Visitinha

A visitinha do Tarcínico à Papudinha para chorar as pitangas com seu criador adiciona mais uma pitadinha de humor à pré-campanha de 2026. 

Desta vez, de humor negro. Como as visitas são individuais, sem acompanhantes, não há testemunhas sobre o que conversaram. Antes, Tarcínico afirmara que não iria falar de política. Acredite quem quiser, a criatura queria falar somente de amenidades com seu criador. E como não há testemunhas, permito-me nestas mal traçadas inventar um pouco e, talvez, expor algumas verdades. 

Aposto como conversaram sobre a tempestade que desabou em Brasília domingo passado. O motivo não foi a chuva, propriamente. Mas o raio que despencou sobre as cabeças dos bolsonaristas na praça onde esperavam a chegada do Xupetinha, após a caminhada fake dos 200 e poucos quilômetros que separam uma cidadezinha do interior de Minas de Brasília.

Sim, uma caminhadinha fake, em que o tal Xupetinha ensaiou uns passos para sair bonito nas fotos e vídeos da grande imprensa nanica que deu farta cobertura ao teatrinho político mal enjambrado. Porque os 200 e poucos km foram percorridos a conta-gotas pelo guri, a bordo de uma confortável camioneta cedida pelo agronegócio para o evento. 

Mas o raio não foi fake. Chovia desbragadamente no domingo e as trovoadas roncavam soltas,  prenunciado as faíscas que logo iriam rasgar os céus de um São Pedro mal encarado naquele dia. E todo mundo ali, segurando uma bandeirinha, um guarda-chuva, um jornal do dia para cobrir a cabeça. 

O raio caiu na ponta de uma grua de algumas dezenas de metros de altura que alguém do agro levou para a praça com uma bandeira do Brasil espetada na ponta, lá em cima. A tempestade comprovou o que a turba deveria ter aprendido no colégio: a estranha atração que raios têm pelas pontas altas, que podem ser frágeis cabeças humanas ou gruas de aço carbono. 

Vi o Xupetinha explicando na tevê que não teve culpa, que foi um fenômeno natural que podia acontecer com qualquer pessoa. Sim, com qualquer idiota que se meta a besta de sair para o meio da rua em dia de tempestade. Esse, com certeza, não foi às aulas de Física no colégio, se é que foi ao colégio. 

Oitenta pessoas sofreram a descarga elétrica direto no lombo. Uma disse depois que se tivesse morrido não fazia mal não, pois teria partido desta para pior por uma justa causa. A amiga dela foi para a UTI do Hospital de Base de Brasília. Até ontem estava lá. 

Meu amigo Marciano achou essa declaração tão preocupante que levou o vídeo para mostrar em Marte e outros planetas do sistema solar. Tem aqui na Terra quem não se importa de morrer eletrocutado por  abanar bandeirinhas ao seu ídolo no meio de um temporal. 

O que aqueles dois falaram na Papudinha ontem? Aposto que foi sobre isso, sobre a coragem sobrenatural de duas mulheres e mais 18 mil compatriotas que foram para a avenida tomar chuva e raios na cabeça por seu líder enjaulado no anexo do Papudão. 

É sobre isso que trataram, mas não foi sobre coragem. Foi sobre fanatismo e total ausência de miolos entre as duas orelhas. A melhor combinação para juntar milhões de votos e ganhar uma eleição sem precisar de mais nada. Para que idéias, para que planos de governo, projetos de desenvolvimento econômico e social, se o que o público quer é ver seu ídolo balançando a pança, falando besteira e fazendo arminha? 

Passada a tempestade, minha bola  de cristal vê um governador do Estado mais rico da federação humilhado por um ex-milico como ele, que o faz prostrar-se de joelhos jurando juras de amor eterno a ele e ao seu insignificante primogênito, especialista em rachadinhas e chocolatarias de alto rendimento. 

Nelson Merlin é jornalista aposentado há anos e, nas horas vagas, adivinho de conversas de alcova. 

30/1/2026

N. do A.:  Questionado pelo Administrador asserca da grafia do nome do deputado bolçonarista, o autor açegurou que que a figura não meresse ter ceu apelido escrito corretamente, com CH: “Tudo nele é falso”. Pronto: está esplicado. (S.V.)

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