Não há dúvidas quanto ao caráter ditatorial do regime iraniano. Nas últimas décadas, milhares de manifestantes foram mortos pela repressão da teocracia instalada após a Revolução de 1979. Mulheres foram perseguidas por desafiar o código de vestimenta imposto pelo Estado. Algumas chegaram a ser condenadas à morte por apedrejamento, pena que em certos casos só não se consumou graças à pressão internacional. Outras morreram sob custódia policial após serem presas por não usarem corretamente o véu. Também é incontestável que o aiatolá Ali Khamenei consolidou um regime autoritário e intolerante.
Sob sua liderança, o Irã financiou organizações armadas em diferentes partes do Oriente Médio e mantém como posição oficial a negação do direito de Israel de existir como Estado. Nesse contexto, o programa nuclear iraniano tornou-se motivo permanente de preocupação internacional e foi alvo de sanções e pressões diplomáticas após sucessivos descumprimentos de compromissos assumidos em acordos anteriores.
Dito isso, impõe-se a pergunta: o ataque ordenado por Donald Trump contra instalações iranianas tornou o mundo mais seguro?
A resposta, ao menos por ora, parece negativa. Não se trata de ignorar a natureza do regime iraniano, mas de avaliar se a estratégia adotada é capaz de produzir estabilidade internacional ou apenas ampliar a instabilidade.
Ao recorrer a uma ação militar unilateral, Washington contribui para enfraquecer um dos pilares da ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial: o princípio de que conflitos entre Estados devem ser tratados prioritariamente por meio de mecanismos multilaterais e diplomáticos. Em seu lugar, ganha espaço uma lógica mais antiga e perigosa, resumida na frase atribuída a Tucídides: o forte faz o que pode, e o fraco sofre o que deve.
A eventual ampliação do conflito envolvendo o Irã tem consequências que ultrapassam o Oriente Médio. Trata-se de uma região estratégica para o comércio global de energia e para o equilíbrio geopolítico entre grandes potências. Qualquer escalada militar tende a produzir impactos econômicos e políticos de alcance mundial.
Além da dimensão militar, o conflito envolve um fator sistêmico pouco lembrado: pelo Estreito de Ormuz passa cerca de um quinto do petróleo exportado no mundo. Qualquer bloqueio prolongado da rota teria efeitos imediatos sobre preços de energia, inflação e estabilidade econômica global.
A aposta de Trump parece ter sido a de repetir uma fórmula conhecida: uma ação militar rápida e “cirúrgica”, capaz de enfraquecer o regime e desencadear um levante interno. Trata-se, porém, de uma hipótese altamente incerta. Um dos erros mais recorrentes na história das guerras é subestimar a resiliência do adversário.
Embora mantenha o poder por meio de repressão severa, o regime iraniano não é um castelo de cartas prestes a ruir. Ele se sustenta também em uma base social significativa e em estruturas de poder consolidadas, sobretudo na Guarda Revolucionária, que exerce enorme influência política, econômica e militar no país.
Além disso, o antiamericanismo desempenha papel relevante na construção da identidade política do regime. Suas raízes remontam à derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh em 1953, após a nacionalização do petróleo, operação na qual os serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido tiveram participação decisiva. A memória desse episódio foi amplamente explorada pela revolução liderada pelo aiatolá Khomeini, que passou a retratar os Estados Unidos como o “Grande Satã”.
Do ponto de vista militar, é evidente que os Estados Unidos possuem capacidade para devastar a infraestrutura iraniana. A pergunta decisiva, contudo, é outra: que tipo de país surgiria após essa devastação? A experiência recente do Iraque sugere cautela. A derrubada de Saddam Hussein abriu caminho para anos de instabilidade e acabou contribuindo para o surgimento do Estado Islâmico.
Numa guerra, tão importante quanto vencer é saber como sair dela. É justamente nesse ponto que surge o risco de um novo atoleiro para Washington, semelhante aos experimentados no Vietnã, no Iraque e no Afeganistão.
O próprio Trump foi eleito prometendo reduzir o envolvimento americano em conflitos externos. Romper essa promessa pode produzir custos políticos relevantes no plano doméstico. Pesquisa recente da Reuters/Ipsos indica que apenas 27% dos americanos apoiam o ataque ao Irã, um contraste expressivo com o apoio registrado no início das guerras do Afeganistão e do Iraque.
Se o conflito se prolongar, seus efeitos podem chegar rapidamente ao bolso dos eleitores: aumento do preço do petróleo, pressão inflacionária, encarecimento do transporte marítimo e impacto nos mercados de fertilizantes e alimentos.
A estratégia iraniana parece apostar justamente nesse cenário. Ao ampliar os custos econômicos do conflito e ameaçar rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz, Teerã busca estimular pressões internacionais por uma solução negociada.
Nas guerras, a primeira vítima costuma ser a verdade. Na invasão do Iraque, George W. Bush justificou a intervenção com base em armas de destruição em massa que jamais foram encontradas. Agora, Trump afirma que o Irã estava prestes a produzir uma bomba nuclear. A comprovação dessa alegação ainda está longe de ser consenso.
Diante desse quadro, a proposta de cessar-fogo imediato defendida por países europeus e a retomada das negociações diplomáticas parecem caminhos mais prudentes. Caso contrário, os Estados Unidos correm o risco de repetir um padrão recorrente na sua história recente: vencer batalhas militares e, ainda assim, sair politicamente derrotados de guerras que decidiram iniciar.
Este artigo foi originalmente publicado em 4/3/2026, no Blog do Noblat.
