No meio de “Nathalie”, o iPod faleceu. Mas…

Meu iPod velho de guerra faleceu de repente, no meio de “Nathalie”, de Gilbert Bécaud. Tocou 1 minuto e 28 segundos da canção que sempre adoro ouvir – e faleceu.

Bécaud estava contando sobre sua viagem a Moscu, como eles pronunciam o que os russos falam Maskvá, e de como a Praça Vermelha estava branca, com a neve fazendo um tapete enquanto ele passeava por lá, levado por sua guia, uma bela jovem que tinha um nome igualmente belo, Nathalie. 

“Nathalie”, a deliciosa canção que Bécaud compôs com seu parceiro de muitas obras, o letrista Pierre Delanoë, é de 1964, o ano da transição de poder no cargo de secretário-geral do PCURSS, Não sei se o encontro com Nathalie que Bécaud narra aconteceu ainda no reinado de Nikita Kruschev, o terceiro czar após a execução de Nicolau II e família, ou já no de Leonid Brejnev – mas o fato é que a companheira Nathalie era uma fidelíssima comunista de carteirinha. Em frases sóbrias, falava com o turista francês que ela ciceroneava sobre a Revolução de Outubro – e o safado do turista saído do decadente capitalismo ocidental já pensava que, depois de visitarem o túmulo de Lênin, os dois iriam ao Café Pushkin beber um chocolate. Ele não abre abertamente o jogo, não diz que pretende lançar uma cantada na seriíssima companheira Nathalie – mas o ouvinte sabe perfeitamente que é isso que ele quer.

Pois a canção estava por ali – “Je pensais déjà / Qu’après le tombeau de Lénine / On irait au café Pouchkine / Boire un chocolate” – quando meu iPod faleceu.

Claro, eu estava cansado de saber que, no final de seu relato, Bécaud iria dizer que um dia, em Paris, seria ele que serviria de guia a Nathalie. Mas não cheguei a ouvir ele cantar isso.

O iPod faleceu.

***

Hum… Fico aqui pensando… Saberia o eventual leitor destas mal traçadas o que vem a ser o iPod?

Os mais jovens jamais ouviram falar. iPod é algo tão pré-antigo quanto 78 RPM, LP, compacto simples, compacto duplo, CD, fita de rolo, fita cassete, fita cartucho, CD-ROM, VHS, Betamax, DVD, Blu Ray’.

Os mais velhos talvez tenham ouvido falar, mas já não se lembram.

Então vamos lá. Segundo a Wikipedia, iPod é…

“iPod foi uma linha de reprodutores de mídia portáteis e computadores pessoais portáteis projetados e comercializados pela Apple Inc. O primeiro modelo foi lançado em 23 de outubro de 2001, cerca de 8 meses depois do lançamento do iTunes nos computadores Macintosh.”

Vixe! Para algumas pessoas, essa definição aí deve ser mais complicada do que sânscrito, raiz quadrada, regra de três ou física quântica. Então vou em frente.

O meu iPod, especificamente, o que faleceu no meio de “Nathalie”, contém, ou continha, 11.245 músicas, escolhidas por mim, colocadas ali dentro dele por mim, copiadas dos meus discos. Era o que eu chamo, sem modéstia alguma, de A Rádio Sérgio Vaz.

***

Houve um dedo meu no passamento do bravo aparelhinho que comprei – meu Deus do céu e também da Terra! – em 2006. Vinte anos atrás. Ving Ans Déjà!, como o título do Um Homem, Uma Mulher Volume 2, que Claude Lelouch lançou em 1986 e até veio ao Brasil para divulgar, e eu tive a imensa sorte de entrevistá-lo no Maksoud, eu não pude, eu não pude levar você pra jantar no Maquisude – mas essa é outra história, diacho. (Ou são outras histórias. “Eu não pude, eu não pude” é de uma canção do Língua de Trapo…)

O aparelhinho que faleceu outro dia prestou bons, excelentes serviços durante 20 voltas deste nosso planetinha em torno do Sol, estrelinha anã amarela de sequência principal, com tipo espectral G2V, seja lá isso o que for.

Houve um dedo meu. Eu quis falar alguma coisa com a Mary naquele exato momento, quando tinham rolado 1 minuto e 28 segundos de “Nathalie” no reprodutor de iPod que tenho no nosso quarto, e então dei uma pausa no bichinho e fui falar com ela.

Quando voltei, apertei para tirar a pausa – e nada.

Apertei de novo. Apertei o lugar de pular para a música seguinte. Apertei o lugar de voltar para o início da música.

Nada.

Tirei o i-Pod do tocador de iPod, mexi, mexi, mexi – nada.

E levei um tempinho para perceber uma coisa estranhíssima: o iPod não respondia, estava mortinho da silva telles, como o companheiro dele que falecera muitos meses atrás, e eu guardava porque não conseguia me desfazer do corpinho sem vida. Só que… estava aceso.

Morto, mas aceso.

Parecia a música da Buika, “hodida pero contenta”.

Sem qualquer reação, morto – mas acesinho.

Resolvi tirar foto dele, morto mas aceso. Já começava a pensar em escrever um suelto sobre isso. (Ando pensando em escrever sueltos sobre tudo, sobre qualquer coisa, agora que o Valdir Sanches me botou no blog dele, onde os textos têm que ser leves, levinhos, levinhos, nada de política ou palavrão. Bem, mas já faz mais de 20 anos, vingt ans dèjá, que minha filha sentenciou, entre uma sentença condenando um e uma sentença absolvendo outro, que, paiê, agora pra você tudo vira texto!)

Contei sobre o falecimento do iPod para a Mary. Ela pediu para ver o cadáver. Entreguei a ela e fui fazer alguma coisa, já não me lembro o quê. Algum texto pra botar no ar, sei lá.

Daí a pouco Mary me chamou – e me entregou meu iPod de 20 anos de idade… ressuscitado!

– “Como assim?”

– “Ué, fiz uma pesquisa”, disse ela.

Como se fosse a coisa mais natural do mundo.

***

A historinha ainda não acabou.

Peguei então meu iPod queridíssimo, botei de novo no modo Shuffle Songs, o jeito de tocar em ordem randômica, ou seja, sem ordem alguma, aleatoriamente. Coloquei de novo o bichinho no tocador, apertei pra tocar.

O shuffle adora trazer surpresas, coisas absolutamente inesperadas. Aleatórias, como aliás gosta de dizer Marina, minha neta linda e fofa.

A primeira canção que meu velho iPod – mais cansado de guerra que a Teresa Batista – escolheu pra tocar foi “Don’t give up”, aquela maravilha do Pedro Gabriél, como meu amigo Amundsen gostava de chamar o Peter Gêibriel. Não a versão linda do autor, terçando sua voz com a de Kate Bush, mas a versão igualmente linda de Willie Nelson, outro imorrível, que nem o iPod, em dueto fantástico com Sinnead O’Connor, aquele ser de outro mundo, aquela maravilha.

Don’t give up.

Não desista. Você tem amigos. Não desista. Você ainda não foi derrotado. Não desista. Eu sei que você consegue.

Meados de julho de 2026

Este suelto foi anteriormente publicado no blog Vivendo e Escrevendo.

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