Brasil na Copa do México

Havia uma juventude barulhenta no avião que levou este repórter, então na revista Afinal, a Guadalajara, no México, para cobrir os jogos do Brasil na Copa de 1986. Mas também lá estava uma distinta senhora, com duas filhas. Ora, ninguém menos do que a esposa do jogador Sócrates, que fez a gentileza de me conceder uma entrevista.

Um bom começo, que viria a ser mais do que isso.  Na manhã seguinte, Sócrates marcou o primeiro gol das partidas que aconteceriam e correu para abraçar a esposa. Ora, a que eu havia entrevistado. Resultou em um texto muito especial.  “Ele está 100% em forma, ótimo, muito animado e com a cabeça boa” –   havia dito Regina, a esposa.

Nenhum problema…   “Só crises existenciais” –  diz a mãe dos quatro filhos do casal. “Ele pensa muito, por que isto, por que aquilo. Será que foi certo eu ter seguido a carreira de futebol e não a de medicina? Será que ainda há tempo para a medicina? E a política? São esses os problemas dele. Política apenas de bastidores, nenhuma candidatura.”

A explosão que estremeceu o Estádio de Jalisco quando Sócrates fez aquele  gol foi provocada por torcidas das mais insuspeitadas origens. Chegaram onze suíços, de Zurique. Que fazem em Guadalajara?  Viemos torcer pelo Brasil.

“Nem nós a amamos tanto” disse um espantado João Mário Vinhares, do grupo artístico Circo Voador. Depois do jogo de estréia da Seleção, o caminho de seis quilômetros que leva do Estádio para o centro – belas avenidas arborizadas – ficou ladeado de moradores da cidade.  Famílias, grupos de jovens, moças, que acenavam para os brasileiros, como se por ali estivesse passando um cortejo presidencial.

Mães que estendiam seus bebês para que eles os acariciassem.  Mexicanos, espanhóis e – incrível – até mesmo argelinos manifestavam sua simpatia pelo Brasil, que pelo menos um título já conquistou neste mundial: a paixão pela Copa.

0 grosso da folia é o pular e cantar desses mexicanos alegres, que pedem autógrafos até para a baiana trazida do Brasil para fazer e vender acarajé. E congestionam a importante avenida Lopes Mateu com carros embandeirados, moças sentadas nas janelas e no capô, grupos na carroceria de camionetas. Buzina, muita buzina, gritos “Bracil! Bracil!

E outros, bem-humorados  bagunceiros vindos de diversos pontos do país passam dias e noites uniformizados como jogadores, gritando seremos campeões (e também “mais uma cerveja”).  Só faltou o final feliz. O Brasil perdeu para a França, não se classificou para jogar a final na capital, a Cidade do México.

Este texto foi originalmente publicado no blog Vivendo e Escrevendo, em 31/7/2026. 

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