FHC propõe reflexão – e a reação é a burrice

Às vezes parece que o Brasil não merece Fernando Henrique Cardoso.

Seu artigo “O Papel da Oposição”, escrito para a revista Interesse Nacional e publicado na íntegra no Blog do Noblat, é, como tudo o que FHC escreve, brilhante, fascinante, sério e profundo sem ser chato. Ao contrário: o texto dele está cada vez mais gostoso, fácil de ler, agradável.

Fernando Henrique traz à baila, para que sejam discutidas, diversas idéias, variadas informações. Entre elas:

- A oposição “não pode se acomodar com a falta de autocrítica e insistir em escusas que jogam a responsabilidade pelos fracassos no terreno ‘do outro’”;

- O PT é “contorcionista”; sua defesa do socialismo é só para enganar trouxas; nacional-desenvolvimentismo é só uma etapa; o que ele busca é o hegemonismo – e a oposição deveria expor isso;

- Setores da oposição, mesmo no PSDB, ainda acreditam nas “mensagens atrasadas do esquerdismo petista ou de sua leniência com o empreguismo estatal”;

- O petismo no governo tem diminuído o papel político dos governadores, “bastião do oposicionismo em Estados importantes”: “a relação entre prefeituras e o governo federal saltou os governos estaduais e passou a se dar mais diretamente com a presidência da República, por meio de uma secretaria especial colada ao gabinete presidencial”.

São apenas uns poucos exemplos de tópicos importantes que Fernando Henrique coloca na mesa para discussão.

E o que fazem os jornais e os próprios líderes dos partidos de oposição? Apegam-se única e exclusivamente à frase em que o ex-presidente usa a palavra “povão” – uma frase, de resto, de perfeita lógica, carregada de sentido: “Enquanto o PSDB e seus aliados persistirem em disputar com o PT influência sobre os ‘movimentos sociais’ ou o ‘povão’, isto é, sobre as massas carentes e pouco informadas, falarão sozinhos”.

O sociólogo tarimbado, o político que na presidência fez este país avançar uma enormidade, o presidente de honra do maior partido de uma oposição hoje em frangalhos propõe uma discussão, apresenta diversas idéias, considerações – e a reação é toda em cima da palavra ‘povão’.

No meio das declarações apatetadas dos líderes oposicionistas, só Dora Kramer veio defender a inteligência, em seu artigo desta quarta-feira no Estadão. A pensata de Fernando Henrique sobre o papel da oposição, disse ela, não requer apoio ou repúdio, mas um exame detido. “É um roteiro”, escreve ela. “Que pode ser visto como um convite à reflexão sem que necessariamente se concorde em tudo com ele.”

É para refletir, meu Deus do céu e também da terra. Não é para gritar palavras de ordem como se fosse um Fla-Flu.

O problema é este: às vezes a oposição – e até a imprensa – fazem um esforço danado para demonstrar que o país está condenado à burrice. Que não merece Fernando Henrique Cardoso.

O que veio logo depois

Postei o texto acima em 14/4/2011, quinta-feira, à 2h30.

É preciso registrar que Dora Kramer acabaria não ficando sozinha no campo da lucidez, com seu artigo da quarta-feira no Estadão. Na quinta, O Globo, em um daqueles mini-editoriais dele, afirmou: “Importa que FH tem razão quando destaca a importância da nova classe média. Assim como também é indiscutível que a política clientelista do PT, financiada pelo dinheiro do contribuinte, cooptou sindicatos, organizações ditas sociais e parte do ‘povão’, via programas assistencialistas”.

Na sexta, também no Globo, Merval Pereira voltou ao tema, alinhando-se com a lucidez: “O extenso artigo tem uma infinidade de análises e conceitos, é uma espécie de roteiro de ação para as oposições, escrito mais pelo sociólogo do que pelo político FH. E os políticos, tanto da oposição quanto governistas, apegaram-se em uma frase para criticar o todo”.

Também na sexta, Sandro Vaia abordou a questão na coluna semanal do Blog do Noblat – republicado neste 50 Anos de Texto – com sua lógica perfeita e seu texto exato e incisivo.

Alguma luz em meio às trevas.

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2 Comentários

  1. melchíades cunha jr
    Postado em 15/04/2011 às 1:07 pm | Permalink

    Servaz, ótimo texto, na forma e no conteúdo. FHC usou aspas ao grafar as expressões povão e movimentos sociais, exatamente para prevenir o leitor a não cair no reducionismo e na má fé, como ocorreu entre seus opositores e alguns admiradores. E a imprensa, para não variar, aumentou a desinformaçã. As “mentes cativas” de que falava Tony Judt, ao que parece, permanecem como maioria em várias redações.

  2. NC
    Postado em 15/04/2011 às 6:01 pm | Permalink

    Trágico que seja preciso escrever tal texto, mas por isso mesmo necessário. Só faria um comentário a um dos pontos: não é que “o socialismo é para enganar trouxas, o que o PT busca é o hegemonismo”. O socialismo É o hegemonismo, incluindo a onipresença do Estado na vida do cidadão, nem tanto mais na área econômica, mas na sua vida privada (desarmamento, leis anti-homofobia, histeria antiracista, anti-”elitismos” etc.)

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