O sucesso meteórico do Secos e Molhados

Não foi um sucesso qualquer. Foi um sucesso como nunca antes se vira, rápido, incrivelmente rápido, fulminante. Quanto é que seria possível imaginar, mesmo usando muita imaginação, que um conjunto há até pouco tempo desconhecido conseguiria bater o imbatível Roberto Carlos, até mesmo no mês de dezembro, o mês do lançamento anual do disco do então senhor e rei?

Foi realmente um sucesso grande demais. Tão grande que conseguiu mudar a vida de João Ricardo. E conseguiu, por isso, acabar com Secos e Molhados, exatamente – ironia – na triunfal semana do lançamento de seu segundo disco (em 1974, época em que este texto foi escrito).

É o que dizem os outros dois componentes do agora extinto grupo, Ney Matogrosso e Gérson Conrad.

Ney:

– Faz muito tempo que Secos e Molhados virou máquina de ganhar dinheiro. O trabalho que começamos a desenvolver agora está em último lugar na relação das prioridades. O que importa é quanto cada sorriso, cada entrevista, cada letra, cada música pode render em cruzeiros. E mais nada.

Gerson:

– O sucesso do grupo, principalmente o financeiro, em vez de incentivá-lo à criação, fechou suas portas para os compositores brasileiros. Afinal, é muito mais rendoso e de sucesso garantido inventar musiquinhas para textos de poetas famosos. Ele (João Ricardo) preferiu fazer parceria com Julio Cortazar, Oswald de Andrade e Fernando Pessoa. Foi graças a essa fórmula que, no primeiro LP, ele ganhou uma incalculável fortuna em direitos autorais. Com as músicas do novo disco, ele certamente vai ficar rico.

Fala-se que João Ricardo se recusou a gravar uma música feita por Caetano Veloso para Secos e Molhados. E outra feita por Luiz Melodia – compositor vigoroso, inventivo, aclamado pelos críticos mas de pouco ibope.

(Claro, não que seja negativo musicar poemas de Cortazar, Oswald de Andrade e Fernando Pessoa, e fazer ouvir Poesia do Oiapoque ao Chuí, do Rio Grande à Patagônia. Não que seja negativo. É simplesmente mais garantido, mais cômodo, mais seguro – e muito mais rendoso – do que fazer ouvir coisa nova, desconhecida e feita – principal defeito – por outras pessoas).

Secos e Molhados deu muito dinheiro. Quando o grupo surgiu, os lucros eram repartidos entre os integrantes do conjunto, mais o então empresário, Moracy Do Val. Marcelo Frias, baterista, o quarto integrante do conjunto (lembra-se de que na capa do primeiro LP eram quatro cabeças?), deixou o grupo por divergências quanto à sua orientação. Passou a acompanhar os outros três, ao fundo, sem fazer parte do conjunto. (Depois foi inteiramente abandonado; não participou de nenhuma das faixas do segundo LP).

Os lucros, então, passaram a ser repartidos entre quatro. Até que Moracy Do Val foi afastado, acusado de má administração. A firma que controlava os interesses do grupo, a SPPR, foi dissolvida, e em seu lugar surgiu uma nova, a S e M Produções. Essa nova firma tem um único dono: João Ricardo. Segundo Gérson Conrad contou ao Jornal da Tarde, João Ricardo teria proposto que Ney e ele, Gérson, participassem da firma como empregados.

Ainda segundo Gérson, a maior parte do que Secos e Molhados conseguiu em um ano de sucesso está em nome de João Ricardo e seu pai, João Apolinário, crítico teatral, poeta e autor da maior parte das letras do segundo disco do conjunto.

Ney Matogrosso e Gérson Conrad abandonaram o conjunto. Gérson pretende voltar para a Faculdade de Arquitetura (e diz que nunca deveria ter saído dela). Quando Ney deixou o maior fenômeno comercial da música brasileira, tinha apenas cem cruzeiros.

Fica João Ricardo, dono do nome Secos e Molhados.

Foi João Ricardo, com sua formação literária – muito mais literária do que musical, segundo ele mesmo admite – que forjou o grupo. Tanto que, às vezes, quando falava sobre Secos e Molhados, dizia eu, em vez de nós.

Foi ele que criou o nome Secos e Molhados, “um nome que não determina coisa alguma, que se abre para todos os gêneros”. Foi ele que, em 1971, descobriu Ney Matogrosso, ex-funcionário de um hospital em Brasília, ex-artesão que vendia suas pequenas obras na Praça da República, ex-ator de peças infantis, ex-cantor de coral. Foi ele que convidou Gérson Conrad, seu amigo de adolescência e vizinho do bairro Bela Vista, para participar do grupo.

Foi ele que deu a linha dos textos cantados pelo grupo. Foi ele que escolheu os poemas que seriam musicados, que compôs 12 das 13 músicas do primeiro disco e 12 das 13 do segundo.

Mas o que é Secos e Molhados, o conjunto que vendeu 800 mil cópias do LP de lançamento (para que sirva de comparação, Roberto Carlos, o maior vendedor de discos do país, vende cerca de 500 mil cópias de cada LP que grava), que lotou o Maracanãzinho, que lotou o teatro Treze de Maio durante 70 apresentações, que fez 6 mil pessoas disputarem os 700 lugares do Teatro Teresa Raquel no seu primeiro dia de apresentação no Rio, que gravou programas para a televisão mexicana, que vendeu discos pela América Latina afora, que absolutamente encantou a toda-poderosa Rede Globo de Televisão, que fez milhares de pessoas cantarem os versos cheios de insinuações de “O Vira”, que dominou as paradas de sucesso durante seis meses, sem parar?

Secos e Molhados é, antes de mais nada – antes mesmo que a linha fácil e comunicativa das composições dos dois LPs – a voz e a presença dos dois LPs – a voz e a presença da estrela Ney Matogrosso. É a voz de Ney – rara, “estranha”, belíssima voz de contra-tenor – que fica no ouvido, e marca o som do grupo. Nos shows, é a presença de Ney – esguia, vibrante, segura, com movimentos de uma cobra – que fica nos olhos, e marca a imagem do grupo.

E a base do som de Secos e Molhados é, antes de mais nada, a música de Gérson Conrad, um estudante de Arquitetura com formação musical clássica.

João Ricardo era a cabeça do grupo. Mas, sem as mãos, o rosto e a voz de Ney e de Gérson, para que serve a cabeça de João Ricardo, o dono do nome Secos e Molhados?

(Seria como, digamos, um conjunto chamado Beatles, formado por John Lennon e três pessoas que não Paul, George e Ringo.)

Quem mais perde com a morte de Secos e Molhados – mesmo que surja um novo conjunto com esse nome – certamente não é Júlio Cortazar, nem o nome de um Fernando Pessoa ou de um Oswald de Andrade.

Na realidade, o principal prejudicado parece ser o comércio. O comércio estava se dando tão bem com Secos e Molhados; vendia muito mais discos dele do que de Agnaldo Timóteo, Ray Connif, Frank Pourcel e todas essas coisas que dão muito dinheiro. Para o lançamento do segundo disco do conjunto, foi preparada uma campanha promocional como há muito não via (uma campanha que o primeiro disco, o LP de lançamento de um conjunto desconhecido, evidentemente não mereceu). Nos jornais, os anúncios mostravam a contagem regressiva: faltam 8 dias para o lançamento do novo disco de Secos e Molhados, faltam 7, faltam … Milhões de brasileiros veriam no domingo seguinte ao lançamento um tape do conjunto apresentando músicas do disco novo, no programa de horário nobre no dia nobre da emissora recordista de audiência no país. No cinema, filmes publicitários alertariam os consumidores sobre a boa nova.

Seria uma festa de cruzeiros. Afinal, antes mesmo de ir para as lojas, 300 mil cópias já haviam sido encomendadas. As temporadas de Secos e Molhados pelas grandes cidade do país fariam mais gente comprar disco, e ainda mais gente, quem sabe até alcançar o número mágico, lindo, inédito no país, de um milhão de cópias.

De repente tudo acabou. O disco venderá bem, claro – mas não tanto quanto poderia vender se o conjunto continuasse vivo.

(Pobre Continental. Ela é a gravadora brasileira que mais grava gente nova, desconhecida. Gravou, por exemplo, o primeiro – e até agora único – LP do importantíssimo Walter Franco, provavelmente o principal músico novo do país. Claro que o disco vendeu pouquíssimo. Assim como venderam pouquíssimos outros discos de compositores e cantores novos lançados pela gravadora. Secos e Molhados era a mina de ouro da empresa, um conjunto que compensava – financeiramente – as experiências com muitos outros grupos ou compositores novos. E a mina secou.)

Entre os grandes perdedores por causa do final do conjunto está certamente João Ricardo – como também João Apolinário, que trocara a crítica teatral pelo mais rendoso ofício de compor junto com o filho e empresariar o conjunto-fenômeno.

Gérson Conrad, de volta à Arquitetura, não parece muito prejudicado. Na semana de lançamento do segundo disco, depois de tomar a decisão de deixar o conjunto, ele dizia estar contente por voltar à escola que abandonara.

Quanto a Ney, esse dizia ao Jornal da Tarde:

– Agora estou de novo no lugar de onde o João Ricardo me tirou: na sarjeta. Graças a Deus. Mas tenho dormido e até sonhado, o que não me acontecia há um ano.

Sarjeta, naturalmente, é pouco mais que uma expressão literária. Não deverá demorar muito o lançamento de um disco de Ney Matogrosso, um cantor de voz clara e bela, que todos conhecem – provavelmente com músicas de gente importante como Milton Nascimento, Caetano Veloso e sabe-se lá quem mais.

E quanto à música brasileira, que é o que mais interessa, a perda realmente não é grande.

Não que o primeiro disco de Secos e Molhados seja ruim, nem que o segundo disco seja ruim. As falhas do primeiro – as falhas técnicas, de produção e gravação – foram corrigidas. O disco é bem feito e bem acabado. Não há nenhuma música ruim; são todas agradáveis, bonitas, bem executadas e maravilhosamente bem cantadas. Duas ou três são na verdade emocionantes, como “Tercer Mundo”, que João Ricardo fez para o poema de Cortazar, “O doce e o amargo” e “Preto Velho”, também de João Ricardo.

Mas o importante é que esse segundo disco mostrava a rota que o conjunto seguiria, se não tivesse sido desfeito. Pelo que o primeiro disco mostrou, e agora esse novo, é fácil perceber que Secos e Molhados não estava de forma alguma interessado em criar, inovar, inventar, mudar, crescer – como um Caetano, um Gil, um Chico Buarque, um Milton Nascimento.

Embora tanto João Ricardo quanto Gérson admitissem a influência dos Beatles, e embora o ex-empresário Moracy Do Val pretendesse fazer filmes com Secos e Molhados, criar uma etiqueta própria, como a Apple, e – quem sabe? – até conquistar o mundo, o conjunto na verdade não aprendeu a lição decisiva. Não entendeu a distância que vai de “I wanna hold your hand” a Abbey Road.

E, em vez de criar, o conjunto havia decidido – como mostra o seu segundo disco – repetir. Criado o som Secos e Molhados, ele se repetiria infinitamente, por discos e mais discos, sempre igual, sempre igual, até a saturação que parece não chegar nunca – está aí Ray Connif que não deixa ninguém mentir. Repetir – isso é certo, está provado – é garantido, é seguro, vende disco antes de o disco chegar às lojas, dá dinheiro. Só a música sai perdendo.

A historinha por trás do texto

Este texto foi publicado no Jornal do Objetivo, em setembro de 1974. Era o jornal laboratório da Faculdade de Comunicação do Objetivo, ou Instituto Unificado Paulista, hoje Unip, a universidade criada por João Carlos Di Gênio.

O texto sobre o Secos e Molhados saiu na última página da edição de setembro de 1974 – o jornal tinha 16 páginas!

Fiz três textos para o Jornal do Objetivo; além deste aí, escrevi uma matéria sobre Gonzaguinha e uma sobre a renúncia de Richard Nixon, historiando o escândalo Watergate. Este último, não sei por que cargas d’água, não guardei. Uma pena.

Sim, mas o que eu fazia em 1974 na Faculdade de Comunicação do Objetivo?

Pois é. A história é longa; não interessa a ninguém, mas gosto dela.

Em 1970, meu terceiro ano em São Paulo, fiz o cursinho pré-vestibular do Objetivo – cursinho extensivo, o ano inteiro. Começou num prédio pequeno na Liberdade, depois se mudou para o predião da Gazeta, no número 900 da Avenida Paulista. Em julho comecei a trabalhar no Jornal da Tarde; em janeiro de 1971, passei no vestibular da USP e entrei para a ECA, a Escola de Comunicações e Artes. A turma da ECA que fez o básico de 1971 era extraordinária; dali saíram grandes nomes do jornalismo, uns 30 caras muito mais brilhantes e importantes do que eu seria na profissão. Mas o curso era teórico demais, os professores eram teóricos demais; eu era dos poucos que já trabalhavam em jornal. Na metade do segundo ano, já trabalhando como copydesk, à noite, com aula de manhã, desisti. Achei que conseguiria o registro de jornalista por já estar trabalhando.

Mas em 1973 o Departamento Pessoal começou a pressionar pelo diploma, exigido pela lei da ditadura que regularizou a profissão de jornalista. O Objetivo tinha aberto a faculdade, os professores eram excelentes, os melhores da praça (vários tinham me dado aula no cursinho, e eu os admirava muito, como admiro até hoje), e então fiz meu segundo vestibular e comecei meu segundo curso de Comunicações.

Nem me lembro direito – acho que fiz até metade do segundo ano. Aí o saco estourou e desisti de novo.

Anos mais tarde, acho que em 1977, ou 1978 – de novo pressionado pelo DP, que era pressionado pelo Ministério do Trabalho –  fiz Cásper Líbero, no mesmo grande prédio sempre inacabado do Gazeta na Paulista. Quando estava no meio do segundo ano, saiu meu registro definitivo de jornalista profissional, e casquei fora do meu terceiro curso de Comunicações.

Não sou feliz portador de diploma universitário.

6 Comentários para “O sucesso meteórico do Secos e Molhados”

  1. Viva! O que eu descobri aqui! O melhor(para mim claro) disco de Música Popular Brasileira – Secos e Molhados I.
    Admirável a canção “O Patrão Nosso de Cada Dia” até me faz arrepios.
    E “Rosa de Hiroshima”? Um espanto!

  2. BEM ACHO QUE SO HA UM EQUIVOCO NESTE TEXTO, ROBERTO CARLOS SITADO DE FORMA IRÔNICA NESTA MATÉRIA DESDE 1965 COM O ESTRONDOSO SUCESSO DE QUERO QUE VA TUDO PRO INFERNO, NO DISCO JOVEM GUARDA, ALI JA TINHA BATIDO OS RECORDES DE VENDAGENS CHEGANDO A MARCA DOS 500 MIL COPIAS. BATENDO INCLUSIVE AS VENDAGENS DE ELIS REGINA, QUE NAQUELE MOMENTO ERA A MAIS POPULAR. COM O PASSAR DOS ANOS CADA DISCO DE ROBERTO ERA MAIS AGUARDADO E SUA VENDAGEM ERA CADA VEZ MAIOR. EM 1970 ROBERTO CARLOS CHEGOU A MARCA DOS 700 MIL COPIAS VENDIDAS, ALGO ATE ENTÃO NUNCA CONQUISTADO E EM 1972 CHEGOU ENFIM A MARCA DE 1 MILHÃO DE COPIAS. E DE LA PARA CA NINGUÉM ENTÃO CONSEGUIU SUPERAR ESSA MARCA, PRINCIPALMENTE POR TANTO TEMPO. POR TANTO O RESPONSÁVEL POR ESTE TEXTO DEVERIA TER PROCURADO COM MAIS ATENÇÃO OS FATOS SOBRE A CARREIRA DE ROBERTO CARLOS, MESMO ELE NÃO GOSTANDO DO SITADO ARTISTA. GRATO PELO ESPAÇO…

  3. Caro Rilbert, não há ironia nas citações a Roberto Carlos. Minha intenção foi apenas dizer que o Secos e Molhados conseguiu a façanha de bater a vendagem de Roberto Carlos naquele ano específico. Só isso. Seria a mesma coisa que lembrar que, com a canção “Strangers in the night”, Frank Sinatra bateu os Beatles. Não vai aí qualquer ironia – nem contra os Beatles, nem contra Sinatra. É apenas a verdade dos fatos.
    Sou fã de Roberto Carlos, como você poderá ver em outro texto deste site:
    http://50anosdetextos.com.br/2009/grande-rei-roberto/
    Um abraço.
    Sérgio

  4. Muito boa a matéria sobre os Secos & Molhados. João Ricardo o gênio de um único grande disco. Graças a matéria diversos pontos foram esclarecidos. Valeu

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