Um trem corta a noite

Érico tinha nas mãos uma pasta; na outra, um terno pendurado em um cabide. Entrou na Estação da Luz e olhou para a plataforma de embarque. Era cedo. O Santa Cruz não havia encostado. Só às onze e vinte da noite, pontualmente, o noturno partiria para o Rio de Janeiro, por trilhos que cortariam cidades adormecidas.

Na plataforma havia um único passageiro, uma moça. Quando ergueu os olhos, deu com os dela.

– Somos os primeiros – arriscou.

Ela sorriu.

– Tomei cuidado, dizem que o trem não atrasa um minuto.

Érico notou que a moça olhava para o terno que ele levava em um cabide. Tratou de explicar.

– Sou advogado. Amanhã desembarco com ele. Não dá para viajar de terno e gravata, não é?

Dóris Day achou graça. – Dóris Day? – espantou-se Eduardo, ao perguntar-lhe o nome.

– Minha mãe era apaixonada por ela…

– Pois é, meu pai amava os livros – contrapôs o advogado. – Meu nome é Érico… como o do Veríssimo. Muito prazer… Vamos tomar um café?

Entre um gole e outro, ela contou que era professora em uma escola de crianças. Isto enterneceu Érico.

– Você é uma doce pessoa, fica muito bem nesse trabalho.

Ora, o advogado já estava caído de amores? Na saída do café, ela desequilibra-se em um degrau e o livro que levava escapa-lhe das mãos. Abaixa-se para pegá-lo, Érico tem o mesmo impulso. Seus rostos quase se tocam.

Às onze e vinte o Santa Cruz põe-se em movimento. Logo, o advogado e sua convidada encontram-se para o jantar. O carro restaurante tem mesas postas com capricho, um abajur coando luz suave sobre a toalha branca, impecável. A professorinha encantou-se.

O garçom, pressuroso, vem com o cardápio. Escolhem o prato. Para beber? Vinho suave, refrescado, pois a convidada não tinha o hábito. Quando chegou, brindaram àquele momento inesquecível.

Desfrutavam de uma situação única. O restaurante cortava a escuridão da noite. Às vezes as janelas se iluminavam: a luz dos postes de uma rua deserta atingia o trem. Um raro carro poderia ser visto, parado à frente de uma porteira fechada. Passada a cena, voltavam a atenção para o interior e para aqueles momentos que pareciam um sonho… ou um filme de Dóris Day.

Os anos passam… Em uma festa, aniversário de casamento, um tio de Érico discorre: “Ele foi ousado. A moça deixa cair o livro, os dois se abaixam para pegá-lo, seus rostos quase se encontram… E ele a pede em casamento!” Dóris sorri. Também tem o que dizer. “Vou revelar um segredo que guardei por esses anos todos. O livro não escapou da minha mão. Eu o deixei cair de propósito.”

Este conto foi originalmente publicado no blog Vivendo e Escrevendo, em 6/2/2026. 

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