Pato Louco já está circulando com a moto. Hoje o ônibus elétrico não passa na Augusta. Tatu também já chegou; encostou o carrão no meio fio, sentou em cima do capô e agora está tomando um gole de conhaque. O primeiro da noite, para esquentar.
A paquera sem pressa, feita no meio da rua, em carros e motos com o motor desligado; as paqueras, as farras loucas, as arruaças. Horas inteiras de trânsito parado.
As meninas se vestiram e maquilaram com muito luxo; entraram em seu carro bonito e já estão chegando para ser paqueradas. As bonitas serão chamadas pela rapaziada de avião ou altas mulheres. Mas todas serão paqueradas, porque essa é a regra.
São nove e meia da noite, sábado. O Clube Augusta está começando a funcionar. Os frequentadores desse clube são jovens alegres, divertidos, ou simplesmente arruaceiros, descontraídos, irresponsáveis. Mas, certamente extravagantes.
Já houve quem visse um rapaz levar um cão pastor alemão em sua moto, o dono e o cão usando capacete. Um cão motoqueiro!
As exigências do clube são que o frequentador esteja motorizado e não seja um búfalo, como chamam as pessoas de bairros afastados. Essas não têm nível para entrar no clube.
Música vem de rádios e tapes dos carros parados, com as portas abertas, em alto volume. O teto do carro serve como mesa para copos de uísque e conhaque.
O clube é o ladeirão da Augusta, que vai da alameda Santos até o bar dos motoqueiros, o Snoopy, seis quarteirões abaixo, quase na Estados Unidos. Os boys donos de carro costumam parar também nos dois lados da alameda Lorena – quando não no meio da rua – porque nessa alameda fica o bar do Portuga, que os abastece de bebidas.
Pato Louco e sua turma sabem pilotar muito bem uma moto. Isso explica por que ainda não foram todos parar em um hospital. Passam voando pelos carros, em espaços pelos quais não se acredita que passaria uma bicicleta. Partem do bar Snoopy como foguetes.
Sangue frio
Quem se arrisca a viajar na garupa da moto de Greko por motivos profissionais (fazer uma reportagem), precisará de muito sangue frio para subir o ladeirão da Augusta. Greko arranca e nos primeiros metros dá com carros parados que ocupam toda a rua. Não se perturba. Toma a contramão e segue viagem junto ao meio fio. Esclareça-se: meio fio do outro lado da rua.
Mas logo a Suzy Ruiva, como ele chama a moto Suzuki avermelhada, está em ziguezague entre os carros. Volta para a faixa da direita, mas dá de cara com um carro Dodge – e lá está a Suzy Ruiva subindo na calçada, desviando de postes e sacos de lixo e de um ou outro aterrado pedestre, numa corrida maluca. Mas sem o carona que saltou dela assim que pôde…
No auge da paquera os motoqueiros sobem a Augusta de olho nas moças dos carros que passam. Marcam assim as que lhes são mais interessantes para serem paqueradas, na volta, ladeira abaixo. A descida é feita com a moto desligada. Greko aproxima-se suavemente de um Chevette branco, onde três aviões, moças bonitas, procuram manter um ar de dignidade.
Os vidros do carro estão erguidos. Greko, cabelos compridos e desalinhados, blusão de couro, faz algumas caretas e uns tantos gestos divertidos. Bate com o nó dos dedos nos vidros. As moças acabam achando graça. Mais um pouco, o vidro é descido – Comment sa va? – cumprimenta o rapaz.
Cada motoqueiro tem sua modalidade de ataque. A de Greko é perguntar em francês como as moças vão indo. Algumas respondem nessa língua, outras em português. Mas sempre acabam por responder. A que agora está ao volante, morena de olhos límpidos, limita-se a sorrir. O rapaz entra com a conversa.
– Por que esse sorriso tão formal. Não estamos em um teatro…
-A Augusta não passa de um teatro.
-Vocês não querem ir a um baile da Chácara Flora?
-Não, estamos indo para casa.
-Onde moram?
-Na Vila Brasilândia (risos).
-E eu em São Miguel Paulista (risos).
(Bairros de periferia)
-A moto Susy Ruiva vai descendo desligada.
Para duas loiras em um Fuscão:
-Aonde vocês estão indo?
-No cinema. Se quiserem vir é só seguir a gente…
-Vamos no seu carro. Estamos fazendo a campanha de aqueça um motoqueiro neste inverno…
-Para uma moça não tão moça, num Volks:
–Vamos fazer um programinha? Papai não deixa. Com essa idade e você ainda tem pai?
Já perto do bar Snoopy um Opala está parado no outro lado da rua com o motor desligado. Um motoqueiro conversa com a moça que está ao volante, mas a garota ao seu lado está desacompanhada. Greco põe o carão pela janela e fica assim até a moça notá-lo. Comment sa va?
A conversa dura quinze minutos. Atrás deles cresce uma fila de carros que começa perto da Avenida Paulista. Mas ninguém buzina. É a regra do jogo: paquerar e deixar paquerar. Buzina só quando todo mundo resolve fazer barulho.
O que a moça do Opala acha dos boys da Augusta? “Alguns legais, outros chatos, mas também tem muito papo furado. Só não gosto mesmo quando eles se juntam e ficam balançando o carro da gente.’’ E quando a paquera vai mal para o paquerador e está difícil se livrar da mina? Ele faz um sinal para um outro, este se aproxima: “Telefone pra você”.
Tuta está com seu Dodge estacionado perto da Alameda Lorena. Os rapazes que paqueram de carro acham mais fácil ficar parados esperando as moças passar. Vão bebendo um conhaque que oferecem às garotas. Mas há também moças que pedem um gole – e isso dá início à paquera.
O pessoal da turma de Tuta, o Tatu e o Robertinho, também têm como os motoqueiros – com os quais coexistem amigavelmente – suas técnicas. Uma delas é colocar-se na frente do carro de uma moça e fazê-la parar. E então meter a mão pela janela do carro, abrir a porta entrar e sentar:Como está a menina?
Diversão: roubar placas.
Uma diversão dos paqueras que estão de carro é roubar as placas instaladas do lado de fora dos ônibus elétricos que vão para Pinheiros. Devido a isso, esses ônibus não passam pela Augusta nos fins de semana. São substituídos por outros com motor a diesel que não têm placas expostas.
Os motoristas destes ônibus precisam ter muita paciência. Um deles conta que os vinte ônibus da linha 604 ficaram barrados em um mesmo trecho da Augusta, porque um rapaz atravessou seu carro na frente de um deles. E ficou hora e meia assim.
Alguns motoristas que inadvertidamente invadem com seu carro o trecho da paquera e acabam sem condições de sair dali têm reações curiosas. Pode-se ver um senhor, num Opala, acender um cigarro atrás do outro. O de um Galaxie, buzinar furiosamente, até atingir a avenida mais próxima e safar-se. Uma família, casal e três filhos apreciar de sua Caravan um motoqueiro paquerar.
Mas chega um comando de trânsito do Detran. Descem três policiais que ficam apitando e fazendo gestos. Um deles admite que “estamos aqui só para constar e não deixar o trânsito parar de vez”. Mas esse fato é “comemorado”: os carros param de uma vez, manobram em cima da calçada, buzinam todos por longo tempo. Um coro de buzinas.
São momentos como esse que fazem a infelicidade de Orlando, antigo zelador de um velho prédio da Augusta. Os moradores o procuram para reclamar e obrigá-lo a chamar a polícia.
Orlando obedece. “Mas quando vem, a rádio patrulha dá uma batidinha e logo vai embora”.
Por isso, alguns moradores do prédio têm agido por conta própria. Ovos, tomates, cubos de gelo e outras improvisações são lançados das janelas do edifício sobre os paqueras barulhentos.
Esses, entretanto, reagem. Querem entrar no prédio a força, para pegar quem atirou o “material”. Orlando zelador pede paciência e diz que “tudo é festa”, mas isso não adianta. Em uma noite, depois dos ovos e tomates, um rapaz “queria arrebentar com seu carro a porta do prédio para entrar. Só este ano quebraram cinco vezes os vidros da porta.”
A uma hora da manhã o rádio de um carro toca alto Moonlight Serenade, clássico do músico americano Glenn Miller. Dois motoqueiros descem a Augusta pela calçada deserta chutando os sacos de lixo. Dentro de um Galaxie, um dos rapazes da turma toma uísque e come salgadinhos.
Quatro rapazes ficam xingando com palavrões as moças que passam em um carro. Um deles dá o fecho da história. “Só passa mulher ruim, o saldo de guerra.”
A reportagem “Clube Augusta” foi republicada no blog Vivendo e Escrevendo em 9/9/2026.
