Manoel Fiel Filho, 50 anos

Não houve sequer menção rápida nos três maiores jornais do país, mas no sábado, 17 de janeiro, completaram-se 50 anos da morte do operário Manoel Fiel Filho nas dependências do DOI-Codi, o serviço de inteligência do Exército, no bairro do Paraíso, em São Paulo.

Pouco menos de três meses antes, no dia 25 de outubro de 2025, o jornalista Vladimir Herzog havia morrido no mesmo lugar. Nos dois casos, o Exército divulgou nota informando que o preso havia se suicidado. Nos dois casos, era absolutamente evidente que o jornalista e o operário – presos sob a acusação de pertencerem ao Partido Comunista Brasileiro – haviam sido assassinados durante sessões de tortura.

Sempre achei que a morte de Manoel Fiel Filho marcou definitivamente o início do fim da ditadura militar instaurada em 1964: apenas dois dias depois, em 19 de janeiro de 1976, o general Ednardo D’´Avila Melo foi demitido do Comando Militar do Sudeste, antes conhecido como II Exército, com sede em São Paulo, a poucos metros das dependências do DOI-Codi.

Contou-se, mais tarde – o jornalista Elio Gaspari, o maior estudioso daquele período da ditadura, divulgou a informação –, que, ao saber da morte por tortura de mais um preso nas dependências do Exército em São Paulo, o presidente Ernesto Geisel conversou com seu irmão, o ministro do Exército Orlando Geisel. E ouviu do mais velho o conselho: – “Demita-o. Demita-o com desonra”.

A demissão com desonra de Ednardo, um dos expoentes da linha dura, ao lado do general Silvio Frota, foi um divisor de águas. Foi o aviso do governo Geisel de que não seriam mais tolerados abusos que atrapalhassem os rumos da tal de “distensão lenta, gradual e segura”.

E veio – repito – apenas dois dias após a morte do operário Manoel Fiel Filho.

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Nada, absolutamente nada disso é novidade, pouco sabido, pouco divulgado. Todas essas informações são História. São facilmente encontráveis em rápidas buscas na internet. Mas, diacho, não consegui me impedir de escrever estas mal traçadas ao conferir que nem Globo, nem Folha, nem Estado deram uma única linha em suas edições do sábado, 17/1, sobre os 50 anos do assassinato que derrubou – com desonra – o então comandante do II Exército.

Menos de três meses atrás, fui à cerimônia emocionante, belíssima, na catedral da Sé, que marcou os 50 anos da morte de Vladimir Herzog. Exatamente como 50 anos antes, reuniram-se no altar da Sé os próceres de três religiões, a católica, a judaica e a protestante.

Em 31 de outubro de 1975, o ato na Sé foi conduzido pelo cardeal-arcebispo dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo reverendo Jaime Wright. A catedral estava lotada, e centenas e centenas de pessoas que não conseguiram entrar amontoavam-se nas escadarias e na calçada da praça. Havia muita emoção, e também medo – todos sabíamos que havia agentes da ditadura fotografando as pessoas que participavam daquele ato que, além de religioso, era de protesto contra o regime. E poderia perfeitamente haver repressão policial.

Em 25 de outubro de 2025, o ato ecumênico (e político) para marcar os 50 anos da morte de Vlado reuniu o cardeal arcebispo Dom Odilo Scherer, o rabino Rav Uri Lam e a reverenda Anita Wright, da Igreja Presbiteriana – por uma fantástica coincidência, filha do reverendo Jaime Wright. Entre várias personalidades, estiveram presentes o vice-presidente da República e ex-governador de São Paulo por quatro mandatos Geraldo Alckmin, e a presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha.

Em discurso inesperado, corajoso, e eu diria histórico, que causou incômodo a alguns de seus pares no STM, a jurista afirmou: “Estou presente neste ato ecumênico de 2025 para, na qualidade de presidente da Justiça Militar da União, pedir perdão a todos que tombaram e sofreram lutando pela liberdade no Brasil”.

Vladimir Herzog merecia aquela belíssima homenagem. Sem dúvida alguma.

Mas é muito triste que Manoel Fiel Filho quase não tenha tido lembrança alguma.

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Quase não tenha tido – porque houve, sim, uma homenagem a ele, uma beleza de texto do jornalista Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense, neste domingo, 18/1:

É obrigatório registrar ao menos parte do texto.

Aqui vai:

Há exatamente 50 anos, num sábado, às 22 horas, um Dodge Dart parou em frente à casa do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, no Bairro da Moca. Ato contínuo, diante de sua mulher, Thereza de Lourdes Martins Fiel, um desconhecido disse secamente: “O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas”. Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com o macacão do operário morto. “Vocês o mataram! Vocês o mataram!”, gritou desesperada a esposa do operário metalúrgico morto em 17 de janeiro de 1976.

Alagoano de Quebrangulo, Fiel vivia na capital paulista desde os anos 1950. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de ônibus antes de se tornar operário metalúrgico, era prensista na Metal Arte, no bairro da Mooca. Fora preso por dois agentes do DOI-Codi, o serviço de inteligência do II Exército, na própria fábrica onde trabalhava, sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). No dia seguinte à sua prisão, os órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manoel havia se enforcado em sua cela com as próprias meias. Porém, de acordo com testemunhas, quando estava preso, usava chinelos sem meias.

Quando Thereza e outros familiares conseguiram a liberação do corpo para ser enterrado, verificou-se que apresentava sinais evidentes de torturas, principalmente na região da testa, nos pulsos e no pescoço. No entanto, o exame necroscópico solicitado pelo delegado de polícia Orlando D. Jerônimo e assinado pelos legistas José Antônio de Mello e José Henrique da Fonseca simplesmente confirmava a versão oficial do suicídio. As circunstâncias de sua morte são muito semelhantes às de Alexandre Vannucchi Leme (17/03/1973) e Vladimir Herzog (25/10/1975). A morte de Fiel provocou o afastamento do general Ednardo d’Ávila Melo do comando do II Exército, três dias após.

Em ação judicial movida pela família, a União foi responsabilizada pela tortura e pelo assassinato. De acordo com um documento confidencial encontrado nos arquivos do antigo Dops de São Paulo, seu crime seria receber o jornal Voz Operária. Durante seu trabalho investigativo para produção do livro A Casa da Vovó – Uma biografia do DOI-Codi (Alameda), o jornalista Marcelo Godoy, em 19 de abril de 2016, entrevistou um dos integrantes da equipe que sequestrou Fiel, o tenente Chico (nome fictício) da Polícia Militar de São Paulo, que descreveu as circunstâncias do assassinato:

“Ele (Demétrio, o delegado que matou Fiel Filho) trabalhava ali com o Calandra (Aparecido Laerte Calandra, delegado), quem me falou foi o Pedro Mira (Pedro Mira Grancieri, policial civil), um filho da puta. Entrou no interrogatório (Seção de Interrogatório), deu um soco na barriga do Fiel e matou o Fiel. Não tinha nada a ver com nada, chegou lá e: ‘esse é o cara?’. E pohhh. E o Fiel começou a passar mal e morreu. Era um negócio que não tinha de acontecer (….) E daí ficam cobrando o Fiel… ‘Mataram o Fiel!’ Mataram mesmo… Um bosta daquele lá.”

Em nova entrevista (25 de abril de 2016), também gravada por Godoy, o tenente Chico deu mais detalhes: “Era um sábado e quem estava lá (no interrogatório) era o Mira, o Noburo (tenente da PM) e tinha mais um”. Durante quase três anos Demétrio atuou no DOI. A morte de Manoel Fiel Filho não foi apenas mais um crime político cometido nos porões da ditadura. Foi um acontecimento-limite: a brutalidade ostensiva, de conhecimento público, produziu rachaduras dentro do próprio regime.

O assassinato de Fiel não provocou a mesma comoção política do caso Herzog, porém, consolidou a imagem da mentira institucionalizada, da tortura como rotina e do assassinato como método do regime militar. Com o afastamento do comandante do II Exército, produzira um abalo no coração do regime. O governo Geisel vivia, naquele período, a contradição estrutural do autoritarismo “controlado”: uma parte do poder falava em distensão “lenta, gradual e segura”, enquanto a máquina da repressão – sobretudo os setores mais duros – insistia em operar como se a “guerra interna” fosse permanente e justificasse qualquer atrocidade.

18/1/2026

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