A greve dos jornalistas, assunto muito sério

A greve dos jornalistas de São Paulo teve episódios cômicos, alguns absolutamente hilariantes – como, por exemplo, o diálogo entre o dr. Ruy Mesquita e Nicodemus Pessoa, os dois chacoalhando o gelo em seus copos de uísque, ou o refrão berrado pelos piqueteiros diante do prédio do Estadão para Luiz Fernando Emediato, lá na redação, no sexto andar: “Luiz Fernando Emediato / Desça Emediatamente!”

Mas foi também, é claro, um acontecimento extremamente sério, com conseqüências que exibiram reflexos por muitos anos.

As duas faces da greve – a jocosa e a importante – voltaram a ficar bem claras a partir do texto que publiquei aqui duas noites atrás, no início da madrugada do sábado, dia 18 de junho, 32 anos depois.

Era para ser um texto engraçadinho – mas tinha um erro de informação

Fiz um textinho que se pretendia brincalhão, gozativo, da série de Histórias de Jornalistas, a partir de uma lembrança do Sérgio Rondino a respeito de um dos episódios engraçados da reunião de todos os jornalistas em postos chaves do Jornal da Tarde com o dr. Ruy Mesquita, na casa dele, na Rua Angatuba, logo após o final do greve.

No texto, afirmei que praticamente todos os jornalistas do JT haviam votado a favor da greve. Era um erro, e um erro grave. Assim que avisei a um grupo de amigos, ex-colegas do JT, que o texto estava no site, recebi um e-mail de Sérgio Rondino detalhando que a redação do JT não havia aprovado a greve, e outro de Anélio Barreto, também apontando meu erro.

Como, felizmente, na internet podemos corrigir os erros com muita rapidez, mexi no meu texto, tentei colocar os pingos nos is, disse que fomos uma minoria os do JT que votamos a favor da greve.

Falar da greve de 32 anos atrás mexe muito com as pessoas

Mas o fato é que, em menos de 48 horas, o textinho que postei aqui provocou umas 30 trocas de mensagens entre o pequeno grupo de sete amigos. A greve de 1979 mexe com nossas memórias, com nossos brios, 32 anos depois, como se tivesse sido decretada ontem.

Aliás, a greve foi decretada na assembléia da Igreja da Consolação, ou na assembleia no Tuca?

Essa foi uma das perguntas que nos fizemos.

Eu achava que tínhamos saído da Consolação com a greve decretada. Elói Gertel e Sandro Vaia se lembravam de que a greve começou após a assembléia do Tuca.

Uma rápida pesquisa na internet mostra que a greve foi aprovada nas duas assembléias, e decretada na segunda, a do Tuca; havia se estabelecido que a greve só seria decretada caso fosse aprovada por mais de dois terços dos presentes à assembléia, e os dois terços só foram obtidos na segunda grande assembléia, a do Tuca.

Na saída do Tuca – foi Valdir Sanches que lembrou –, havia gente da editoria de Variedades chorando. Não porque a greve tivesse sido aprovada, nada disso, mas por um motivo mais importante: nossos colegas haviam acabado de receber a notícia de que Flávio Márcio havia morrido.

Flávio Márcio era um jornalista brilhante, um texto brilhante. Mineiro, como boa parte da redação original do JT, trazido de Minas por Murilo Felisberto, como boa parte da redação original do JT. Havia trabalhado no Diário de Minas, como tantos outros mineiros – Fernando Mitre, Fernando Gabeira, Moisés Rabinovici, Gilberto Mansur. (Quando garoto, ainda em Minas, eu havia amado o texto de Flávio Márcio sobre o filme Os Companheiros, de Monicelli, babado em cima dele.) Estava doente, e a notícia de sua morte chegou primeiro aos colegas da Variedades no momento em que saíamos da assembleia no Tuca, greve re-aprovada e agora decretada.

Os filhões do patrão, exultantes

Foi então na madrugada após a assembléia do Tuca – nossas trocas de e-mails confirmaram –, na madrugada em que chegou a notícia da morte de Flávio Márcio, que, bebendo no Alemão da Avenida Antártica como em todas as noites, recebemos a visita de Ruyzito, Fernão e Rodrigo, triunfantes, nos entregando exemplares recém-impressos do JT, com a manchete “Jornalistas em greve” – ou seria “Os jornalistas de São Paulo estão em greve”, que é como Valdir Sanches se lembra?

Os filhos do patrão exultantes, nós, recém declarados grevistas, tristes, decepcionados: de que serve uma greve de jornalistas se os jornais continuam saindo?

Valdir Sanches, repórter extraordinário, dos melhores que este país já teve, escreveu em mensagem para os amigos: “No Alemão creio que ficamos na mesa grande, redonda. Não, acho que mais perto da porta. Eu estava de costas para a porta, alguém bateu no meu ombro, virei, era o Ruyzito, ou o Fernão, e eles entregaram justo para mim – que não integraria o Grupo da Angatuba, nem nada – a pilha dos jornais com a manchete ‘Os jornalistas de S. Paulo estão em greve’. Se a memória não trai, disseram ‘para vocês’, e se foram.”

Cada testemunha, um testemunho

Cinco testemunhas, cinco testemunhos. Pelo que me lembro, estávamos na mesa grande, a redonda, a “da diretoria”. Na primeira versão de meu textinho que pretendia ser só uma brincadeira, a reprodução do diálogo do dr. Ruy com o Pessoinha, escrevi que me lembrava do Ruyzito chegando ao Alemão com os exemplares do jornal que comprovavam que não éramos necessários para que o jornal saísse às bancas. Foi numa mensagem do Sandro que ficou claro para mim que não era apenas o Ruyzito, que ele estava com Fernão e Rodrigo.

Não me lembro se eles ficaram um minuto, dois, cinco, ou se apenas entregaram os exemplares do jornal e disseram “para vocês” e se foram. Cada pessoa guarda uma parte da verdade em sua memória.

“Se houver correções, devem ser feitas”

Anélio avisou: “Eu discordo quanto a parar com correções. Acho que, mais que um bom texto, este é a reconstituição de um episódio histórico e que, por isso mesmo, deve ser o mais exato possível. Portanto, se houver correções, devem ser feitas.”

Melchíades mandou mensagens lembrando que votou contra a greve: “Eu também votei contra, e compareci a todas as assembléias, uma delas na Igreja de São Domingos, na Rua Caiubi, onde o Orlando Duarte, entre outros, foi vaiado por discursar contra a greve. Na redação da Eldorado, no prédio da Marginal, todos também foram contra a greve, com exceção do então secretário de Redação, de nome Sílvio, que era assessor do Delfim Netto. Não trabalhamos, acho que uns dois dias, e recebemos aquela advertência que ficou para sempre registrada nas fichas do Departamento do Pessoal. Lembram disso?”

Sim, eu lembro disso.

Sim, eu era um jovem inconsequente, e não tenho tanta vergonha assim de confessar

Melchíades também se lembrou das pichações espalhadas pela cidade, “Jornalistas em greve: não compre jornais”.

E, sim, morrendo de vergonha, me lembro bem disso. Regina e eu, jovens e inconsequentes, como eu nos defini no post anterior, dedicamos algumas horas de nossas vidas a sair pichando esses dizeres na Cidade Universitária, em Pinheiros… Tenho da greve outras lembranças embaraçosas: eu de manhã participando de piquete, chefiado por Juca Kfouri, diante das Femininas da Abril, na Rua do Curtume (onde, por ironia, muitos anos depois eu iria trabalhar chefiado por Regina na Marie Claire); eu de tarde participando do piquete diante da Folha, na Barão de Limeira, vaiando a chegada do colunista social Tavares de Miranda.

Ah, a juventude (mesmo aos quase 30 anos), essa doença que felizmente o tempo cura…

Longo, doloroso silêncio. E aí alguém berra: “Fala, Suplicy!”

Sandro se lembrou de Suplicy na assembléia do Tuca: “Lembro, na assembléia do Tuca, de um interminável e insuportável discurso do camarada Eduardo Suplicy. Até hoje não consegui entender se ele era contra ou a favor da greve, ou muito pelo contrário. Lembro também que na porta do Tuca estava lá, para dar apoio aos companheiros jornalistas, o companheiro metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva. Não lembro que fim deu esse sujeito.”

Me lembro de um maravilhoso detalhe do discurso do camarada Suplicy. O camarada Suplicy, que se apresentou na assembléia do Tuca como jornalista (ele escrevia artigos para algum jornal, e talvez até tivesse o registro de jornalista no Ministério do Trabalho), fazia seu interminável discurso, como são intermináveis todos os seus discursos, e lá pelas tantas ele travou; ficou alguns segundos, muitos segundos sem falar nada, travado, como se tivesse acabado de receber uns uppercuts no rosto, dos tempos em que foi boxeador, ou como se tivesse naquele momento acabado de perder o eixo. E então alguém, lá do fundo do Tuca, certamente um reacionário filha da puta, berrou: “Fa-la-Su-pli-cy” – e a assembléia, embora majoritariamente formada por gente que seria mais tarde petista, caiu na maior gargalhada.

Aparece lá por perto dos jornalistas um companheiro metalúrgico

Mas e o companheiro metalúrgico de que falava o Sandro, que teria sido visto na porta do Tuca?

Eu me lembro de ter ouvido falar que a figura estava na porta do Tuca.

Melchíades se lembra daquele companheiro metalúrgico, “não na porta do Tuca, mas no boteco ao lado do Sindicato, na Rua Rego Freitas. Ele ficou ali carteando marra, bebendo uma cachaça. E lembro perfeitamente quando ele disse aos circunstantes que nós, jornalistas, íamos nos ferrar; que a greve estava condenada ao fracasso. Não precisava ser profeta e muito menos sábio para sacar que não ia dar outra.”

Ao que Sérgio Rondino se lembrou de que “Lula foi levado lá para dar mais que ‘apoio’… foi levado à mesa e deu aos ‘companheiros jornalistas’ algumas lições de como se fazia uma greve de verdade, etc. Meninos, eu vi. E aposto que naquele momento vários ‘companheiros’ da categoria molharam as calças de emoção… puxa, olha ali um operário de verdade! Que moral, heim?”

Com sua lucidez cortante, Sandro questionou, nas nossas lembranças sobre a greve:

“Mas era um operário de verdade, ou era o Lula?”

A voz calma que por um momento nos desviou da CUT

Sérgio Rondino, com sua eterna sobriedade, se lembrou de Emir Nogueira. Sim, eu também me lembro de Emir Nogueira, dizendo para todos nós, com voz séria, calma, pausada, que estávamos fazendo uma imbecilidade ao decretar a greve. Por algumas dessas brincadeiras que a vida faz com a gente, um sobrinho meu mais tarde acabaria se casando com uma sobrinha dele – mas esse detalhe não tem qualquer importância na ordem dos fatos. Por outra trapaça do destino, a vice na chapa de Emir Nogueira seria a jovem Lu Fernandes, que assumiria a presidência do Sindicato pós-furacão greve, pós-furacão Davi de Morais-Jim Jones, e tentaria dar alguma dignidade a ele, antes que o povo pró-enfrentamento reassumisse, se filiasse à CUT e transformasse o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo nisso que ele é hoje: um absoluto nada.

Melchíades aponta que a greve acabou propiciando uma união patronal que não havia antes, ou ao menos não era tão forte. “Antes, Frias, Mesquitas, Edmundos Monteiros, Civitas não se conversavam e davam a impressão de que se detestavam. Depois, bem depois é o que se vê até hoje.”

A greve é assim: 32 anos depois, ainda nos faz falar sério, discutir – e também rir um pouco, porque, afinal, ninguém é de ferro.

E isso assim porque este humilde sitezinho é uma invenção minha para a minha diversão, que só é visto pelos amigos, e por ninguém do lado de lá, os petralhas, os que acham que a greve fez avançar, e muito, a luta dos trabalhadores rumo ao paraíso socialista.

19/6/2011

6 Comentários

  1. Sérgio Rondino
    Postado em 20/06/2011 às 1:25 am | Permalink

    A propósito de pichações durante a greve, lembro bem de uma que vi naqueles dias e da qual nunca esqueci, porque era engraçada: “Não compre jornais. Minta você mesmo.”

  2. Sandro Vaia
    Postado em 20/06/2011 às 7:00 pm | Permalink

    Agora falando sério; a greve talvez seja a coisa mais importante que aconteceu na minha vida: 9 meses depois da semana de folga (na verdade,a greve não foi mais do que isso) nasceu minha filha Giuliana.Valeu,Jim Jones! Muito obrigado !

  3. Valdir Sanches
    Postado em 21/06/2011 às 7:32 pm | Permalink

    Servaz, o texto ficou ótimo, e chegou à fórmula perfeita: o fato histórico e o humor, convivendo perfeitamente. Ou deliciosamente. O uppercut do Sandro no Suplicy está muito gozado. Ainda bem que, com toda aquela platéia, o Suplicy ainda não estava em sua fase de cantor punk.

  4. Postado em 26/06/2011 às 7:59 pm | Permalink

    Apreciei muito esse relato com fatos até então inéditos – pelo menos para este repórter, na época da greve correspondente da Folha de S.Paulo em Porto Velho (RO). Digam-me: qual o repórter que teria entrado no jornal por um túnel? Havia mesmo esse túnel? Ou seria esgoto? Ou a versão é irreal? É verdade que havia uma filha de um Mesquita favorável aos jornalistas em greve?

  5. Deny Oliver
    Postado em 28/07/2011 às 1:13 pm | Permalink

    Olá
    Meu nome é Deny Oliver sou cantor é compositor e estou entrando em contato com vocês
    Para ver se vocês podem fazer algo por mim!
    Sou um cantor popular, já tenho certo publico, mas ainda está muito distante de onde quero chegar!
    Tenho certeza que um dia serei um dos grandes vendedor de CDs desse pais, pois eu falo do sentimento de muitas pessoas, só preciso de uma porta aberta para que eu possa entrar, e que as pessoas possam me ouvir!
    Meu trabalho está sendo bem divulgado na net, pois coloquei meus vídeos no youtube e está sendo bem aceito o meu trabalho, dá uma olhadinha nos meus vídeos, por favor,
    São esses abaixo
    Agradecido
    http://www.youtube.com/watch?v=rDqAj9vK8Y0
    http://www.youtube.com/watch?v=8HrJ-Xy2AWI
    http://www.youtube.com/watch?v=Rfg-VfiLq0s
    http://www.youtube.com/watch?v=SNb1pEWZ3WA&feature=related
    http://www.youtube.com/watch?v=lqcK9u_t-1M&feature=related

  6. José Maria Araújo
    Postado em 06/10/2011 às 4:09 pm | Permalink

    Eu tinha 18 anos e era diagramador do NP na época, lembro das assembleias e em especial a que ocorreu na Casa de Portugal com a participação do Lula e também participei dos piquetes na Barão de Limeira. Hoje sou professor de Geografia, o jornalismo acabou para mim em 1982.

Um Trackback

  1. […] do II Exército, quatro anos antes -, havia emprestado a igreja para a assembléia que votaria pela greve dos jornalistas do Estado de São […]

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