E não é no reino da Dinamarca.
É aqui mesmo no reino da Banania, e não se trata só de algo, mas de muitos algos.
O cheiro de podre começou a bater no ano passado, quando o poderoso proprietário do fraudulento Banco Master, Daniel Vorcaro, foi preso pela primeira vez, depois de a Polícia Federal ter descoberto as falcatruas cometidas pelo banqueiro através do banco que ele conseguiu abrir com o aval do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o queridinho de Jair Bolsonaro.
Sim, Daniel Vorcaro já tinha ido bater na porta do BC, na época em que era comandado por Ilan Goldfajn, indicado pelo presidente Michel Temer – e recebeu um belo NÃO.
Mas ele não desistiu fácil. Deu mais um tempinho, voltou lá durante o governo Bolsonro e achou as portas escancaradas para realizar seu grande sonho: o de enriquecer sem limites e sem pudor, contando com a ajuda de todas as áreas que envolvem o Poder.
Entre viagens de jatos particulares, resorts, charutos, whisky de primeira linha, filmes de segunda linha e até mesmo com ternos de alfaiataria, acabou comprando meio mundo. Pelo jeito comprou facinho, facinho, porque até peixões insuspeitos acabaram caindo na sua rede de pesca e agora estão sendo servidos no banquete daqueles que também estavam na mesma rede, mas foram atirados de volta ao mar.
Vorcaro me faz lembrar de um dos “causos” populares que minha mãe costumava contar e que nos assustavam quando éramos crianças.
Dizia a lenda que passado um minuto de uma terça-feira de carnaval, os foliões, sem se darem conta de que já era Quarta-feira de Cinzas, continuavam a pular e a cantar ao som das marchinhas quando, de repente, a porta do salão se abriu e nela surgiu um moço tão lindo que fez com que todos parassem para admirá-lo. Nesse momento hipnótico o moço lançou um enorme rabo que percorreu todo o salão e envolveu os “pecadores” para transportá-los ao inferno.
Tirando a parte do “lindo”, que, pelo jeito só o Nikolas Ferreira acha, Daniel Vorcaro meio que se iguala ao Capiroto do baile, só que usando outros métodos de hipnose para atrair os pecadores: o tilintar das moedas de ouro em vez do rabo (supõe-se), conseguindo assim passagem livre para praticar seus ilícitos ao mesmo tempo em que atrela os rabos dos envolvidos ao seu negócio sujo.
E a cada dia que passa a coisa só piora. É podre sobre podre. É o roto falando do rasgado. É o jogo de interesses que beneficia alguns em detrimento de outros. É um querendo furar o olho do outro. É briga de foice no escuro. É candidato esquecendo-se de que também está envolvido na lama vorcarenta, pedindo “espada da justiça” em culto evangélico antes do desfile de 7 de setembro em São Paulo. E por aí vai.
E, pelo rumo que as coisas estão tomando, com a proteção dos céus (e também da Terra) de ministro terrivelmente parcial e de pastores evangélicos, essa espada poderá ter efeito semelhante ao da faca de um bispo.
É, parece que o pessoal da limpeza vai ter muito trabalho pela frente. Vai precisar contar com o bom senso do chefe do setor, cuidando para que nenhuma sujeira seja varrida pra debaixo do tapete. Mas nenhuma mesmo. Afinal, pau que dá em careca dá também em evangélico que recebe condenado para um bate-papo informal em sua empresa, em quem pede, descaradamente, grana pro “irmão” bandido usando a desculpa de um filme trash, e em outros que também mamaram nas garrafas de Macallan de Vorcaro.
Vai precisar também de muito perfumador de ambiente pra tirar esse cheiro de podre no ar!
Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 11/9/2026.

