Temporada de troca-troca

Mais de 20 parlamentares mudaram de sigla na primeira semana da janela de transferência partidária iniciada no dia 5 deste mês e que se estende até 3 de abril. Em 2022, a troca de camisa começou com 12 e alcançou 83 parlamentares, 16% dos 513 deputados. O movimento frenético, análogo às negociações de compra e venda de atletas dentro do calendário de transferências do futebol europeu, aponta o desprezo dos políticos com um dos pilares da estrutura da democracia representativa: os partidos.

À exceção do PT, com história e militância partidária, e parcialmente do PL, engordado com o bolsonarismo, a maioria das agremiações navega de acordo com o vento. No campo da esquerda, PSB, PSOL e Rede se somam ao PT. Na direita, PP, União Brasil, Republicanos e  sopa de letras de pequeno porte engalfinham-se nas disputas eleitorais e se abraçam aos governos vencedores. O PSD, sigla que mais cresceu nas eleições municipais de 2024, trilha a máxima do seu presidente, Gilberto Kassab, de não ser nem direita, nem esquerda, nem centro. Assim, está em todos os palanques e em todos os governos.

Em um país com 30 partidos políticos – o mais novo deles, o Missão, registrado pelos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL) no final do ano passado -, é difícil enxergar lastro ideológico nas siglas. Não à toa, eleições no Brasil se vinculam aos nomes dos candidatos em disputa. Não raro, os eleitores votam em candidatos de diferentes partidos em um mesmo pleito e nem mesmo sabem a qual sigla o postulante votado pertence.

Criada em 2015, a lei que permite a troca de partidos em anos eleitorais é uma gambiarra para burlar o entendimento do TSE de que os votos em eleição proporcional – vereadores, deputados estaduais e federais – pertencem ao partido e não ao candidato eleito, punível com perda do mandato em caso de deserção.

O drible deu certo e basta a janela de transferência abrir para a festa começar. No Congresso e nas casas legislativas país afora. Em 2022, no Paraná, 46 dos 87 deputados estaduais mudaram de partido, exemplo que ilustra bem a balbúrdia geral.

O troca-troca partidário legal termina um dia depois de outra data decisiva no calendário eleitoral: 4 de abril, prazo limite para futuros candidatos deixarem cargos públicos que ocupam e para mudança de domicílio eleitoral. Encaixam-se aqui casos como o da ministra do Planejamento Simone Tebet, que depois de quase três décadas deixa o MDB rumo ao PSB, mudando-se de mala e cuia para São Paulo, onde pretende disputar uma cadeira ao Senado.

No governo Lula, 20 dos 38 ministros vão deixar o cargo. A fila foi aberta pelo agora ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), candidato ao governo paulista, e deve se fechar com a saída de Geraldo Alckmin (PSB). Embora não precise se desincompatibilizar para ser candidato a vice de Lula, caso a chapa se repita, Alckmin é obrigado a deixar o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, mesmo que não tenha pretensões eleitorais fora do Palácio do Jaburu.

Além de agirem pela sobrevivência, muitos dos políticos que trocam de partido o fazem para garantir palanque ao candidato à Presidência. Em Minas, Lula quer Rodrigo Pacheco, hoje no PSD, que, opositor ao PT no Estado, não lhe abre as portas para disputar o governo. O senador deve engrossar as fileiras do PSB para concorrer ao Palácio da Liberdade.

Por discordar do apoio do PDT cearense a Lula, o ex-governador Ciro Gomes, que já passou pelo PPS, PSB e PROS, retornou ao PSDB mais de 20 anos depois de ter sido tucano de carteirinha. Candidato ao governo, Ciro deve fechar fileiras com o bolsonarismo, mesmo depois do veto explícito da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro.

Também estão confusos os arranjos em Santa Catarina, desde que Carlos Bolsonaro foi imposto como candidato ao Senado, escanteando o ex-aliado Esperidião Amin (PP), que também deve mudar de partido para concorrer à reeleição ao Senado. No Paraná, Flávio Bolsonaro vai de Sergio Moro, que deixa o União Brasil e se filia ao PL, na próxima terça-feira. Por lá, o Zero Um preferia ter convencido Ratinho Jr. a integrar a sua chapa, ideia rechaçada pelo governador, pré-candidato à Presidência da República pelo PSD, que deverá ser sacramentado até o dia 30.

Os arranjos regionais definindo a cor partidária dos candidatos se repetem em todo o país, comprovando que, para o mal da nossa democracia representativa, as siglas pouco ou quase nada valem. Uma realidade que alimenta o culto à personalidades acima das ideias, aumentando as chances de sucesso de salvadores da pátria. Que desestimula a participação popular fora dos períodos eleitorais e distancia ainda mais o cidadão da política.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 22/3/2026.

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