Uma formiguinha

Era uma vez uma formiguinha que saiu pra passear, andou, andou, andou, despencou. Isso é cantado enquanto um dedo matreiro vai fazendo cócegas na criança, que quase se desmancha e rola de rir. Pode ser assim, simples, o jeito de levar a vida. Não é mania atual, sempre houve, mas como está ocorrendo agora, no presente, fico alarmado com o excesso de complicação no falar, no agir e no pensar de tanta gente.

Não falo de questões complexas, que precisam ser analisadas com rigor e precisão. Eu me refiro ao comum das coisas, aos incidentes diários de cada um. O que pode ser feito se faz e acabou-se. O que não está ao nosso alcance, que lá fique e sigamos em frente. Uma resposta dada sem nenhuma grande intenção pode se transformar num maremoto familiar. Amores se desfazem, inimizades se criam por insignificâncias.

Sofrer por antecedência é algo cruel para a tranquilidade da qualquer um, mas teimamos em cometer essa insanidade. A viagem vai acabar mal, um desastre pode ocorrer, alguém vai se ferir. Ora, não é inteligente destruir o prazer antes que ele se realize. Deixe o mundo acontecer. É lógico que não dá para encher a cara de bebida , sair pela estrada e julgar que tudo está sob controle. Não vou escalar montanhas que não tenho condições de enfrentar. Vou me agasalhar no frio e me desnudar, com protetor solar, no verão. Fora essas precauções, porque supor que uma pedra vai cair em minha cabeça, que um buraco vai se abrir no meu caminho? O acontecimento só existirá no momento em que ocorrer.

Prefiro sonhar belezas, prever belezas, imaginar belezas. Essas, se a gente cuida bem, acabam existindo na vida de todos os que estejam dispostos a conquistá-las. O grau de contentamento com a quantidade de beleza que se quer depende de cada um. Pois a vida, por mais que o mundo faz e os meios de comunicação gostem de divulgar o contrário, tem mais amores do que dores.

Isso eu constato em minha experiência, eu que sou um homem comum no meio de tantos. As conversas que tenho, nos meus contatos sociais, quando exponho meu trabalho, quando dialogo com profissionais de várias áreas e condições culturais e econômicas, tudo me leva a usufruir de um sentimento incontrolável de que a vida vale a pena.

Tenho meus momentos de meditação, quando tento me aprofundar nos mistérios da história humana, na presença constante de poderosos subjugando os cidadãos pela guerra, pela tortura, pela prisão e pela miséria. E os movimentos cíclicos das populações na busca de liberdade e democracia.

Mas a música e a poesia, mais que elas, a vida, me levam para longe do ceticismo. Não tenho receita, mas seria bom que todos procurassem onde está a beleza que merecem e necessitam.

Quanto a mim, gosto de quem gosto e sou um coração aberto para a gostância. Quero simplesmente fazer umas cosquinhas nos netos, para que eles riam e eu com eles.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em abril de 2012.

Um Comentário

  1. Gislene Capistrano
    Postado em 04/05/2012 às 7:16 pm | Permalink

    Prezados.
    Sou estudante de arquitetura e estou fazendo pesquisa sobre o Mercado Central de Belo Horizonte, trata-se do papel que Mercado central tem assumido atualmente, se anterior era mais voltado para cultura atualmente o mesmo tem cumprido um papel muito voltado para comércio e lucratividade.
    Se possível gostaria de tratar com Fernando Brant sobre a questão já que o local apesar de idealizado tem perdido cada vez mais seu papel principal de conservação de cultura das Minas Gerais.
    No aguardo.

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*