Canções de amor demais: Kate e Eric

Eric escreveu uma bela canção para Kate. Kate escreveu uma bela canção para Eric. Eric fez uma bela gravação de uma das mais maravilhosas canções de Kate. Não exatamente nessa ordem.

Ficamos imaginando, Mary e eu, se Kate teria alguma vez comido Eric. Conhecemos pouquíssimo da vida de Kate, mas nos parece que ela foi uma grande comedora. Não deixava passar. Se alguma vez se viram, com certeza ela o comeu.

Mas não dá para saber se eles se viram alguma vez na vida. Kate era californiana, Eric é um escocês que foi parar na Austrália. Há meio mundo separando Austrália e Califórnia.

Os tempos de verbo são reais. Kate, apaixonada pela vida, morreu jovem demais. Eric, que escreveu diversas músicas falando de morte, está vivo.

***

As músicas de Kate Wolf têm cheiro de terra, de poeira de estrada de terra. São o contrário, por exemplo, das canções dos Cowboy Junkies, que, apesar de terem cowboy no nome, são urbanóides até a espinha. As canções dos Cowboy Junkies, a voz de Margo Timmins, elas têm cheiro de gasolina, poluição, sujeira de asfalto. E são notívagas, noturnas.

As músicas de Kate são solares, matinais – como a personagem que Domingos Oliveira criou para seu grande amor em Todas as Mulheres do Mundo. São rurais, campestres. Suavemente caipiras. Falam de flores, mato, colinas, lua, luar, rios – e amor, é claro, essa coisa que dá no campo e na cidade.

Eis a letra de “Cornflower Blue”, a música californiana (do interior, das colinas, não das praias) que o escocês tornado australiano gravou:

Cornflower blue bloomin’ in the morning sun,

tiny flowers that grew from when our love had just begun.

Long ago we planted, each dry and dusty row                

how long it has taken for the seeds of love to grow, cornflower blue.

Cornflower blue, like the faded shirt you wore,

standing in the shadows, when I opened up the door.

The smile in your eyes, when you said hello,

Held me tenderly and it would not let me go, cornflower blue

Cornflower blue, deeper than the evening sky,

peaceful as a river, bluer than goodbye.

Blue like the diamond, when the light shines true

if love came in colours, I’d choose this one for you, cornflower blue.

***

Pequeninas flores que cresceram quando nosso amor estava apenas começando. Flor azul, como a camisa desbotada que você usava, de pé nas sombras, quando abri a porta.

Flor azul de um azul mais profundo que o céu da noite, tranquila como um rio, mais triste-azul que adeus, azul como o diamante quando a luz o atravessa – se o amor viesse em cores, eu escolheria essa cor para você.

Ah, que maravilha.

Renato Teixeira dizia que o simples resolve tudo. É bem verdade.

O simples é a mais bela expressão da poesia.

“Bluer than goodbye”. Blue, que é azul e triste ao mesmo tempo – cornflower blue. Mais triste e mais azul que o adeus.

***

Do outro lado do Equador e do Pacífico, o escocês expatriado ouviu a música que não tocava muito no rádio – Kate Wolf tocou muito pouco no rádio –, e fez uma versão extraordinária de “Cornflower blue”. Mas não bastava, e então ele compôs “Katie and the Dreamtime Land”.

“Katie and the Dreamtime Land” é uma maravilha, uma pérola, uma gema, exatamente como “Cornflower Blue”. Traz a melhor definição possível da música criada por Kate Wolf: sweet songs and soft guitars. Canções doces e violões suaves. Esse é exatamente o tipo de música de que mais gosto (e, felizmente, o tipo de música de que Mary mais gosta). Sweet songs and soft guitars.

The dusty miles we’ve came today were weary hard and long

But all that lies behind us now as we lift our voice in song

Is joy of good companionship is written on each face

But for me around this fire tonight there is an empty space

And oh you would have loved it, Kate, beneath those Southern stars

As the night was filled with music, sweet songs and soft guitars

With faces in the fire light of those so dearly loved

With the Dreamtime Land beneath our feet

And infinity – infinity – above.

And I sang “Cornflower Blue” and thought of you.

***

Já me peguei mil vezes imaginando o que Kate Wolf deve ter sentido ao ouvir essa canção – ela, que sabia tão bem fazer belas doces canções com violões suaves.

E, ah, você teria amado aquilo, Kate, embaixo das estrelas do Sul, a noite cheia de música, sweet songs and soft guitars, com as faces daqueles tão caramente amados iluminadas pela fogueira, com a Terra dos Sonhos embaixo de nossos pés e o infinito, o infinito (ele canta com uma pausa aqui) acima de nós. E eu cantei “Cornflower Blue” e pensei em você.

***

O que terá impedido Kate Wolf de viajar de suas colinas interioranas até San Francisco e lá pegar um avião para comer Eric Bogle na Austrália, fosse nos desertos imensos sob as estrelas do Sul, fosse num hotel qualquer?

Ou, inversamente, o que terá impedido Eric Bogle de viajar até a California e ser comido pela moça linda?

Bem, a verdade é que não sei se isso aconteceu. Pode ter acontecido – por que não?

Uma vez, muito tempo atrás (antes de Mary, portanto), uma mulher que conheci criança cruzou o Equador e acabou me comendo, depois de muita briga interna porque tinha um compromisso de fidelidade. Aí relaxou e gozou e se lembrou de uma bela frase que alguém tinha visto pintada num muro: “Contra uma paixão platônica, nada melhor que uma trepada homérica”.

Pensei nessa frase quando li o livro e vi o filme A Pele do Desejo/Salt on Our Skin. Depois de maduros, os personagens atravessam o oceano para se encontrarem uma última vez nas Ilhas Virgens Britânicas e se comerem com a pele do desejo, o sal na pele. Cheguei a pensar na possibilidade de marcar um encontro com a moça de firme commiment nas Ilhas Virgens. Foi só intenção, sem qualquer gesto.

***

Kate escreveu de volta para Eric uma maravilha chamada “Poet’s Heart”:

I wrote to you somewhere in South Australia

A poet’s hear in the eye of a hurricane

I struggle with finding words to sing these days I said

As if my thoughts are waiting in the wings for the stage to clear

And you in your elegance and humor fill the room your love and your concern

Your anger at the injustice of man’s narrowness and fear.

I thank you for being here.

I heard your songs reach out to California

A poet’s heart locked in the Coeur d’Alene

Of the old men and the booze singing out the truth in lives

Of forgiveness and loyalties to friends,

Constant as the endless railroad ties.

***

Que esplendorosa essa relação de Kate e Eric.

Podem ter-se comido – ou não. Isso é o de menos.

Que maravilhas o amor, a amizade deles nos deixou.

Kate e Eric são daquelas pessoas que colocam em xeque a idéia de que a humanidade é uma invenção que não deu certo.

Quem sabe até que esse troço tem salvação?

Vários meses de 2012

2 Comentários

  1. Miryam Wiley
    Postado em 18/11/2012 às 3:35 pm | Permalink

    Meu amigo, você escreve bonito há pelo menos 44 anos. E o tempo não leva nada, só aprimora: os textos, a minha habilidade de apreciá-los, a tecnologia para encontrar mais público. A música parece ir mais fundo a cada que que é tocada, com direito a ser desligada por esse mesmo motivo… Life is good. Beijo saudoso!

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 18/11/2012 às 8:35 pm | Permalink

    Nossa, que comentário mais doce, e gentil, Miryam Lúcia queridíssima!
    Tem toda razão: life is good. E nós tivemos (e temos) muita sorte na vida.
    Beijo saudoso.
    Sérgio
    PS: Ah, sim, e mande mais textos, tá?

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