cadá­ver. De canoa, era meio-dia. Zanuck apon­tou o rio a um ater­rado Chodorov.

As neves esta­vam a fundir-se e o rio era um pedaço de mau cami­nho, cheio de rápi­dos e tur­bi­lhões. Em frente, man­dou Zanuck. E, para desa­nu­viar, per­gun­tou, e não foi ao morto: “O que achas de um filme todo con­tado do ponto de vista de uma mosca?” Cho­do­rov, ner­voso, desa­ba­fou: “É nojento.” Um tur­bi­lhão apa­nha, então, a canoa, numa con­vul­são de água e inferno. Cho­do­rov pen­sou que mor­riam ali os dois e o morto outra vez. Não foi o que Zanuck pen­sou. Por causa do peso do cadá­ver, a canoa aguen­tou e desa­gua­ram, vivos, na parte calma do rio. Sem pes­ta­ne­jar, Zanuck quis logo saber: “O que é que­res dizer com nojento?”

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

manuel.s.phonseca@gmail.com

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia.

The Longest Day, em Portugal O Dia Mais Longo, no Brasil é O Mais Longo dos Dias. The Grapes of Wrath no Brasil é Vinhas da Ira. All About Eve é A Malvada. E, se o Manuel me perdoar pela ofensa de traduzir português para português, eu lembraria que genérico, em francês générique, no Brasil são os créditos, e guião é roteiro.

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