Na sexta-feira 13, o Itamaraty rejeitou todas as contrapropostas dos Estados Unidos às sugestões feitas pelo Brasil para ações colaborativas no combate às facções criminosas. No mesmo dia, o conselheiro de Donald Trump, Darren Beattie, que omitiu e mentiu sobre os motivos de sua visita ao Brasil, teve seu visto suspenso. Ainda que a série de nãos brasileiros arrisque a “química” entre Trump e Lula, ela pode provocar uma onda favorável ao petista em meio ao baixo-astral dos últimos tempos.
Trump serviu muito à Lula no ano passado. Ao entrar no jogo do ex-deputado e auto-refugiado Eduardo Bolsonaro, determinando punições descabidas em nome da “liberdade” do ex – tarifas estratosféricas, cassação de vistos e aplicação da Lei Magnitsky a autoridades do país -, Trump deu ao presidente brasileiro, de bandeja, o mote da defesa da soberania nacional. Lula surfou.
Em setembro, Trump já declarava amor a Lula, reiterado no encontro presencial de outubro, na Malásia. Por várias vezes repetiu que Lula era “um cara legal” e que sairia “muita coisa boa” da parceria de ambos. O tratamento vip foi descrito por analistas de toda parte do mundo como consequência de Lula não ter abaixado a cabeça, mesmo sob pressão. Trump não respeitaria os fracos. Lula surfou de novo.
Uma visita formal à Casa Branca foi anunciada para março – e até agora, nada. O Brasil mandou propostas para trabalho conjunto contra facções criminosas, entre elas o rastreamento de dinheiro ilícito de facções. Os Estados Unidos nada disseram. E Trump foi à guerra. Primeiro na Venezuela, agora no Irã. O repúdio do governo brasileiro às incursões não provocou qualquer reação no mandatário norte-americano.
Lula perdeu espaço na agenda trumpista e, internamente, pontos na preferência do público.
De repente, os Estados Unidos de Trump ofertaram a Lula não apenas um, mas vários presentes. Primeiro, uma contraproposta absurda de o Brasil receber em suas prisões imigrantes capturados, tal como ocorre em El Salvador. Indecorosa e ilegal, a ideia foi rechaçada de imediato pelos negociadores brasileiros. Destino idêntico tiveram as sugestões de compartilhamento de dados de estrangeiros refugiados no Brasil e de se criar, sob controle de Trump, um plano para acabar com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).
A cereja do bolo foi Darren Beattie, um dos conselheiros mais à direita de Trump. Sua vinda ao Brasil estava prevista para o dia 18. Ele pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, na Papudinha. Os advogados do ex chegaram a pedir autorização para o encontro, concedido e depois negado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Ao Itamaraty, Beattie omitiu suas intenções. Disse que estaria no seminário sobre minerais críticos patrocinado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, que acontecerá em São Paulo nesta semana. Mas a Amcham desconhecia a participação dele no evento. Teve seu visto suspenso pelo Itamaraty.
A proibição foi anunciada de forma veemente por Lula – “eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde, que está bloqueado”.
Na coxia do presidente, o pessoal espera (e torce para) que Trump reaja contra a cassação do visto e, assim, Lula possa reavivar o comportamento anti-Brasil e o lambe-botismo da turma de Bolsonaro a Trump. Afinal, será no mínimo desconfortável – e eleitoralmente terrível – defender o visto para um assessor americano enquanto autoridades brasileiras continuam impedidas de entrar nos Estados Unidos. Reciprocidade que pode valer ouro para Lula.
Na mesma toada, é indefensável a acolhida pelo Brasil de estrangeiros presos nos Estados Unidos, proposta que só evidencia a visão trumpista de que o país é quintal da “grande América”, onde ela deposita trastes que a incomodam. Mais uma que vai para conta do adversário Flávio Bolsonaro, que, assim como o resto do clã, vangloria Trump e conta com o seu apoio.
A posição pró-Trump pode custar caro ao Zero Um. De acordo com pesquisa Genial/Quaest, a rejeição do brasileiro a Trump só aumenta. Em 2023, a opinião favorável ao norte-americano batia em 56%. Hoje, está em 25%. Lula comemora.
Há chance de nada acontecer. De Trump deixar para lá e nada dizer ou fazer sobre as negativas brasileiras. Mas a trupe lulista se animou com a sexta-feira 13. Como tudo anda mesmo pelo avesso, Trump, o Agente Laranja que por onde passa tudo destrói, pode, mais uma vez, ser útil a Lula.
Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 15/3/2026.
