Arranhões

O Galego caiu da cama enquanto dormia e bateu a cabeça não se sabe onde. Há suposições de que foi num móvel da cela de luxo que ocupa na sede da PF em Brasília. Só notaram de manhã, quando ele ia receber a primeira visita do dia. O guarda abriu a porta para ver como estava o ambiente e notou que o preso tinha um cortezinho no rosto. O preso disse que não era nada. Mas o guarda, atencioso, chamou o médico. Laudo desse médico, que é da PF, diz que o preso teve um arranhão numa das bochechas e internação não carece. Nada mais. 

Nada mais uma ova. A defesa e a família inteira querem nova internação, mais exames, tomografia, ultrassom, pressão arterial, hemograma completo, o escambau. E se possível novas cirurgias, a atestar a gravidade do caso. Pediram também prisão domiciliar. Não disseram o que operar, exatamente. 

Sendo assim, a coisa deve ter sido grave, o médico da PF é que não quer ver. 

No entanto, posso dar um testemunho pessoal. Já caí da cama! Não foi uma nem duas, mas algumas vezes. É normal depois dos 60. A gente fica meio tantã dormindo. E sabe de quem é a culpa? Da comida pesada à noite. O sujeito come que nem um porco, cai duro na cama e rola. Claro que vai cair. Afinal, ao contrário do que alguns pensam, a terra não é plana. E mesmo que fosse, vá lá, teria uns desníveis, e o mais perigoso deles é esse que tem entre a cama e o chão. 

Recomendo que durma no chão logo duma vez. Fiz isso muitas vezes, após os 60. Uma delícia! Foi um bom conselho do meu neurologista. A gente precisa ser amigo do chão desde pequenininho. Assim não se machuca quando cai. 

Uma vez caí do meu triciclo. Minha casa ficava na parte plana da rua, que subia para a rua de cima, no bairro do Bonfim, na mui leal e valerosa Porto Alegre dos pampas. Feliz com meu veículo, subi a calçada cheio de gás. Quando estava lá pelo meio da subida, os pedais escaparam dos meus pés. Meu pai me disse que foi porque eu cansei de pedalar. O veículo andou pra trás, desgovernou e rolei a ribanceira. Cheguei em casa arrastando o triciclo e com um furo no joelho. Meu pai fez um curativo que eu lembro até hoje. Limpou com um chumaço de algodão, água oxigenada e mercúrio cromo. Não pôs esparadrapo. Disse que era para a ferida cicatrizar naturalmente. Refez o curativo por alguns dias, só com mercúrio cromo. 

E cicatrizou. Tenho uma leve marca até hoje, 75 anos depois. Eu tinha 4 quando ocorreu o acidente. Cicatrizes nos joelhos são sinais de vitórias absolutas, sobrevivemos e fomos em frente. 

Arranhar a bochecha não é nada, a não ser para os narcisistas que não largam o espelho por nada deste mundo ou para quem quer fazer escândalo, como parece ser o caso. 

A mulher do Galego montou barraco na hora, os filhos presentes começaram a gritar contra tudo e todos, principalmente o Xandão, que não estava na cena do crime mas sobrou pra ele mesmo assim. 

Esse pessoal tem uma bronca da polícia…, que no entanto tanto amavam! Agora porque foram apeados do poder, com o Galego condenado conforme as leis do país, odeiam tanto a Polícia quanto o Judiciário. Aliás, o Judiciário já odiavam faz tempo, por não largar do pé deles. 

Enfim, entre tantos dissabores sugiro uma alimentação mais leve do paciente à noite. Esse negócio de levarem comida de casa para o coitado é uma faca de dois legumes. Parem com isso! Faz bem para o ego, mas pode fazer mal para a barriga do ego. Não é balanceada, não tem o equilíbrio necessário entre os nutrientes, como na cadeia tem. Pensa que preso sobrevive como na cadeia? Comendo bem, sim senhora. Marmitinha balanceada na medida certa para uma sobrevivência tranquila, tudo cientificamente bem servido e comprovado. 

Assim é a cana. Inda mais pra quem pegou 27 anos e uns quebrados! Não pode fraquejar…

Nelson Merlin é jornalista aposentado e piloto de provas de triciclo desde tenra idade. 

7/1/2026

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