Valores não se revelam nos discursos confortáveis, nem nos momentos de consenso. Eles aparecem quando incomodam, exigem renúncia, contenção, limite. Em política, só existem de fato quando deixam de ser convenientes e passam a ter um custo.
No Brasil, essa distinção tem sido cada vez mais desprezada. Valores são invocados com frequência crescente, mas aplicados de forma seletiva. Em nome de causas supostamente nobres, relativizam-se regras, flexibilizam-se princípios e normalizam-se exceções. O resultado é um ambiente público em que quase tudo parece justificável, desde que apresentado como moralmente superior.
Esse não é um problema apenas de retórica. É um problema institucional. Valores, em sociedades democráticas, não existem para enfeitar discursos, mas para impor limites ao exercício do poder. Quando deixam de cumprir essa função, transformam-se em slogans. E slogans não governam, não arbitram conflitos, não protegem minorias nem garantem direitos.
Ao longo da história, democracias foram testadas nas fases de tensão. É na adversidade que se vê se instituições resistem à tentação do atalho, da exceção permanente, do “caso especial”. Quando a pressão aumenta, valores deixam de ser abstrações.
No Brasil recente, esse teste tem sido recorrente. A política tornou-se um campo em que princípios são frequentemente subordinados à urgência do momento, à lógica da trincheira ou à conveniência do aliado. O discurso moral se expande, mas o compromisso com regras compartilhadas se estreita. Cada lado se julga portador exclusivo da virtude, enquanto acusa o outro de agir por interesses inconfessáveis.
Esse ambiente favorece uma dinâmica perigosa: a ideia de que fins justificam meios. Em nome da estabilidade, aceita-se o improviso institucional. Em nome da justiça, tolera-se o arbítrio. Em nome da democracia, normalizam-se práticas que corroem seus próprios fundamentos. O paradoxo é evidente: quanto mais se fala em valores, menos eles funcionam como freios efetivos.
Valores democráticos como legalidade, devido processo, separação de Poderes, responsabilidade pública são, por definição, desconfortáveis. Eles exigem autocontenção, inclusive quando se acredita estar do lado certo da história. Exigem aceitar decisões adversas, respeitar procedimentos lentos, conviver com ambiguidades. Não prometem eficiência máxima nem satisfação imediata.
Por isso mesmo, são frequentemente vistos como obstáculos. Em contextos de polarização intensa, cresce a impaciência com limites institucionais. A regra passa a ser tratada como entrave; a exceção, como solução. O problema é que exceções raramente se encerram sozinhas. Tendem a se acumular, a se justificar mutuamente, até que o excepcional vire rotina.
O risco maior não é o conflito aberto, esse é inerente à democracia. O risco é a erosão silenciosa dos critérios que organizam o conflito. Quando valores deixam de ser compartilhados e passam a ser instrumentalizados, perde-se o chão comum sobre o qual o dissenso pode ocorrer. O debate se torna moralizado, mas não necessariamente mais ético.
Há ainda um elemento adicional: valores só são plenamente testados quando não rendem aplauso. Defender princípios quando eles custam popularidade, apoio político ou ganhos imediatos é o verdadeiro termômetro de sua autenticidade. Fora disso, trata-se apenas de adesão oportunista a consensos momentâneos.
Nesse sentido, o Brasil vive um momento pedagógico, ainda que desconfortável. A pressão sobre instituições, a tensão entre Poderes e a tentação de atalhos colocam em evidência o quanto valores foram, por vezes, tratados como recursos estratégicos, não como compromissos duradouros. O problema não está em discordar, mas em relativizar critérios conforme a conveniência do momento.
Episódios recentes, marcados por decisões pouco transparentes, improvisos procedimentais e baixa permeabilidade a controles externos, mostram como a exceção tende a se naturalizar quando limites institucionais cedem à pressão.
A história política mostra que democracias não costumam ruir de uma vez. Elas se desgastam aos poucos, por meio de pequenas concessões feitas em nome de grandes causas. Cada exceção parece razoável isoladamente. O conjunto, porém, constrói um ambiente em que limites se tornam negociáveis e regras, circunstanciais.
No fim das contas, valores não servem para nos dizer quem está certo, mas para definir até onde se pode ir. Quando deixam de cumprir essa função, a política perde densidade ética e ganha apenas intensidade emocional. É sob pressão que se aprende o real significado das palavras que se proclama. E é nesse teste que se decide se valores são convicções… ou apenas conveniências.
Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 4/2/2026.
