Justiça reprodutiva também é uma questão de fé

Três mulheres, de diferentes religiões – uma socióloga de religião de matriz africana, uma antropóloga católica e uma antropóloga evangélica – assinam belo e importantíssimo artigo no Globo da sexta-feira, 22/5, sobre o que chamam, com toda propriedade, de “Justiça reprodutiva”.

O que na França é chamado de “interruption volontaire de grossesse”, interrupção voluntária da gravidez – um direito assegurado às francesas desde 1975, após anos de reivindicações dos movimentos femininos, e que, desde 2024, é assegurado pela Constituição.

Atualmente, o direito de as mulheres recorrerem ao aborto só é negado em menos de 25 países, dos 193 que têm representação na ONU. O Brasil tem a companhia de países como o Afeganistão dos talibans, o Irã dos aiatolás, mais Senegal, Mauritânia e Congo.

A discussão do tema é absolutamente necessária – e artigos como este são extremamente bem-vindos. (Sérgio Vaz)

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Justiça reprodutiva também é uma questão de fé

Por Emanuele Nascimento, Jamile Godoy e Simony dos An (*), O Globo, 22/5/2026.

Maria entoa no “Magnificat” um cântico de justiça. Iansã atravessa a guerra sem abrir mão da vida. Agar resiste ao abandono. Débora convoca seu povo à luta. Em tradições religiosas diferentes, essas mulheres nos lembram que cuidado, coragem, proteção e defesa da vida caminham juntos. É desse lugar que queremos falar sobre justiça reprodutiva.

No Brasil, a expressão ainda costuma aparecer aprisionada a uma chave moralizante e, quase sempre, reduzida à controvérsia sobre o aborto, como se tratá-lo como questão moral ou criminal fosse capaz de impedir sua prática. Na realidade, negá-lo como direito apenas empurra milhares de mulheres para a clandestinidade, o risco e o abandono. Justiça reprodutiva não se esgota aí. Também diz respeito às condições concretas em que mulheres gestam, criam filhos, cuidam, adoecem, trabalham e buscam sustentar a vida com dignidade.

Falamos do pré-natal que não chega, da creche que falta, da mulher que cria sozinha seus filhos, da avó que assume o cuidado cotidiano, da trabalhadora que passa horas em deslocamento, da família que depende do SUS, da mulher que encontra julgamento onde deveria encontrar acolhimento. Quando essas condições faltam, o que está em jogo não é uma abstração moral. É a vida como ela é.

Proteger a vida exige discutir saúde, cuidado, apoio às famílias, políticas públicas e direitos sociais. Inclui também enfrentar a naturalização do cuidado não remunerado, a sobrecarga histórica das mulheres e o abandono que organiza, silenciosamente, a vida social brasileira.

Justiça reprodutiva é uma formulação política construída por mulheres negras nos anos 1990, no contexto do debate internacional sobre direitos reprodutivos. Ao articular raça, gênero e classe, elas ampliaram esse campo para além da linguagem liberal da escolha individual e colocaram no centro a materialidade da vida: quem pode criar filhos com segurança, quem tem acesso à saúde e à proteção, quem é empurrada para a morte, para a pobreza ou para o abandono. Esquecer essa origem esvazia a força política do conceito e embranquece uma agenda nascida do enfrentamento às desigualdades estruturais.

Também por isso, tratar justiça reprodutiva apenas como “pauta moral” interessa a quem quer restringir o debate. Superar a moralização do tema exige romper a falsa oposição entre fé e direitos das mulheres. O que muitas vezes aparece como “posição religiosa” no espaço público não representa toda a experiência de fé. Em geral, representa uma leitura masculina, hegemônica e punitivista, que tenta falar em nome da religião como um todo. Mas o campo religioso não é homogêneo. Há mulheres de fé refletindo sobre abandono, maternidade, violência, cuidado, família e direitos sociais sem abrir mão de suas crenças.

Ninguém precisa escolher entre ter fé e defender os direitos das mulheres. A fé é fonte de cuidado, responsabilidade e justiça. É uma linguagem de acolhimento diante da dor, da desigualdade e da violência. Num país profundamente religioso, reconhecer isso é parte fundamental de qualquer esforço sério para ampliar o debate público e romper estigmas.

Num ano eleitoral, quando decisões sobre o presente e o futuro passam pela disputa de valores e sentidos de vida, ampliar esse diálogo se torna urgente. Defender justiça reprodutiva, portanto, não é atacar a vida, a família ou a religião. É enfrentar as condições que tornam a vida mais precária, mais desigual e mais violenta para as mulheres e reconhecer que sua existência não se resume à reprodução.

 (*) Emanuele Nascimento é socióloga e integrante do Ilê Asé Oyá Gigán Inú Aféfé, Jamile Godoy é antropóloga e articuladora do Católicas pelo Direito de Decidir, Simony dos Anjos é antropóloga e integrante da Rede de Mulheres Negras Evangélicas.

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