Brasilidades

Foi mais uma semana extraordinária.

A operação Lava Jato continua deixando cadáveres à beira do caminho. O último foi um vice-almirante, chamado pelos “nacionalistas” de “pai do programa nuclear brasileiro”, abatido a golpes de propinas que, segundo as denúncias apresentadas, somariam R$ 4,5 milhões de reais.

Poucas pessoas no Brasil, e até mesmo no mundo, deveriam saber que o Brasil não apenas tem “um programa nuclear”, mas que ele estava confiado a um vice-almirante de reputação ilibada, agora acusado de receber propina, e segundo as teorias conspiratórias de sempre, um patriota alvo das calúnias da CIA, interessada, talvez, em barrar o mergulho de nosso submarino nuclear nas águas profundas do jogo de poder mundial.

O vice-almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, presidente licenciado da Eletronuclear, segundo o Ministério Público, seria a marca da passagem das safadezas do Petrolão para a área nuclear, que alguém resolveu batizar de “atomicão”.

Assim como ninguém pode ser considerado culpado até prova em contrário, ninguém também pode ser considerado inocente apenas por uma suposta “reputação ilibada” ou por ostentar uma farda militar, um fetiche capaz de provocar devotas reverências tanto à esquerda quanto à direita do espectro político; tal como as linhas paralelas, qualquer mente lúcida sabe que esquerda e direita acabam se encontrando no infinito.

As almas afoitas que saíram em defesa da reputação do vice-almirante não se contentaram em propagandear a sua reputação de homem probo, mas acrescentaram a essa virtude o fato de ser, afinal de contas, o depositário de todo o nosso conhecimento nuclear, como se isso, por si só, fosse uma garantia de inviolabilidade de caráter ou um certificado de inimputabilidade.

Deixemos o vice-almirante fardado aos cuidados da investigação da Policia Federal e do Ministério Público e passemos às considerações que podem ser feitas a partir das declarações do deputado José Guimarães, líder da bancada do PT na Câmara Federal, que reagiu de maneira bastante cômica às informações de que a agência de risco Standard & Poors estava anunciando um corte na perspectiva do rating do Brasil de estável para negativa.

Guimarães é cearense de Quixeramobim, filho de agricultores, irmão de José Genoíno. Teve seus 15 minutos de fama proporcionados pela prisão de um assessor seu, José Adalberto da Silva, no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, flagrado com US$ 100 mil em espécie escondidos na cueca.

Por causa disso, passou até mesmo a ser confundido com seu assessor, e identificado como “o homem do dinheiro na cueca”. Injustiça. Nem a cueca nem o dinheiro eram dele.

José Guimarães, tido como o patrono e avalista da cadeira de presidente do Banco do Nordeste, assumiu a liderança da bancada do PT na Câmara em substituição ao gaúcho Henrique Fontana, que não se dava bem com Eduardo Cunha, e passou a expressar sem nenhum pudor suas peculiares opiniões a respeito dos fatos da vida.

Sobre a decisão da agência de risco Standard & Poors, Guimarães sentenciou:

– Essas agências não têm nada que se meterem no Brasil, deviam estar preocupadas com a vida delas, não com o Brasil. Essas análises não deveriam nem ser levadas em conta, isso não tem a menor importância.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 31/7/2015. 

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