A morte de Fernando Portela, na terça-feira, 2 de junho, deixou todo mundo do grupo de WhatsApp do Jornal da Tarde em estado de choque. Várias, várias pessoas – eu inclusive – usaram a expressão “chocado” diante da notícia.
Talvez não fosse para ficarmos chocados – estamos todos na idade em que a morte já não é um espanto, mas uma coisa muito natural. Um colega – já não me lembro quem foi, e é quase impossível encontrar uma determinada mensagem naquele grupo, porque escreve-se demais ali –, no entanto, disse uma frase que explica, justifica o espanto, o choque: Portela parecia imortal.
É a mais pura verdade. Portela não parecia de forma alguma estar com os quase 83 que tinha. Tá, ter 83 anos hoje não significa mais, como até meio século atrás, decrepitude, fim de linha – mas, além disso, Portela não parecia ter mais de uns 70.
Na verdade, parecia imortal.
E acho que boa parte dos amigos não sabia que ele estava doente.
Então foi um choque.
Tão chocado quanto qualquer outro, Mário Marinho anunciou, apenas algumas horas depois de a notícia aparecer no grupo de zap, que iria fazer uma edição do JT Sempre dedicada ao Portela.
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O JT Sempre é uma invenção e uma realização de Mário Lúcio Marinho, um mineiro apaixonado pela Vera, sua mulher há seis décadas, o esporte de uma maneira ampla geral irrestrita e o futebol em particular, os amigos e o JT.
Mário Lúcio, como gosto de chamar o cara que pra todo mundo é Marinho, é uma daquelas pessoas que foram agraciadas pelo criador com o dom de ser agregador, gregário, juntador de pessoas. Desde 2009 ele promove anualmente um almoço dos veteranos do jornal que morreu há longos 14 anos – e que, quando morreu, já não tinha mais nenhum de nós que estamos no grupo de zap. Grupo, aliás criado, coordenado, organizado e incentivado por ele.
O “JT Sempre” nasceu junto com o primeiro dos almoços anuais. É pautado, em boa parte escrito, diagramado, fechado e editado em PDF por um único cara – ele mesmo.
O dedicado ao Portela foi o de número 133.
Veio com um monte de fotos do Portela, em vários momentos da vida, e textos de sua filha Mariana e de pra lá de dezena de pessoas que tiveram a honra de trabalhar ao lado desse profissional excepcional, dessa pessoa extraordinária.
Além de Mariana Portela, escreveram no JT Sempre nº 133 sobre o Satã – pela ordem em que aparecem nas páginas – Fernando Mitre, Mário Marinho, Moisés Rabinovici, Marli Gonçalves, Percival de Souza, Humberto Werneck, Marco Antônio de Rezende, Milai Cardoso de Almeida, Valdir Sanches, Sérgio Vaz, Vital Battaglia, Helena Mainieri, Sheila Lobato, Nelson Merlin.
Ah, sim, Satã. Esse era o apelido que Portela ganhou ainda nos anos 60 por causa da língua satanicamente ferina –, e do qual ele cada vez menos gostava, à medida em que envelhecia e ficava menos diabólico e mais angelical.
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Fiquei vários dias pensando sobre o que eu poderia fazer, aqui neste meu + de 50 Anos de Textos, sobre Fernando Portela, meu primeiro editor, o cara que me recebeu com uma generosidade incrível quando entrei pela primeira vez em uma redação de jornal, aos 20 aninhos de idade.
Até que resolvi fazer uma pequena abertura, e em seguida republicar os textos escritos para o JT Sempre pelos três amigos e admiradores do Portela que estão aqui neste 50ADT.
Uma espécie assim de compilação, já que, diacho, sou o cara das compilações.
Os textos têm uma teimosa mania de se escreverem por si sós, e então minha pequena abertura ficou longa – mas, diacho, era necessário fazer um elogio ao Mário Lúcio. Não tinha jeito de não fazer esse elogio.
Bem – aí vão os textos que Valdir Sanches, Nelson Merlin e eu escrevemos para o JT Sempre.
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Inesquecível
Por Valdir Sanches
O nosso Portela colaborava com um blog que mantenho até hoje.
Os textos dele faziam o diferencial, não eram simples artigos.
Trecho: “Geneide chorou de repente, tão de repente como quem sofre um infarto fulminante. Estava ali, falando sobre receitas, De repente – chuá – as lágrimas foram surgindo…”.
Grande pessoa. Em um dos lançamentos dos seus livros (que nunca perdi), deu-se o seguinte. A fila para a compra do livro era grande. Então, já naquela época idoso, fui ao começo da fila e pedi a um casal que me permitisse passar na frente e ser atendido.
O casal fez cara feia e não deixou. Nesse momento, Portela, que tinha acabado de dar um autógrafo, ergue o rosto e vê o que acontecia. Exclama meu nome, levanta-se da mesa, me dá um abraço, e logo estava autografando.
O casal se arrancou de fininha…
Conto esses fatos leves para não aumentar a dor pela perda de um amigo inesquecível…
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Para sempre
Por Nelson Merlin
Quando um amigo parte deste mundo, meu pensamento voa junto com ele. Chamo seus protetores, como chamei seus mestres d’além mar, para que o sigam, peguem sua mão para que não se perca, e chegue ao porto seguro que todos esperamos encontrar um dia. Mas este amigo que se foi ontem, eu não queria que fosse. Eu queria que o acontecido desacontecesse. Eu queria uma lei inversa, que ele voltasse de repente para trás e nos víssemos passeando nas alturas da Costa Amalfitana, nas noites paulistanas, nos dias agitados e sem fim da redação do Jornal da Tarde, onde passamos uma boa parte de nossas vidas, ainda jovens e desafiando o futuro que consumíamos avidamente no presente.
Um dia, tocou o telefone na minha sala na Folha de Londrina, uns 30 anos atrás. Ele me convidava para juntar-me a um grupo de jornalistas brasileiros que ia levar para a Itália a conhecer os últimos avanços da Fiat na construção de automóveis em linhas de produção automatizadas.
Portela já não trabalhava mais em redações, mas no departamento de imprensa da Fiat em Betim, Minas Gerais.
Dali ele me ligou e nem deixei que continuasse. Aceitei o convite na hora, para uma viagem inesquecível ao Norte e ao Sul da terra dos ancestrais de meu pai e meus avós paternos, os Merlin pioneiros de Bento Gonçalves e Farroupilha, então chamada Nova Vicenza, na Serra Gaúcha.
Foi ele que me religou às minhas origens nesta vida. Nessa viagem conheci Camilo Fré, que trouxera a Fiat para o Brasil, foi presidente da empresa aqui e se tornou seu grande amigo.
Camilo e ele riram quando o grupo pediu que nos levassem a uma pizzaria quando estávamos em Nápoles, para conhecermos a verdadeira pizza napolitana.
Por que riem? – perguntei.
“Perche la pizza italiana é una buona porcheria”, respondeu Camilo, um italiano de família nobre e, portanto, insuspeito para falar da culinária local. E completou, totalmente em português: “A boa pizza italiana se come no Brasil, em São Paulo, no Rio, em Belo Horizonte. Não aqui, definitivamente”.
Na Piazza Navona, em Roma, Portela nos levou a tomar um café após o almoço, num bar da praça, quase em frente ao chafariz.
“É para molharem o biscoito”, disse, com um sorriso indecente…
Foi o melhor cafezinho que tomei na vida. Ristreto, de um gole só.
Temperatura ideal, sabor profundo e forte que ficou na boca o resto do dia. O café não era brasileiro, mas um blend italiano da melhor qualidade.
“Eu não disse que você não ia se arrepender?”
Imagine se eu poderia me arrepender de algo que viesse do Portela?
Estarei com ele pela eternidade, esse bom pernambucano que sabia ser amigo de todo mundo, solidário, risonho, encantador.
Um Fernando Portela.
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Editor
Por Sérgio Vaz
Fernando Portela era um grande editor. Entre as muitas facetas do seu talento, havia uma imensa generosidade e a capacidade de transmitir confiança para as pessoas que ele chefiava.
Fui testemunha dessas características. Portela foi meu primeiro editor, quando cheguei ao JT, em julho de 1970, foquinha de tudo, levado pelo Gilberto Mansur, de quem eu era amigo desde o começo da adolescência, em Belo Horizonte – Surman era o namorado e depois marido da minha professora preferida no Colégio de Aplicação, a Vivina.
Portela editava a Reportagem Geral. Sandro Vaia era o sub dele.
Em fevereiro de 1971, eu portanto com uns seis meses e pouco de jornalismo, Portela me escalou para ir ao Recife, cobrir o carnaval da cidade, um dos melhores do Brasil – segundo os pernambucanos, a melhor festa do mundo, é claro.
O editor teve a generosidade, a ousadia, a coragem de correr o risco de mandar o foquinha para passar uma semana na terra dele e cobrir o carnaval!
Eu soube depois que teve um colega nosso que gozou a cara do Portela quando, ali pela sexta-feira, mandei uma primeira materinha, bem mixuruca. Tipo assim: – Pô, Satã, olha aí, meu, que palpite furado o seu, hein?
Na segunda-feira o JT publicou uma página e meia do foquinha, com uma diagramação daquelas maravilhosas, de que só o JT era capaz.
Na quarta-feira de Cinzas teve mais uma página limpa.
Portela me deu um toque: eu poderia ficar um dia a mais no Recife, pra descansar, antes de voltar pra redação.
Passei uma tarde inteira tomando chope diante do mar com o Toinho Portela.
(Esta compilação foi publicada em 9/6/2026.)




Adorei, Servaz, e me sinto valorizado por fazer parte de uma trinca com o Valdir Sanches. Você falou do Toinho, que eu conheci no JT antes do Portela e fiquei fã da família. Toinho foi meu primeiro editor, numa página recém criada chamada Resumo. Inicialmente era um resumo das principais matérias do dia. Toinho mudou o rumo das coisas: passou a ser, também, o resumo do que, por falta de espaço, não seria publicado naquela edição do jornal. Ele, como o Fernando, era inquieto, embora não parecesse, e não gostava de definições definitivas. Aprendi com os dois que definitivo mesmo são as amizades que fazemos e as memórias que carregamos para sempre.
Sanches, Merlin e Vaz: o Portela está muito feliz com seus textos, que refletem a grandeza e generosidade de sua alma. Obrigado.