Sinatra

“Quando Frank Sinatra morrer e for para o céu, a primeira

coisa que ele fará será procurar Deus e gritar com

ele por tê–lo feito careca.” (Marlon Brando)

Quando, no show de encerramento da Copa do Mundo, no Dodgers Stadium, em Los Angeles, os tenores Luciano Pavarotti, José Carreras e Plácido Domingo cantaram os primeiros acordes de “My Way”, os três acenaram e sorriram para um senhor de cristalinos olhos azuis sentado em uma das primeiras filas. Os olhos azuis brilharam, mas o corpo não executou todos os comandos e ele teve que ser apoiado para erguer-se e acenar de volta, retribuindo o cumprimento.

Era Frank Sinatra. Aos 78 anos, o velhinho vivia a emoção de ver–se homenageado pelos três mais disputados tenores do mundo, todos eles dando o melhor de si na interpretação de uma música que é Sinatra da cabeça aos pés.

Nada mau para um garotinho desenganado no parto e deixado de lado para morrer.

Um adolescente problemático que vivia brigando nas ruas e dizendo que seria um gângster.

Um sujeito de escrúpulos duvidosos que chegou a envolver–se com o inimigo público número um da América.

Ou para um cantor que se tornou tão formidável que é praticamente impossível apontar alguém, entre nós, nossos pais e avós, que não tenha cantarolado, ou dançado, ou namorado ao som de uma de suas canções.

Esta história real (ou uma lenda real?) começou em uma cidadezinha de Nova Jersey, ao lado do Rio Hudson, chamada Hoboken. Ali moravam, no número 415 da Monroe Street, o ex–boxeador Anthony Martin Sinatra e sua mulher, uma enfermeira e parteira, nascida Natalie Garaventi e chamada na época simplesmente Dolly, Dolly Sinatra. Os dois italianos: ele siciliano, ela genovesa.

Francis Albert Sinatra nasceu no dia 12 de dezembro de 1915. O parto foi difícil e o fórceps o marcou.

Um superbebê. Pesava seis quilos e pouco, tinha ferimentos no queixo e em uma das orelhas.

– Não acho que sobreviverá – disse o médico. – O melhor é que nos concentremos na mãe.

Rosa Garaventi, a avó, não levou o médico a sério: colocou o garotinho sob uma torneira de água fria e o choque fez com que respirasse.

Em dezembro de 1915 os Estados Unidos acompanhavam a guerra na Europa e dois anos depois entrariam nela. No cinema, chorava-se a morte de John Bunny, a primeira grande estrela da comédia americana, um abre-alas para Chaplin, Buster Keaton e Harold Lloyd, entre outros. E, enquanto o garotinho Sinatra crescia, outro gênero de filmes ia se firmando: o de gângsteres. Muitos consideram Underworld, de 1927, o primeiro deles.

O Sinatra adolescente acompanhou as aventuras de Little Caesar, O Pequeno César, com Edward G. Robinson, em 1930, e Scarface, com Paul Muni, em 32. Na tela eles eram vistos como heróis e, para os garotos com que Frank convivia, ser gângster estava na moda. Ele chegou a declarar, muitos anos depois, que gostara daquilo e talvez tivesse levado a coisa um pouco longe demais. Queria ser considerado um bandido, e chamava gângsteres por apelidos, era grosseiro, ameaçava pessoas e procurava exibir mau-caratismo entre maus-caracteres. Falava de uma garrafa que partiu sua cabeça em uma briga de quadrilhas, e de uma corrente de ferro que quase o aleijou, mas muita gente achou aquilo papo-furado, e que tudo o que Sinatra queria era aparecer.

Ele retrucou afirmando que foram apenas a música e seu talento que o impediram de tornar–se um bandido de verdade.

Imitando Bing Crosby

ao som do cavaquinho

Quando Frank tinha 15 anos, seu tio Dominick Garaventi deu-lhe um ukelele (irmão do cavaquinho) – um instrumento havaiano de quatro cordas, parecido com a guitarra. Ele conhecera há pouco uma garota morena chamada Nancy Barbato, e usou o ukelele em serenatas para ela: sentava–se em frente ao poste de rua na calçada e cantava imitando Bing Crosby.

Dolly não gostava disso: aquele garoto tinha que se formar em engenharia pela universidade ou, pelo menos, tinha que se dedicar a negócios. E ela é quem comandava a casa. O marido era do corpo de bombeiros, e Dolly, mulher muito ativa na política da comunidade, não descansou enquanto não conseguiu que ele fosse promovido a capitão. Dizia-se que ela gostava muito de ajudar as pessoas, mas esta é uma imagem que a escritora Kitty Kelley procurou retocar ao escrever His Way, a biografia não autorizada de Sinatra. Dolly, escreveu, vivia fazendo abortos nas mulheres de Hoboken, e uma vez foi presa por isso.

Na época das serenatas, mais precisamente em março de 1935, Frank – que era repórter iniciante, um foca, na seção de esportes do Jersey Observer, e pretendia fazer carreira como jornalista –, levou Nancy para ver Bing Crosby em pessoa, em um show em Jersey City.

Quando deixaram o teatro, Nancy percebeu que algo havia acontecido.

– O que há? Você não parece bem.

Ele engoliu em seco antes de responder:

– Vou me demitir do meu emprego.

E explicou:

– Quando vi aquele cara no palco, alguma coisa me aconteceu. Parecia que eu é que estava lá, não o Crosby. Eu tenho que ser um cantor.

Foi o que repetiu em casa. Dolly, dizem, pegou um sapato e esmigalhou o Bing Crosby sorridente que enfeitava uma das paredes do quarto do rapaz. Ela já não andava gostando muito daquele quadro desde o dia em que surpreendeu o filho penteado como o cantor e, como ele, com um cachimbo pendurado no canto da boca. Imitação tem limites, esperneou.

Era ela quem dava as ordens em casa, mas era também muito esperta, sabia que de nada adianta remar contra a maré: quando percebeu que não havia jeito, concordou com o filho e aceitou que ele deixasse a escola e procurasse um emprego em que pudesse cantar. Frank passou a apresentar-se em casamentos, em clubes, na escola,…

– Ele não tinha um emprego na época – lembra Marian Bush Schrieber, uma de suas primeiras namoradas – mas estava sempre metido com músicos. Sugeri que montasse uma banda para animar nossos bailes das quartas-feiras na escola, e em troca a banda permitiria que ele cantasse algumas canções.

Sinatra decidiu que aprenderia a cantar cantando e ouvindo cantar. Gastava todo o seu dinheiro em discos, que ouvia até se estragarem. Escolheu Bing Crosby e a orquestra de Tommy Dorsey como seus modelos de tom e balanço. Comprou um fone de ouvido e passava boa parte da madrugada girando um dial e ouvindo tudo o que as rádios tocavam.

– Havia apenas uma coisa que eu tinha no começo – lembra. – Era bom gosto. Eu podia dizer quando um cantor era horrível e quando ele era maravilhoso, e não muito tempo depois comecei a descobrir por quê. Eu aprendi que uma voz não muito diferente de outra me parecia mais sólida só por uma coisa: sinceridade. O cantor que colocava seu coração em uma canção, e com isso conseguia que ela significasse alguma coisa, era o meu cantor.

Em casa, as coisas melhoraram um pouco. Ainda que os pais não tivessem lá grandes esperanças de vê–lo fazer sucesso, a mãe contou–lhe que às vezes ela e Papai Sinatra iam às apresentações do filho, e que o marido se entusiasmava e aplaudia mais alto que ela. Mas faziam questão de sentar-se numa das últimas filas, para que Frank não os visse.

Em 1938 ele estaria cantando com grupos jovens em 18 shows de rádio em cinco estações de Nova York e Nova Jersey. É o que havia começado a fazer três anos antes, como parte de um quarteto, o The Hoboken Four, que nasceu por acaso. Naquela época – 1935 – havia em Nova York um programa de rádio que promovia concursos de calouros, o Major Bowes Amateur Hour, considerado o melhor primeiro passo que um aspirante a cantor poderia dar, já que era uma rádio de boa potência, captada por um grande número de ouvintes. Alguém que fizesse sucesso ali poderia ter seu nome lembrado depois.

Frank inscreveu–se para o concurso e foi aceito. Por coincidência, um trio de cantores de Hoboken havia se inscrito também, o que deu ao Major Bowes a idéia de juntar os quatro e formar um quarteto. Bowes mesmo escolheu o nome do quarteto. A estréia aconteceu no dia 8 de setembro de 1935, com o programa transmitido ao vivo do palco do Capital Theatre e Frank ocupando a posição de cantor principal do grupo. O júri era a própria audiência, convidada a ligar para Murray Hill 8–9983 e manifestar sua preferência. O Hoboken Four foi o vencedor. E o programa daquele dia ficou marcado por ser o último de Frank como amador: os classificados em primeiro passavam a integrar uma equipe formada pelo Major Bowes para excursionar por várias cidades do interior. Frank Sinatra e seus três companheiros receberiam um salário de 50 dólares semanais, mais refeições.

Alguns meses depois, quando ficou claro que a estrela do grupo era Frank, e começaram a surgir as primeiras brigas entre os quatro, ele se despediu dos companheiros e voltou para Hoboken, passando a cantar sozinho. Era o que fazia em 1939, num restaurante de beira de estrada em Nova Jersey, o Rustic Cabin, com o salário de 15 dólares por semana. Além de cantar, era também o chefe de cerimônia, e conduzia os clientes até as mesas.

Foi quando transformou a garota Nancy Barbato na senhora Sinatra, ganhou dos pais um Chrysler preto e fez um passeio de lua-de-mel durante quatro dias. Na volta o casal mudou-se para um apartamento de três dormitórios alugado no 487 da Avenida Garfield, pagando 42 dólares por mês. Frank tivera um aumento, passando a receber 25 por semana, e Nancy conseguiu um emprego como secretária, para ajudar nas despesas.

Neste mesmo ano de 1939, um trompetista desempregado, que saiu da banda de Benny Goodman para formar a sua própria, ouvia a Parada Dançante na estação WNEW quando teve sua atenção despertada por um cantor. Não conseguiu pegar o nome, mas descobriu o lugar em que ele cantava, em Jersey. Na noite seguinte, o mesmo trompetista – seu nome era Harry James – estava lá ouvindo Frank Sinatra. Gostou. Contratou–o por dois anos com o salário de 75 dólares semanais.

– Peça demissão – disse Frank a Nancy pelo telefone. – Nós vamos viajar por aí com Harry James.

Aquele garoto magrinho

na banda do Harry

“Wishing” foi uma das duas canções de sua estréia com a banda de James no Hyppodrome Theater, em Baltimore, na última semana de junho de 39. Nancy o ouvia na platéia, e ele cantou também “My Love For You”. Como pouca coisa na vida é sublinhada por fogos de artifício, nada de especial aconteceu naqueles dias. Depois de Baltimore a banda foi para Nova York e continuou seu trabalho. O empresário, Gerry Barrett, convenceu a George Simon, crítico musical de Metronome, a ouvir o pessoal e escrever a respeito.

Sinatra não seria Sinatra se não metesse aí sua colher. Insistiu tanto que Gerry Barrett pediu a Simon para dizer duas ou três palavras a respeito do cantor. Simon concordou, e sua crítica citou “o vocal muito agradável de Frank Sinatra, cujo frasear simples é especialmente recomendável”.

A partir disso, aquele ego foi inchando com tal rapidez que Harry James, em certa ocasião, chegou a pedir a um repórter que não o citasse com muito entusiasmo. – Veja – argumentou – se ele souber de um elogio seu, vai me pedir aumento na mesma noite.

Na verdade, havia sinais de que James estava tendo alguma dificuldade em conviver com o nariz empinado da principal estrela de sua banda. Uma frase dele ficou gravada: “Seu nome é Sinatra, e ele se considera o melhor cantor em atividade. É demais! Ninguém jamais ouviu falar dele! Ele nunca gravou uma canção de sucesso, e parece uma peça de roupa velha, mas diz que é o maior de todos!”

Entre sucessos (Harry James foi considerado o trompete número um da América na pesquisa da revista Down Beat em 39) e fracassos (apresentando–se em Beverly Hills, Los Angeles, para um público que não gostou da batida da banda, James e todo seu pessoal, Sinatra incluído, foram despedidos), Frank começou a questionar se o seu lugar era realmente ali.

E então, no início de 1940, ele recebeu um convite para cantar com a banda de Tommy Dorsey. Aqui, como dizem vários de seus biógrafos, ninguém sabe exatamente como a coisa aconteceu, porque todo mundo gosta de se proclamar responsável pela aproximação dos dois. Uma das versões é a de que, depois de alguns meses com James, Frank havia conquistado certo número de admiradores e um deles era um executivo da CBS que, um belo dia, soprou para Dorsey: “Vá ver um garoto magrinho que está cantando com a banda de Harry”.

Foi o que fez Sinatra realmente decolar. O contrato com Harry James ainda estava valendo, mas este o cancelou com um aperto de mão e um conselho: “Não perca esta chance”. Naquela época, apenas Glenn Miller rivalizava com Dorsey, que tinha uma orquestra considerada a banda dos cantores: ele sempre valorizava seus arranjos dando destaque ao crooner. Frank foi contratado por 100 dólares semanais.

Ele sempre disse que Tommy Dorsey foi o seu “treinador”, e o ensinou a respirar durante o canto. Foi Dorsey quem recomendou a ele exercícios físicos, como jogging e natação, para aumentar sua capacidade pulmonar. Frank dava longos mergulhos na piscina, e cada vez ficava mais tempo embaixo d’’água. Com isso passou a cantar vários versos seguidos sem respirar, o que lhe permitiu também aperfeiçoar o ritmo e o balanço das canções.

Frank prestava enorme atenção ao trabalho de Dorsey. O jornalista e publicitário Alan Frank, em seu livro Sinatra, de 1978, reproduz uma declaração dele:

– Eu descobri – contou Sinatra – um truque dele, um pequeno orifício que havia entre um canto dos lábios de Tommy e o bocal do trombone. E percebi que aquilo não era natural, mas uma fresta através da qual ele respirava. No meio de um compasso, quando uma nota ainda estava fluindo através do trombone, ele dava uma rápida aspirada, e aquilo permitia que tocasse quatro escalas mais.

Ele fez uma adaptação dessa técnica para o seu canto, praticando exaustivamente e aprendendo a usar o nariz como Dorsey usava aquele orifício. Fez muito mais: treinou tanto para desenvolver os pulmões que alguns de seus biógrafos afirmam que ele podia ficar sem aspirar o dobro do tempo de uma pessoal normal.

Dois traços marcantes de sua personalidade se desenvolveram a partir daí: a vaidade, o cuidado com as roupas, com a elegância – e o mau humor, a irritação. Ele costumava interromper a banda quando achava que algum instrumento tocava alto a ponto de interferir com sua voz. Em um show, certa vez, alguém lhe atirou pipocas. Ele voou para cima do público, querendo arrebentar o atrevido. Em outro, Buddy Rich, o homem do surdo, interrompeu uma canção de Frank para fazer um solo. Sinatra atirou–lhe um copo.

O sucesso foi crescendo e atingiu um ponto em que passou a incomodar Tommy Dorsey porque, se a questão era vaidade, ele também tinha a sua, e não era pequena. Ele também, Dorsey, era um brigão, o que dava à orquestra, muitas vezes, um clima de violência. Outro inconveniente era que o público queria ouvir a Voz, não os instrumentos e, muitas vezes, no momento em que a banda, até então tocando só, passava a acompanhar o cantor, as pessoas paravam de dançar para cercar o palco e apenas ouvi-lo cantar. Dorsey não suportava essa humilhação.

Em julho de 1942 Sinatra resolveu sair. No ano anterior uma pesquisa da revista Billboard entre estudantes deu–lhe o título de Vocalista Masculino Número Um. No final de 41, ele realizou um sonho antigo ao ser declarado, pela revista Down Beat, o Melhor Vocalista Masculino de Orquestras dos Estados Unidos, dando uma rasteira em ninguém menos do que Bing Crosby, detentor do título de 1937 a 1940. E, em janeiro de 42, os leitores de Metronome o elegeram o Melhor Cantor de 1941. Se, no período em que esteve com Harry James, eles tiveram cinco discos gravados, com Dorsey ele havia gravado noventa. Decididamente, concluiu Frank, era o momento de deixar a orquestra e prosseguir sozinho.

Mas o contrato de cinco anos estava praticamente pela metade, e Dorsey foi inflexível nas negociações: certo, ele liberaria Frank, mas com novo contrato, em que receberia 33% da renda bruta de Sinatra durante os dez anos seguintes, sendo que mais 10% iriam para o gerente de sua banda, Leonard Vannerson. O contrato foi assinado. E aqui entra a lenda… ou a verdade? Sinatra filiou–se depois à Music Corporatin of America, a MCA, a maior de todas, e ela queria livrá–lo de qualquer compromisso anterior, principalmente daquele contrato com Dorsey. Oficialmente, dizem que isso custou 35.000 dólares à MCA, e mais 25.000 ao próprio Frank.

A outra versão é a que envolve a Máfia. Frank Sinatra, de origem ítalo-americana, cresceu em uma área de Nova Jersey que era território da Máfia. E, já que ele estava lá, e a Máfia também… E então, diz a lenda, certo Don mafioso, de nome Willie Moretti, teria entrado nas negociações, feito uma visita a Dorsey, em seu camarim, e delicadamente – “Não é nada pessoal…” – o convenceu, com o cano de seu revólver literalmente enfiado na boca do atônito maestro, a “vender” o contrato de Sinatra pela quantia, acertada ali mesmo, de um dólar. Negócio fechado!

O magrinho no paletó

de grandes ombreiras

Depois que Sinatra se separou de Dorsey foi tudo muito rápido. Houve um contrato de dois meses com o Teatro Paramount, em Nova York, salário de mil dólares por semana. Também a oportunidade de participar de um filme da RKO e de gravar discos pela Colúmbia. Nas noites de sábado, ele cantava no programa Lucky Strikes Hit Parade e, em março de 43, estrearia em um night–club de Manhattan chamado Riobamba. Aqui, um acontecimento curioso multiplicou o nome Frank Sinatra na mídia da época.

Ele cantava no Riobamba, em uma daquelas noites quentes de março, quando uma garota na platéia, particularmente sensível ao calor, sentiu-se mal e teve um desmaio. Foi o suficiente. Logo surgiu o rumor de que a voz aveludada daquele cantor magrinho, metido em paletós de grandes ombreiras, abalava as garotas e provocava síncopes. O rumor foi publicado pela revista Newsweek, e tornou–se verdade.

* * *

Em setembro daquele mesmo ano, 1943, a revista The American Magazine, de Nova York, trazia o seguinte relato de seu repórter Jack Long:

“Se os jovens da costa Oeste são iguais aos de Nova York – e nunca ouvi nada ao contrário – um bando de rapagões de Hollywood vai se sentir abandonado brevemente. Porque, enquanto escrevo, um jovem garoto está a caminho de lá, e ele não é alto nem bonito, mas tem algo que faz com que as garotas o sigam lacrimejando, comportando-se como uma manada, e esquecendo todos os outros homens. Por um olhar dele elas arrancam o cabelo, e por uma foto autografada são capazes de assassinato. Eu as vi em ação, e foi uma experiência incrível.

“Ia andando pela Times Square em uma manhã de sábado, pensando em coisas minhas, quando fui envolvido por uma turbulenta massa humana e jogado da calçada para a rua. Um policial a cavalo trotou em minha direção com o chicote em riste e gritando ‘Volte para a fila, seu…’, e me ameaçando. Veio uma nova onda, mais gritos, e fui despejado no meio da rua outra vez. Daí aproveitei um sinal fechado para o trânsito e cruzei a rua, dando de cara com outro policial.

“– Escute aqui – gritei – sou um cidadão pacífico e, seja qual for o motivo desta demonstração, eu estou fora dela. E, a propósito, o que é que está acontecendo?

“O policial me lançou um olhar infeliz. ‘Estão abrindo as portas para o primeiro show do Teatro Paramount. Tem sido assim nas últimas seis semanas’, acrescentou, lamentando. ‘Todo dia ele canta, e todo dia é assim’.

“Fui embora, mas o mistério me incomodou por vários dias. Frank Sinatra. O nome era familiar, eu o ouvi no rádio sem prestar muita atenção. Mas o que, eu me perguntava, pode trazer cinco ou seis mil jovens para a Times Square, num sábado de manhã, querendo ouvir alguém chamado Sinatra cantar algumas canções?”

O fenômeno era pra valer. Vejamos o relato de Bruce Bliven, na revista The New Republic, um ano depois, em novembro de 44:

“Às nove horas da manhã o Teatro Paramount está cheio e, mesmo assim, a fila para comprar ingressos dá volta ao quarteirão. Mas isso não é nada. Vocês deveriam ver isto aqui na quinta-feira, que foi um feriado. Mais de dez mil pessoas tentavam entrar e 150 policiais de reforço não conseguiam manter a ordem. Vitrines de lojas eram quebradas, pessoas se feriam e ambulâncias as levavam. Os que entravam ficavam para assistir duas ou três apresentações, o que fez com que a confusão fora do teatro durasse o dia todo. Das 3.500 pessoas que estavam em suas cadeiras quando o primeiro show começou, apenas 250 saíram quando o segundo ia começar. Tinha gente na fila desde a meia-noite do dia anterior. Um senhor disse que tentou comprar um ingresso para sua filha oferecendo oito dólares para alguém que o tinha (o preço normal dificilmente ultrapassaria um dólar), mas não conseguiu. Uma senhora, que estava na fila com sua filha horas depois de o show ter começado, disse que a garota havia ameaçado matar-se se tivesse que ficar em casa”.

* * *

Na época, algumas expressões criadas pelas adolescentes de meias soquete que suspiravam por Sinatra passaram a fazer parte de seu dia-a-dia. Swoon (a pronúncia é swúm) é o termo em inglês para desmaio, síncope. Os desmaios eram tantos durante os shows que Frank foi logo apelidado de Swoonatra. As mães das garotas tiveram acessos de cobras e lagartos quando descobriram que suas filhas chamavam seus pijamas de Sinatra Suits (conjuntos Sinatra). Em suas cartas, as garotas substituíram a expressão final, Sincerelly Yours (Sinceramente Sua), por Sinatrally Yours. E, quando preguiçosamente se esticavam em suas camas, diziam que estavam em Sinatrance.

Evidentemente havia os céticos, os críticos que diziam ser tudo aquilo tramado pelos empresários que cercavam os shows de Frank, e os acusavam de pagar pelos desmaios para promover o cantor. Em julho de 46 os jornais publicaram esta nota: “George Evans, assessor de imprensa de Frank Sinatra – que mantém o compromisso de doar mil dólares para a instituição de caridade indicada por alguém que prove que um ingresso, um passe, ou um presente de qualquer tipo foi dado a uma garota para que ela gritasse num show de Sinatra – aumentou a importância para cinco mil, por causa da inflação”.

A febre Sinatra era tão grande que provocava incidentes ruidosos. Em um show em Filadélfia, seis policiais formaram uma ala entre a porta do teatro e o ponto de táxis (ele ainda usava táxis), para garantir que deixasse o local. Eram policiais fortes, massudos. A multidão atacou e, em fração de segundos, ele perdeu o chapéu, o sobretudo, a maleta de viagem, os botões da camisa e vários fios de cabelo. Foi protegido por dois enormes funcionários do teatro, dois cenógrafos, que evitaram um estrago maior. “Duas garotas arrancaram minha gravata e quase me enforcaram” – contou Frank.

Ao chegar à estação estava sendo perseguido por aproximadamente 50 jovens excitadíssimos que vinham em uma fila de táxis. Ele correu para uma lanchonete e conseguiu esconder-se atrás de alguns caixotes de refrigerantes. Quando os garotos perceberam que o haviam perdido, e foram embora, ele saiu do esconderijo e pediu que o garçon lhe desse uma coca.

– Ei – respondeu o rapaz. – Você é Frank Sinatra. Que tal um autógrafo?

E o dinheiro ia chegando. Os números podem parecer modestos hoje, mas considerando-se o dólar na década de 40, era muita coisa. Alguns dados disponíveis referentes a 1944 (previsões feitas em 43): seus shows de rádio para a CBS renderiam seis mil dólares por semana. Os royalties pelos discos seriam de 150 mil, e ele receberia 250 mil por participações em filmes. Por sete apresentações diárias em teatro ele teria 15 mil garantidos, recebendo a diferença se 50% da renda bruta ultrapassasse esse valor – foi o maior contrato já firmado no ramo das diversões até então.

Frank já era chamado, simplesmente, The Voice, A Voz. Difícil dizer precisamente quando o apelido surgiu, mas uma reportagem publicada em Newsweek no dia 20 de dezembro de 1943 já a registrava com naturalidade, ao relatar dois incidentes do cantor com suas Sinatra Swooners (aproximadamente, as Desmaiadoras de Sinatra): “A Voz mesmo teve de dizer–lhes que se calassem em um show. A algumas mães de fãs mais exaltadas foi pedido que mantivessem suas filhas em casa”.

Lana Turner, primeira

de uma lista de vinte

Hollywood, 1943. Aquele magrinho de nariz empinado chegou aos estúdios da RKO, depois da revolução do Teatro Paramount, para filmar Higher and Higher (A Lua ao seu Alcance). Já havia feito Las Vegas Nights (Noites de Las Vegas) em 41, Ship Ahoy (Ó de bordo), em 42, e Reveille with Beverley (Alvorada com Beverley) no próprio ano de 43. Mas naqueles filmes ele apenas cantava com a orquestra de Tommy Dorsey. Agora não: Sinatra ia estrear como ator. Em Higher…, ele faz o papel de Frank, um rico pretendente à mão de uma garota supostamente herdeira de uma fortuna.

E o que faz Sinatra, na iminência do novo desafio? Apanha um papel, lista as 20 atrizes mais atraentes de Hollywood, prega–o em seu camarim e anuncia:

– Vou faturar uma por uma.

Primeiro nome a receber um X na frente dele: Lana Turner. Antes do final das filmagens, todos os nomes estavam ticados.

Nancy sempre soube, a partir da chegada à Costa Oeste, que o marido tinha casos. E sempre os tolerou. Sabia que tudo iria bem desde que ela não interferisse nas vontades e nos caprichos dele. Até o início da carreira solo de Frank, ela o ajudava nas despesas, usando parte de seu salário de secretária para pagar aluguel e supermercado e deixando o resto para que ele gastasse com suas roupas elegantes. Até então, foram felizes. Mas em 1946, no pico do sucesso – Frank chegou a fazer 45 shows em uma semana – o esforço e a tensão começaram a pulverizar seu trabalho. Já há algum tempo interferiam no casamento.

Em uma daquelas noites, em uma festa de um nightclub em Palm Springs, Sinatra tirou para dançar uma mulher que viera acompanhada do milionário Howard Hughes. Era Ava Gardner.

No dia 7 de outubro anunciou–se oficialmente que Nancy e Frank estavam separados, e isso não foi propriamente surpresa, pelo pouco tempo que ele dedicava à mulher e aos filhos Nancy e Frank Jr. Uma separação que não durou muito: o esforço de amigos provocou a reconciliação, e os dois ainda tiveram a filha Cristine, nascida em julho de 48. A separação definitiva viria em dezembro de 49. Quando Nancy entrou com o pedido de divórcio, o que se comentava, em Hollywood, é que ela poderia agüentar qualquer uma, menos Ava Gardner.

É desta época um carinhoso puxão de orelhas enviado a Frank, em forma de telegrama, por, nada mais, nada menos, que don Moretti, o mafioso que teria “convencido” Tommy Dorsey a cancelar aquele famoso contrato:

“Querido Frank. Estou muito surpreendido pelo que tenho lido na imprensa a respeito de você e sua querida esposa. Lembre–se de que você tem uma esposa decente e filhos. Você deveria estar muito feliz. Lembranças a todos. Willie Moore.”

Mas o caso com Ava era sério e se tornou barulhento. Ela tinha uma carreira e não conseguia dedicar a Frank o tempo que ele exigia. Vinham então as brigas, tão públicas quanto as reconciliações que acabavam acontecendo. Só que isso prejudicava os dois: o público de então não estava preparado para ver um homem ainda casado, mesmo que ele fosse Frank Sinatra, correndo atrás de uma outra mulher, mesmo sendo ela Ava Gardner. Em uma das brigas, Ava recorreu a seu ex–marido, Artie Shaw. Quando Sinatra soube disso, entrou em parafuso. Primeiro tentou localizar os dois. Quando não conseguiu, foi para um hotel e – dizem – tentou o suicídio.

A vontade de matar-se, entretanto, parece que não era muito grande: tudo o que ele conseguiu foi dar dois tiros em um colchão. Com o ruído dos tiros, a polícia foi chamada. Quando chegaram, os policiais não tinham nada para ver – o colchão fora trocado.

O divórcio de Nancy, e a queda, vieram juntos. Os filmes de Frank estavam sendo cada vez mais criticados, e a venda de seus discos despencou em 1948 e 49: parecia bastante claro que a carreira como cantor chegava ao fim (diziam que as garotas que urravam por ele nos shows, as Swooners, haviam crescido). Surgiu ainda uma acusação, sem provas, de ligação com comunistas, feita pelo Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas. Então veio o nocaute: Frank Sinatra acusado de envolvimento com a Máfia.

Dores de cabeça com

a Máfia de Luciano

Sinatra foi denunciado pela primeira vez pelo repórter Robert Ruark, colunista da rede Scripps–Howard, que acompanhava a visita do mafioso Lucky Luciano a Havana, Cuba, em 1947. Lucky Luciano havia sido preso em 1936, nos Estados Unidos, e conseguiu liberdade condicional dez anos depois, como reconhecimento do governo norte–americano pelos seus relevantes esforços, durante a II Guerra, ajudando o desembarque aliado na Sicília. Foi então deportado para a Itália.

Em 1947 – já no ano seguinte, portanto – Luciano estava em Havana, hospedado no Hotel Nacional, preparando–se para voltar ao território americano. O repórter Robert Ruark, enviado especial a Cuba, fez uma série de reportagens mostrando que ele, enquanto fazia sua escala na ilha, vinha sendo visitado pelos grandes gângsteres da Máfia nos EUA. E, no dia 20 de fevereiro, Ruark publicava:

“Sinatra esteve aqui por quatro dias na última semana, e durante esse tempo sua companhia em público e em particular era Luciano, os guarda-costas de Luciano, e uma rica coleção de jogadores e comparsas. A amizade foi linda. Eles eram vistos juntos nas pistas de corridas, no cassino e em festas especiais. Além de Luciano, fui informado de que Ralph Capone também estava presente… e ainda uma grande variedade de assassinos que acham o Sul saudável no inverno, ou nos dias de Grande Júri”.

Dizia-se que Sinatra voou de Miami para Havana com Rocco e Joseph Fischetti, dois gângsteres conhecidos. Mais tarde, em 1951, o repórter Lee Mortimer, do New York Mirror, relatava aquele que dizia ser o propósito da visita de Sinatra a Havana: entregar a Luciano dois milhões de dólares em cédulas de pequeno valor.

Sinatra respondeu com um gracejo:

– Imaginem a mim, o magro Frankie, carregando dois milhões de dólares em notas pequenas. Mil dólares em notas de um dólar pesam um quilo e 300 gramas, o que significa que eu teria que carregar 27.000 quilos. Mesmo supondo que as notas eram de 20 dólares, seria necessário uma dupla de estivadores para levá-las. Esta é sem dúvida a mais ridícula acusação que já fizeram a mim… Eu embarquei para Havana com uma pequena maleta em que carreguei meus óleos, as minhas anotações e jóias pessoais, que nunca despacho com minha bagagem.

Aproximadamente cinco anos mais tarde, na revista American Weekly, Sinatra voltaria a falar do episódio:

– O que realmente aconteceu em 1947 é que eu tirei uns dias de folga e decidi gozá-los em Havana e na Cidade do México. No caminho, parei em Miami para um show beneficente para o Fundo Damon Runyon Contra o Câncer. Encontrei Joe Fischetti lá, e quando ele soube que eu ia para Havana, disse-me que ele e seus irmãos estavam indo também, e mudaram suas reservas para estarem em meu vôo.

– Naquela noite eu tomava um drinque no bar, com Connie Immerman, dono de um restaurante em Nova York, e encontrei um grande grupo de homens e mulheres. Como sempre acontece em grandes grupos, as apresentações foram superficiais. Fui convidado para jantar com eles e, enquanto jantava, vi que um dos homens na festa era Lucky Luciano. Percebi subitamente que estava me expondo a críticas ficando na mesa, mas não consegui imaginar uma maneira de sair dali sem provocar uma cena.

– Depois do jantar fui ao jogos de jai alai, e então, com alguém que eu acabara de conhecer, dei um passeio pela noite. Finalmente fomos para o cassino, onde passamos por uma mesa em que estavam Luciano e vários outros homens. Eles insistiram para que sentássemos para um drinque, e, mais uma vez, para não provocar confusão, tomei um rápido drinque e me retirei. Estas foram as únicas vezes em que vi Luciano em minha vida.

Em 1962, em Nápoles, quando a polícia italiana revistou o apartamento em que Luciano acabara de morrer, de ataque cardíaco, encontrou uma cigarreira de ouro com a inscrição “Para Charlie, do seu camarada Frank Sinatra”.

Na cama com

Marilyn Monroe

Sinatra teve como amigo o homem mais importante do mundo em sua época: John Kennedy.

Ele fez campanha para Kennedy e ajudou-o a eleger-se – é o que consta – conseguindo que amigos mafiosos, que controlavam sindicatos, trabalhassem por ele. Frank foi recebido na Casa Branca para que o presidente pudesse agradecer sua ajuda. A amizade era grande, apesar dos olhares enviesados de Robert Kennedy, nomeado Procurador Geral pelo irmão, e que estava empenhado em varrer das proximidades de John qualquer coisa que prejudicasse sua imagem, principalmente alguém acusado de ser amigo de bandidos. Bob havia escolhido o crime organizado para seu principal inimigo.

Outros amigos de Frank eram Dean Martin, Sammy Davis Jr., Shirley MacLaine, Joey Bishop, Peter Lawford e sua mulher, Pat Kennedy Lawford, irmã de John Kennedy – o que fazia de Peter cunhado do presidente. Eles costumavam reunir-se sempre, em restaurantes, hotéis (principalmente o Sands, em Las Vegas, que era da Máfia), cassinos e na casa dos Lawford.

E havia Marilyn Monroe.

Norman Mailer diz que Sinatra deu a ela um cachorrinho branco, que Marilyn, fazendo graça, resolveu chamar de Maf, por causa das ligações dele com mafiosos. Os dois tiveram um caso, e uma amiga contou a Mailer que, certa vez, levou Marilyn para encontrar-se com o cantor no hotel Waldorf Astoria, onde ele estava hospedado. No dia seguinte, procurou Marilyn para perguntar como havia sido o encontro.

– Bem – disse ela – tivemos um problema. Nós juntamos duas camas que havia no quarto, mas algo deu errado com os colchões e eu ou Frank estávamos sempre caindo no meio deles.

(Uma falha no serviço do Waldorf!!!, horrorizou-se Mailer.)

– Mas e Sinatra? – quis saber a amiga. – Ele é bom?

– Não é nenhum Di Maggio.

Na casa dos Lawford, Sinatra apresentou Marilyn a John e a Bob Kennedy, e ela teve um namoro com o presidente. Não foi a primeira garota que apresentou a John. Antes dela já havia apresentado outra mulher com quem andara saindo, Judith Campbell Exner, que Sinatra apresentou também ao capo mafioso Sam Giancana.

 Mais tarde Judith acabou rompendo com Sinatra e, dando uma entrevista coletiva à imprensa, declarou que deixara de manter relações sexuais com ele por causa de seus modos pervertidos.

 – Diabos! – respondeu Frank. – Não há fúria maior do que a de uma prostituta com um agente literário.

Cuidado. O homem

tem um resfriado

Mas, afinal: como é Frank Sinatra pessoalmente? Vejamos o que nos conta Gay Talese, o grande repórter norte–americano que tentou entrevistá–lo quando Frank completou 50 anos, em 1965. Sinatra recusou–se a dar entrevista, mas topou um acordo de cavalheiros: Talese poderia manter–se próximo, durante alguns dias, e também entrevistar pessoas ligadas a ele.

Talese conta, em seu livro Fame and Obscurity, capítulo “Frank Sinatra Está Resfriado”:

 “Frank Sinatra, copo de bourbon numa das mãos e cigarro na outra, encontrava-se no recanto escuro do bar, entre duas louras atraentes, embora um tanto maduras, e que esperavam que ele dissesse qualquer coisa. Mas ele nada dizia; conservara-se silencioso quase toda a noite e, no momento, em seu clube particular de Beverly Hills, parecia ainda mais distante, olhando através da fumaça e da obscuridade para o salão além do bar, onde dezenas de jovens casais sentavam-se juntinhos ao redor das mesas, ou contorciam-se na pista, ao som do folk–rock despejado pelo estéreo. As duas louras sabiam, assim como os quatro amigos de Sinatra que se encontravam nas proximidades, que seria má idéia impor-lhe conversação quando ele se inclinava ao silêncio taciturno, disposição freqüente naquela primeira semana de novembro, um mês antes do seu quinquagésimo aniversário.

 “Sinatra estava doente. Era vítima de moléstia tão comum que a maioria a considera trivial. Mas, tratando-se de Sinatra, era capaz de mergulhar a vítima num estado de angústia, depressão profunda, pânico e até raiva. Frank Sinatra estava resfriado.

 “Sinatra resfriado é Picasso sem tintas, Ferrari sem gasolina – só que pior… Pois o resfriado comum rouba-lhe aquela jóia inestimável, a voz, mergulhando até o âmago de sua segurança e afetando não só a psique como também aparentemente causando uma espécie de coriza psicossomática em dezenas de pessoas que trabalham, bebem, amam com ele e dele dependem para o seu bem-estar e estabilidade. Sinatra resfriado pode, de certo modo, causar vibrações que percorrem toda a indústria do entretenimento e vão mais além, tão certo como o presidente dos Estados Unidos, adoecendo subitamente, pode abalar a economia nacional”.

 (Em determinado momento, ele afastou–se do bar e caminhou para uma sala ao lado, onde um de seus amigos disputava uma partida de sinuca. Encostou-se em um banquinho e pôs-se a observar os jovens que por ali circulavam – e que, definitavamente, não faziam seu gênero – concentrando-se em um sujeito baixinho e irrequieto. O rapaz chamava-se Harlan Ellison, escritor em princípio de carreira. Calçava um par de botas Game Warden que lhe custara sessenta dólares, um preço alto na época. Voltemos a Gay Talese.)

“Finalmente, Frank Sinatra não conseguiu conter-se.

– Ei – gritou, voz ligeiramente áspera, que ainda assim apresentava aquela inflexão macio-cortante – essas botas são italianas?

– Não – respondeu Ellison.

– Espanholas?

– Não.

– São botas inglesas?

– Olhe, não sei, homem – replicou Ellison, olhando Sinatra de cenho franzido e voltando-lhe as costas.

A sala tornou–se subitamente silenciosa. (…) Sinatra encaminhou-se com aquele andar lento, arrogante, em direção a Ellison, e o ruído de seus passos era a única coisa que se ouvia.

– Está esperando uma tempestade?

Harlan Ellison desviou–se um passo.

– Ouça, há algum motivo para você falar comigo?

– Não me agrada a sua maneira de vestir.

– Detesto causar–lhe um choque, – replicou Ellison – mas visto-me como quero.

Ouviram–se então murmúrios na sala, e alguém disse:

– Vamos, Harlan. Vamos dar o fora daqui. (…)

Mas Ellison não se abalou.

– O que é que você faz? – perguntou Sinatra.

– Sou bombeiro.

– Não, não é – gritou um rapaz, que se encontrava do outro lado da mesa. – Ele escreveu The Oscar.

– Ah, é? – falou Sinatra. – Já vi e é pura merda.

– É estranho, porque ainda nem foi distribuído – replicou Ellison.

– Mas eu já vi – repetiu Sinatra – e é pura merda.

 “A cena estava se tornando ridícula e, aparentemente, Sinatra não falava a sério, reagia apenas ao tédio ou ao desespero interior. Seja como for, após mais uma troca de palavras, Harlan Ellison saiu da sala.

 “A história não ultrapassara três minutos. E três minutos depois de encerrada, Sinatra esquecera-a, provavelmente pelo resto da vida – assim como Ellison a recordará, provavelmente para o resto da vida”.

* * *

Sinatra certamente não falava a sério e certamente esqueceu o episódio. No ano seguinte, quando The Oscar foi filmado, havia uma cena em que um personagem famoso aparecia no palco, interpretando a si próprio, na entrega de uma das estatuetas. Era Frank Sinatra.

* * *

Gay Talese:

“Observei algo de sua faceta siciliana no verão passado, no bar Jilly’s, em Nova York, a única vez em que chegara às suas proximidades em data anterior àquela noite no clube da Califórnia. O Jilly’s, situado na Rua 52 Oeste, em Manhattan, é o local onde Sinatra bebe sempre que se encontra em Nova York.

“Alguns de seus amigos íntimos, todos conhecidos dos homens que guardam a porta do Jilly’s, conseguem uma escolta para penetrar até a sala dos fundos. Mas, uma vez ali, têm que se arranjar sozinhos. Uma noite, Frank Gifford, antigo jogador de futebol, não penetrou mais que um metro em três tentativas. Outros, que haviam chegado bastante próximo para apertar a mão de Sinatra, não o conseguiram; em vez, tocaram nos ombros, ou nas mangas, ou simplesmente postaram-se de modo a serem vistos e, após conseguir uma piscadela, um aceno ou um gesto de cabeça, ou talvez seu nome (ele tem uma memória fantástica para nomes) voltavam-se e iam embora. Haviam marcado o ponto.”

* * *

Não é em todas as noites que o humor de Sinatra apresenta-se disponível para centralizar atenções. Ele também não tem a si próprio como seu único ídolo, mesmo para quem sabe, como sabemos, o volume de seu ego. Uma noite, no distante ano de 1966, ele jantava em relativa calma, longe do burburinho do Jilly’s, no restaurante Côte Basque, em Nova York. Em determinado momento, levantou–se e, com a elegância de sempre, terno impecavelmente cortado e sapatos brilhando, cruzou a sala com uma folha de papel em uma das mãos.

Parou ao lado de uma mesa em que jantava um homem igualmente elegante, baixinho, usando óculos de aro de tartaruga. Era Igor Stravinsky, o compositor russo. Sinatra estendeu–lhe a folha de papel.

– Poderia, por favor, conceder–me seu autógrafo?

Um peteleco no

pássaro de alabastro

Sinatra é um homem totalmente imprevisível, de humor variável, e que reage por instinto. Uma das histórias que se contam dele, Talese a contou, envolvem uma jovem chamada Jane Hoag, repórter de Life em Los Angeles, e que freqüentava a mesma escola da filha de Sinatra, Nancy. Jane foi convidada a uma festa na casa da senhora Sinatra, em que Frank, que mantém relações cordiais com sua primeira mulher, serviu de anfitrião. No início da festa, Jane Hoag, apoiando-se a uma mesa, bateu acidentalmente com o cotovelo num par de pássaros de alabastro, um dos quais caiu ao chão, quebrando-se em pedacinhos. Súbito, lembra Jane, a filha de Sinatra exclamou: ‘Oh, era um dos prediletos de mamãe…’ – mas, antes que pudesse completar a frase, Sinatra fitou-a, furioso, forçando-a a calar-se, e, diante de quarenta convidados, que assistiam silenciosos à cena, aproximou-se e, com um peteleco, atirou ao chão o outro pássaro de alabastro, fazendo-o em pedacinhos. Em seguida, passando o braço pela cintura de Jane, disse, para colocá-la totalmente à vontade: ‘Não tem importância, menina’.

 “A violência tem acompanhado Frank há anos (fala Kitty Kelley, biógrafa não autorizada de Sinatra), mas a maioria das pessoas sempre relutou em combatê–lo. Uma pessoa que o fez foi Frank J. Weinstock. Agente de seguros de Salt Lake City, ele processou Sinatra por assalto e agressão, dizendo que Frank dera ordens para que fosse agredido por Jilly Rizzo e Jerry ‘O Demolidor’ Arvenitas, em um restaurante de Palm Springs. Ele disse em sua queixa que estava no banheiro do Trinidad Hotel, no dia 5 de maio de 1973, quando Frank entrou com seus guarda-costas e disse: ‘Aí está o esperto filho da puta que quer interceptar minha mulher’. Frank estava no restaurante jantando com a mulher Barbara Marx e outras pessoas. Weinstock estava com sua mulher e alguns parentes.

– Você está brincando – disse Weinstock. – Você não pode acreditar no que está dizendo. Eu não conheço sua mulher. Eu nunca a vi antes em minha vida. Eu não sei do que você está falando. Olhe, não é você o Sinatra sobre o qual li que pode ter todas as mulheres que quiser? Você quer realmente dizer que tem medo de mim? Eu, um caipira de Salt Lake City, Utah, incomodando um homem poderoso como você?

– Tenha respeito pelo chefe – disse um dos guarda-costas de Frank. – Mantenha suas mãos para baixo se quer continuar a viver, e faça aquilo que dissermos para fazer. Ponha suas mãos para cima e vou quebrar todos os ossos que você tem no corpo.

– Olhe, seu filho da puta, o nome é Frank, ou Senhor Sinatra – disse Frank, que então estalou os dedos para sua turma. – Ok, rapazes – e os três deixaram o banheiro.

 “Minutos depois, de volta ao salão, Weinstock foi agredido por vários homens, que o deixaram com ferimentos, cortes no rosto e marcas por todo o corpo. Aterrorizada, sua irmã correu para Frank.

– Senhor Sinatra, – ela disse – o senhor deve ter cometido um engano. Este é meu irmão. Ajude-o, por favor’.

– Não fale comigo, garota – respondeu Frank.”

Depois disso, termina o relato, Frank e seus amigos foram embora pela porta da cozinha.

Weinstock processou Sinatra e sua turma. No fim do processo, Jilly Rizzo, o dono do Jilly’s e amigo inseparável, foi condenado a pagar 101 mil dólares a Weinstock. Sinatra e Jerry ‘O Demolidor’ foram absolvidos.

Todas as fichas por

um lugar na eternidade

Em 1952, casado com Ava Gardner logo após o divórcio de Nancy, Frank Sinatra apaixonou-se por um soldado. Um soldado de ficção, o torturado Angelo Maggio da obra de James Jones, que ficou conhecendo ao ler o roteiro de From Here to Eternity (A Um Passo da Eternidade). Ele sentiu que o papel do soldado Maggio era o seu papel, e que aquela poderia ser a maior chance de sua vida desde o dia em que, num show em Hoboken, com Nancy ao seu lado, decidiu seguir os passos de Bing Crosby.

Só que Harry Cohn, o chefe dos estúdios Paramount, disse não a Sinatra e anunciou que contrataria Eli Wallach. Sinatra contra-atacou. Em primeiro lugar, pediu a Ava Gardner que tentasse convencer Cohn. Ela não conseguiu. Pediu então que Ava tentasse convencer a mulher de Cohn a convencê-lo. Nada. Sinatra foi ao produtor do filme, Buddy Adler. Adler disse não. Sinatra marcou um encontro com o próprio Cohn. “Nós precisamos de um ator. Você é um cantor, não um ator” – disse–lhe Cohn. Sinatra respondeu que, como em outras produções, queria apenas 150.000 dólares pelo papel. Cohn abanou a cabeça. Sinatra mandou dizer que aceitaria 1.000 dólares por semana, 8.000 dólares pelo total de oito semanas, o tempo da produção.

Cohn mandou-lhe um telegrama: o papel era dele.

Esta é a história oficial. A lenda – algo que jamais poderá ser dissociado do nome Frank Sinatra – é outra, e milhões de pessoas a leram e viram nas telas, em O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola e Mario Puzo. Don Corleone – seria novamente o senhor Moretti? – “convenceu” o produtor a entregar o papel a Frank. Harry Cohn teria cedido depois que a cabeça de seu cavalo de 500.000 dólares foi cortada e colocada em sua cama, enquanto dormia.

Mario Puzo tem uma interessante história a contar. Ele havia acabado de escrever The Godfather, O Chefão, e o manuscrito estava com seus editores. Começaram a surgir mexericos de que, um dos personagens, Johnny Fontane – um cantor que, com a ajuda da Máfia, consegue um papel em um filme – havia sido inspirado em Frank Sinatra. Antes da publicação do livro, os editores receberam uma carta dos advogados de Frank pedindo para ver o texto. O que foi polidamente recusado.

– No ano seguinte – conta Mario Puzo – quando trabalhava no script, fui convidado para uma festa de um milionário em Hollywood. John Wayne e Sinatra estavam lá. Na saída, o milionário pegou-me pelo braço e me levou até um grupo de pessoas. ‘É preciso que você conheça Frank,’ – disse – ‘é um dos meus melhores amigos. Eu gostaria que você conhecesse Mario Puzo,’ – disse ele a Sinatra – ‘é um dos meus amigos’. ‘Acho que não tenho vontade de conhecê-lo’, – respondeu Sinatra.

– O milionário se desmanchou em desculpas. Quase chorava. ‘Frank, estou desolado, meu Deus, Frank, eu não sabia, estou angustiado…’

– Sinatra cortou–lhe a palavra. Com sua voz de veludo, disse–lhe: ‘A culpa não é sua’.

– Eu sempre evito discussões, –continua Puzo – mas não pude deixar de dizer a Sinatra: ‘Escute, a idéia não partiu de mim’.

– Então aconteceu a coisa mais extraordinária possível. Sinatra enganou-se completamente com o sentido de minha resposta. Pensou que eu me desculpava pelo personagem Johnny Fontane.

 – Voz amável, ele perguntou: ‘Quem mandou você botar isso no seu livro – seu editor?’

– Fiquei estupefato. Finalmente disse: ‘Estou falando dessa idéia de nos apresentarem um ao outro’. Então Sinatra começou a insultar–me. Fiquei com a impressão de que ele detesta meu romance e pensa que eu o ataquei pessoalmente ao criar Johnny Fontane”.

Desbancando os Beatles

na parada de sucessos

Frank Sinatra ganhou o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo papel do recruta Maggio em From Here to Eternity. Então, como que por mágica, seus discos voltaram às paradas musicais, com aumento das vendas e uma glória inesquecível, em 1966, quando gravou “Strangers in the Night” e desbancou os Beatles nas paradas de sucesso nos Estados Unidos e na Inglaterra.

Ele já havia se divorciado de Ava Gardner.

* * *

Nos jornais, em julho de 1966:

“A atriz Maureen O’Sullivan anuncia o noivado de sua filha, Mia Farrow, com o cantor Frank Sinatra. “Frank é uma ótima pessoa e eu sei que eles serão muito felizes”, disse a senhora O’Sullivan.

O casamento entre a jovem Farrow, 21 anos, e Sinatra, 50, está planejado para o final do ano.”

 Nos jornais, em julho de 1966:

“Em decisão surpreendente, Frank Sinatra casou–se com Mia Farrow no Hotel Sands, em Las Vegas, em uma cerimônia de cinco minutos. O noivado do casal havia sido anunciado na semana passada. Ninguém da família de Sinatra, nem da senhorita Farrow, estava presente. Este é o terceiro casamento de Sinatra, e o primeiro de Farrow.”

Nos jornais, em dezembro de 1967:

Frank Sinatra e sua esposa há 16 meses chegaram a um acordo hoje em audiência de separação. O cantor, de 52 anos, concorda em que ele e Farrow, 22 anos, passaram muito pouco tempo juntos.

* * *

Ele voltou a casar–se, aos 60 anos, com Barbara Marx, ex–mulher de Zepo Marx, e com ela esteve no Brasil duas vezes.

Parece mais calmo ao lado de Barbara, mas jamais deixou as primeiras páginas dos jornais. Como, aos 75 anos, quando falava de Sinead O’Connor, a cantora irlandesa que encanta milhões de pessoas com sua voz macia e sensual. Falava para uma multidão, em um show no Garden State Arts Centre, de Nova York, e dizia:

– Se encontrar-me com ela, vou dar–lhe um chute no traseiro.

A multidão urrou, gargalhou e aplaudiu.

Quem mais, além de Sinatra, prometeria publicamente chutar o traseiro de Sinead O’Connor? Quem mais, além de Sinatra, ameaçaria chutar o traseiro de alguém aos 75 anos de idade?

(Motivo da ameaça de Sinatra a O’Connor: ela havia se recusado a cantar naquele mesmo estádio, dias antes, se sua apresentação fosse precedida do hino nacional norte–americano, como é de praxe no Garden State Arts Centre. O’Connor não respondeu ao cantor.)

Quem mais, além de Sinatra, surpreenderia o mundo gravando um punhado de canções aos 78 anos e passando uma rasteira nos primeiros lugares das paradas de sucesso? Pois foi o que ele fez com Duets, no final de 93. O projeto previa a participação de Liza Minelli, Barbra Streisand, Tony Bennett e Julio Iglesias, entre outros, mas poucos acreditavam que Sinatra, que não entrava em um estúdio de gravação havia sete anos, e com a voz rouca pela idade, pudesse fazê–lo.

Quando ele pegou o microfone, e começou a cantar, as pessoas sentiram que algo de mágico estava acontecendo. Cantou com tanta emoção e empenho na interpretação que a orquestra o aplaudiu demoradamente no final. Foi um sucesso mundial. Em fevereiro do ano passado a Associação da Indústria de Discos da América deu a Sinatra o primeiro disco de multi-platina de sua carreira, pelos dois milhões de exemplares de Duets vendidos. Ele já havia recebido um disco de platina, em 1966, com a gravação de “Strangers in the Night”. Recebeu também, em 55 anos de carreira, 21 discos de ouro.

Não satisfeito com o sucesso de Duets, ele o fez de novo, e lançou Duets II.

Memória fraca ganha

apelido: malandragem

Há muito se diz que Sinatra não pode mais cantar, que esquece letras que canta há mais de 50 anos, que a esclerose o atacou. Mas, como Sinatra é Sinatra, tudo isso vem também cercado de lenda e desconfiança: não será malandragem? Não estará fingindo? Um episódio divertido foi contado por Nelson Motta, aqui mesmo, no Estadão.

Duets estava sendo planejado e alguém propôs a ele que gravasse com Bono. Ficou furioso, gritou palavrões e quase recorreu a sopapos. Achou que se tratava de Sonny Bono, cantor medíocre que, acha Motta, tem como único crédito ter sido marido de Cher, com quem fez a dupla Sonny and Cher, de quinta categoria. Explicaram a ele que não, que se tratava do irlandês Bono Vox, excelente cantor. Ele não se lembrava de Bono Vox. Colocaram um CD de Bono para rodar, e Sinatra adorou.

Gravaram a maravilhosa “I’ve Got You Under My Skin”, Sinatra cantando em Los Angeles, Bono em Dublin.

Algum tempo depois, na fase de divulgação do disco, a produção marcou a gravação de um clipe promocional, com Bono e Sinatra cantando a música em um bar de Palm Springs. Bono estava lá. Sinatra foi levado por assessores. No meio da confusão, quando a técnica preparava câmaras, microfones e luzes, alguém informou a Sinatra de que se tratava. Ele explodiu:

– Que história é essa? Que vídeo? Que dueto? Tô fora.

Bono espantou–se. A produção então, cheia de mesuras e salamaleques, tentou acalmar Frank, pediu–lhe que pelo menos posasse para algumas fotos ao lado de Bono. E Bono praticamente foi à lona com a resposta dele:

– Quem é esse cara?

O desastre tinha acontecido e era irreversível. Recorreu–se então ao expediente de dizer a Sinatra que não era nada demais: tratava–se apenas de tirar algumas fotos que o dono do bar guardaria como recordação. Ele concordou, posou para duas ou três fotos, alegou que um avião o esperava e bateu em retirada. Bono teve certeza de que ele fingia. Comentou com amigos: Sinatra diz que não se lembra das coisas quando acha que o estão incomodando.

É possível que haja uma dose de malandragem. Mas, certamente, não é só isso. Pouco tempo depois do incidente com Bono, no dia 6 de março de 94, um domingo, Frank dava um concerto em Richmond, na Virgínia, no teatro Richmond Mosque. A orquestra tocava “My Way”, e ele cantava os versos desta que é uma de suas canções mais famosas. Mais duas músicas e o concerto estaria terminado, mas Sinatra estava visivelmente incomodado pelo forte calor, e tinha um lenço nas mãos, que passava no rosto, no queixo. “My Way” estava sendo demais para ele, e então pediu uma cadeira ao filho Frank Jr., diretor da orquestra.

Antes que a cadeira chegasse, a platéia viu, perplexa, Frank Sinatra desabar no palco. Foi um momento tenso: todo o teatro emudeceu, e as pessoas passaram a acompanhar, no mais absoluto silêncio, o trabalho dos enfermeiros que o socorriam, abriam seu colarinho e o colocavam em uma cadeira de rodas. Ao ser retirado, ele, com muita dificuldade, tentou um aceno para a platéia. As 3.700 pessoas presentes, em pé, o aplaudiram forte e demoradamente.

Foi atendido no hospital local, onde ficou três horas antes de receber alta e voar em seu jato particular para a Califórnia.

Alguns meses depois voltou a sentir–se mal, um de seus shows foi cancelado e seu staff anunciou que ele não mais participará de shows ao vivo.

Depois disso os jornais disseram que Frank Sinatra está surdo, e só consegue ouvir música com fones de ouvido. Que sofre do mal de Alzheimer. Que tem câncer. O Jornal da Tarde, de São Paulo, noticiou que ele pode vir a Pouso Alegre, em Minas Gerais, para tratar-se com o paranormal Thomaz Green Morton. Sabe-se que a mulher de Sinatra, Barbara, vendeu a casa que tinha em Palm Springs, e o casal mudou-se para Los Angeles. Onde os médicos estão mais próximos.

 A última aparição pública de Frank Sinatra foi na segunda quinzena de setembro passado, em Los Angeles, na estréia de uma ópera. Apoiava-se em Barbara, usava aparelho para surdez, tinha uma barba branca cortada à Abraham Lincoln e estava sem peruca, a careca à mostra.

Nesta terça–feira, 12, ele completa 80 anos.

* * *

Em fevereiro de 1963 a revista Playboy trazia uma entrevista com Frank Sinatra. Uma coisa excepcionalmente difícil, porque Sinatra não dá entrevistas.

Playboy: Você acredita em Deus?

Sinatra: Acho que posso resumir meus sentimentos religiosos em poucos parágrafos. Primeiro: eu acredito em você e em mim. Sou como Albert Schweitzer e Bertrand Russel e Albert Einstein, na medida em que tenho respeito pela vida, sob qualquer forma. Eu acredito na natureza, nos pássaros, nos oceanos, no firmamento, em tudo o que posso ver ou que tenha evidências reais. Se essas coisas são aquilo que você chama de Deus, então acredito em Deus. Mas não acredito em um Deus pessoal, no qual eu procuro conforto ou a vitória em um jogo de dados. Não sou inconsciente em relação à necessidade de o homem ter fé. Sou a favor de qualquer coisa que faça você atravessar a noite, sejam orações, tranquilizantes ou uma garrafa de Jack Daniels. Mas, para mim, religião é uma coisa mais profundamente pessoal, na qual o homem e Deus vão juntos por si só, sem intermediários. Não é necessário para nós ir à igreja aos domingos para alcançá-Lo. Você pode encontrá-Lo em qualquer lugar. E, se isso soa herético, minha fonte é muito boa: Mateus, versículos cinco a sete, Sermão da Montanha.

(Estive em um show de Sinatra em Atlantic City, em 1980, mas se quisesse realmente vê-lo naquela ocasião teria que usar um binóculo, e potente. Já na visita dele a São Paulo, no Maksoud Plaza, em 13 de agosto de 1981, eu estava ao lado do palco. Vi quando reclamou do uísque: “Muita água, ou soda, não sei o que”, e quando disse a um insistente senhor da platéia que não poderia cantar ‘The Shadow of Your Smile’ porque não sabia a letra: “Eu realmente não sei”.

Mas as informações que utilizei neste perfil foram obtidas em inúmeras reportagens, artigos e livros sobre Sinatra, principalmente Fame and Obscurity, Doubleday, N. York, 1970, de Gay Talese, em que ele coloca um de seus textos mais famosos – “Frank Sinatra está resfriado”. Fame foi traduzido no Brasil pela primeira vez pela editora Expressão e Cultura com o título Aos olhos da multidão. E depois, em 2004, pela Companhia das Letras, com a tradução do título original, Fama e anonimato. Outras fontes foram His Way, Bantan Books, N. York, 1986, biografia não autorizada, por Kitty Kelley; Sinatra, Hamlyn Publishing Group, 1978, por Alan Frank, Legend: Frank Sinatra and the American Dream, Boulevard Books, N. York, 1995, uma compilação de mais de 50 anos de reportagens, artigos e críticas na imprensa reunidos por Ethie Ann Vare. Além, é claro, de jornalistas e autores já citados ao longo do texto.)

Esta reportagem foi escrita para O Estado de S. Paulo e publicada em 10 de dezembro de 1995, por ocasião dos 80 anos do cantor.

6 Comentários

  1. Mary
    Postado em 30/03/2010 às 9:07 pm | Permalink

    Sem dúvida, o melhor e mais completo texto sobre Sinatra. Muita pesquisa, detalhes preciosos que traçam a personalidade dele. Além da escrita bem talhada e envolvente. Nem percebi o tamanho gigantesco do post. Só sei que quando terminei queria mais. Parabéns.

  2. melchíades cunha jr
    Postado em 31/03/2010 às 1:35 pm | Permalink

    AB, belo texto e muito oportuna sua republicação. Renovo os parabéns que lhe dei na época. Queremos mais. Abração

  3. valdir sanches
    Postado em 31/03/2010 às 6:53 pm | Permalink

    Anélio, acredite. Acabo de ler a matéria -magnífica – e estou ouvindo Frank Sinatra cantar. Aquela música que vem na cabeça da gente. What’s New, My Way. Eu não sabia muita coisa do velho Frank, nem mesmo que ele vendera mais do que os Beatles. Foi uma delícia tranqulizante ler seu texto.

  4. nelson martins
    Postado em 30/03/2011 às 12:25 pm | Permalink

    É sempre interessante sabermais da vida daquele que foi o maior cantor popular de todos os tempos.Eis a tríade: Beethoven,Sinatra e Pelé. Nada a supera.

  5. Jussara
    Postado em 12/07/2014 às 1:13 am | Permalink

    Sensacional, ótimo texto (pensei que eu fosse ler aos poucos, mas a leitura fluiu super bem)! Algumas coisas sobre a personalidade dele das quais eu ‘desconfiava’ se confirmaram (excelente cantor, caráter nem tanto). Ando numa fase *sinatriana , ouvindo muito o cara, e lendo sobre os filmes que ele fez (não consigo entender como ele conseguiu ganhar um Oscar, mas isso é assunto para o outro site. he).

    * Sempre vejo comentários de fãs de atores/cantores da época dele que escrevem “swoon”, mas não sei se é pq a gíria continua viva até hoje ou se é pq são pessoas daquela época.

  6. Jussara
    Postado em 11/08/2014 às 9:17 pm | Permalink

    Sobre minha dúvida e o uso de swoon até hoje por algumas mulheres, fui pesquisar e encontrei isso no Urban Dictionary:
    “Swoon: noun 
    A person, usually male who is very attractive. It is used when the is a hot/sexy/cute boy that someone would “swoon” over.”

    Eu acho que as pessoas ainda usam swoon como usam cool; participo de um fórum em inglês onde há mulheres novas e mais velhas (gente que curtiu o Sinatra ainda vivo, e deve ter seus 60 anos) e todas escrevem swoon, mas talvez o sentido de hoje seja um pouco mais ‘picante’.

Um Trackback

  1. […] Les Brown até 1946 – e a voz dela era um instrumento da orquestra, como se fazia na época, como Frank Sinatra era um instrumento da orquestra de Tommy Dorsey no abençoado período 1940-1942. No cinema, ela […]

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