Promessas

Com certeza a Hungria não conta nada na ordem das coisas, mas a extrema direita estava no poder por lá há 16 anos e prometia mais 16. Orbán era um ícone do extremismo fascista, adulado por Trump, Putin e outros, como o clã miliciano-rachadista que sonha com novo estelionato eleitoral para este ano no Brasil. 

Orbán caiu do cavalo. Não conheço o Danúbio, mas fico feliz que seu corpo peso-pesado tenha caído sobre um chão de terra e pedra, e não nas fofas e revoluteantes águas azuis evocadas na valsa de Johann Strauss. Os duendes de Viena não permitiriam que suas vísceras balofas e suas idéias retro-medievais descorassem o Danúbio. 

Da Hungria conheço um amigo que veio para cá após a guerra contra Hitler, quando comeu ratos nas ruas  de Budapeste para não morrer de fome. Era judeu e conseguiu fugir de um campo de extermínio. Era sionista, ao contrário de Einstein, de quem se orgulhava por ser judeu, mas não queria mais saber de guerras e veio para cá no começo dos anos 1950. Ficou rico após abrir uma fábrica de meias de seda femininas em São Paulo. Não sei o que diria hoje do estado judeu após o massacre dos palestinos, das 21 mil crianças mortas em Gaza e das 179 meninas mortas no bombardeio à escola feminina de Minab, no sul do Irã. Mas acho que, constrangido, não puxaria essas aberrações no jantar. 

Outro que conheço da Hungria é o inesquecível Franz Liszt, a quem não conheci em carne e osso, mas ouço sempre que posso para abrir meu espírito enjaulado nas grades da matéria. Ele me tira dos grilhões desse mundo e me leva aos grandes rios e espaços sonoros nunca dantes navegados, na busca de uma liberdade que é arte e aqui não existe. 

Por fim, conheço da Hungria as czardas, a música cigana que está nas bases da inspiração de Liszt. Por vezes tristes, melancólicas, mas furiosamente alegres depois, a dizer que há lugar no mundo para a euforia e a beleza. 

Por aqui, Flávio Bolsonaro na frente e a Polícia Federal correndo atrás. Por lá, rogo que o novo líder, Peter Magyar, desmonte tijolo por tijolo, como promete, o castelo que Orbán construiu para tornar a democracia no regime do mais forte e dos mais estúpidos — como prometem aqui. 

Nelson Merlin é jornalista aposentado e curioso das voltas que este mundo dá. 

14/4/2026

     

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