Com um jeito assim de mulher que está com dó do marido, Mary me preveniu: – “A cerimônia é bem longa. Tem muita coisa chata.” Pensei em dizer pra ela a frase que minha mãe usava muito – “Por causa dos santos, beijam-se as pedras”, mas nem cheguei a falar, porque não era preciso. A gente tem um velho, excelente trato: um só convida o outro para um compromisso chato quando a companhia do conge (como diz aquele marreco paranaense) é mesmo necessária. Quando de fato vale a pena.
E, diacho, não era um compromisso qualquer. Era a cerimônia de entrega do Jabuti, o mais tradicional prêmio do mundo dos livros do Brasil, em sua 68ª edição, no ano em que a Câmara Brasileira do Livro (CBL) completa 8 décadas. Pelo segundo ano consecutivo, Mary havia sido umas das três juradas da categoria Biografia e Reportagem. No ano passado a cerimônia da 67ª edição havia sido no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e então Mary não tinha tido a coragem de propor que eu comparecesse à cerimônia levando a pesada bola de ferro que trago amarrada ao meu tornozelo e faz de mim um turista muito, mas muito acidental.
Desta vez, porém, era ali na Sala São Paulo, a menos de 15 minutos de casa – aquele lugar belíssimo, esplendoroso, que está no nível das melhores salas de concerto do mundo.
Não tinha a menor possibilidade de dizer não – e então me enfatiotei pela primeira vez em muito, muito tempo. (Ah, me lembrei agora da última vez em que havia colocado paletó, calça e camisa social. Foi alguns anos atrás, quando meu irmão Geraldo recebeu – merecidissimamente, diga-se – uma comenda concedida pelo Tribunal Regional do Trabalho do Paraná.)
Pois bem. Foi bastante longa a cerimônia de 24 entregas das estatuetas de jabuti da 68ª edição do prêmio dado pela CBL, como Mary havia avisado. Teve muitos discursos – alguns bem longos. Me lembrei do Oscar, é claro – mas há algumas diferenças: no Oscar, os discursos são mais curtos, e a gente pode andar pela casa, pegar cerveja, e mais uma, e mais uma…)
Mas teve a apresentação da SP Chamber Orchestra, regida pela jovem, energética e simpática Giovanna Elias, que brindou o público que lotou a Sala São Paulo com, entre outras peças, a ária das Bachianas Brasileiras nº 5 de Villa-Lobos, “Odeon” de Ernesto Nazareth, “Céu de Santo Amaro”, a adaptação que Flávio Venturini fez da peça de Johann Sebastian Bach, e “Tico Tico no Fubá”, de Zequinha de Abreu.
Teve o prazer de ver minha mulher feliz ao encontrar queridos amigos – Rose Neubauer, Hubert Alquéres, Andrea Matarazzo… Tucanos de altíssima plumagem, dos tempos em que os tucanos eram aguerridos, inteligentes, progressistas sociais-democratas – os tempos de Mario Covas, o cara que transformou parte da velha Estação Júlio Prestes nessa maravilha que é o conjunto que abriga a Sala São Paulo e a sede da Fundação Osesp.
O Hubert, é obrigatório registrar, é o curador do Prêmio Jabuti. E me dá a honra de ter seus artigos semanais para o Blog do Noblat republicados aqui no meu site.
Teve o prazer de ver vários dos vencedores das diversas categorias subirem ao palco para receber o Jabuti fazendo o L e/ou dizendo “Viva a democracia!” – e o teatro lotado aplaudir.
E teve, para mim, o grande prazer de, ao lado da Mary, encontrar com Mírian, Vivina e Humberto.
Eu estava na festa como mero acompanhante de uma jurada – um John Doe, um zé ninguém. Mírian e Vivina eram juradas como a Mary, e Humberto, um finalista, na categoria Crônicas. (Na foto, Hubert, Mary, o John Doe aqui e Mírian.)
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São fantásticos os caminhos da vida, e são maravilhosas as coincidências que surgem ao longo deles. Coincidências, essa coisa que minha irmã Nilze sempre dizia que, segundo Nietsche, não existe, e, segundo outro ponto de vista, é o jeito de Deus se manter anônimo.
As histórias são muitas, e cheias de detalhes. Vou ter que fazer um esforço para ser sintético, algo que de fato não é a minha praia.
Ali por 1986, 1987, Mirian Ibañez não estava ainda encaixada na imprensa paulista. Ouviu dizer que a revista Afinal estava pegando frilas, e foi à redação, na Rua Maria Antônia, a histórica. Eu era editor de Cultura, e, como não tinha ninguém para entrevistar Isabel Allende, de passagem por São Paulo, encomendei a tarefa a ela. Voltou com uma boa matéria. Fez várias outras. Jamais se esqueceu de que fui eu que dei a ela a oportunidade.
Voltamos a nos encontrar décadas depois que a revista Afinal fechou por falência total e absoluta da editora criada pelo cubano exilado em Miami que resolveu tentar a vida no Brasil. A gente não se vê com grande frequência, mas sempre gosta muito quando pinta uma ocasião.
(Ah, é bom lembrar que, por coincidência ou não, Valdir Sanches, o criador do blog Vivendo e Escrevendo, foi repórter especial da revista Afinal, desde o número 0 até quando não dava mais para ficar meses sem receber salário, e, pressionado por Dona Haydée, resolveu aceitar o convite do Jornal do Brasil.)
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Humberto Werneck é um dos melhores textos do Brasil, e acho que no fundo tenho inveja dele por isso. Por coincidência, ou não, começamos no Jornal da Tarde na mesma época, eu em julho de 1970, ele poucos meses antes ou poucos meses depois. Ambos imigrantes vindos de Minas, começando a vida na cidade que não tem fim, achamos que era um belo arranjo dividirmos o aluguel do apartamento que o amigo em comum Gilberto Mansur havia comprado, numa excelente localização, a Rua Marquês de Paranaguá, entre Consolação e Augusta, a poucas quadras do prédio do Estadão na Major Quedinho.
Tem muita história aí, mas, dando um fast forward, eu estava para me casar com a Suely, no final de 1973, quando Humberto e Marisa estavam de mudança para uma temporada na França. Era a perfeita oportunidade para eu herdar o aluguel do simpático apartamento deles na Bela Cintra esquina com Rua Costa – e então os recém-casados Suely e Sérgio moraram ali, tendo herdado também os móveis deixados pelo casal. Sairíamos de lá em 1975, depois que Suely ficou grávida daquela maravilha que viria a ser a Fernanda e passamos a precisar de um apartamento de dois quartos.
As coincidências da vida não param nunca, e Humberto e eu nos reencontramos uma ou duas vezes no Colégio Equipe, em que estudavam o neto dele e a nossa netinha Marina.
Ah, sim, Humberto levou a estatueta do Jabuti para casa, por seu livro Viagem no País da Crônica. Ele e Mary subiram juntos ao palco da Sala São Paulo, para a foto de todos os jurados e indicados juntos com o pessoal da CBL. (Na foto, Humberto, Vivina, eu e Mary.)
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Vivina…
Diacho, é difícil falar de Vivina em uma tentativa de ser sintético.
Vivina de Assis Viana foi minha professora de Francês quando eu tinha 12 anos – e ela, apenas 22.
Alguns garotos e garotas do Colégio de Aplicação da Fafich da UFMG se tornaram amigos da professora que era tão pouco mais velha. Fui um deles.
Muito do que nós aprendemos na vida foi nas looongas conversas na república em que ela vivia na Rua Fernandes Tourinho, a poucas quadras da Fafich e do Aplicação.
Estávamos todos nós no casamento dela com o Gilberto Mansur. Quando ela e o Gilberto se mudaram de Belo Horizonte para São Paulo em meados de 1968, eu, que tinha chegado à metrópole no início do ano, e ia até BH tipo uma vez por mês para ver a namorada de então, fiz a viagem com o casal no velho Fusca do Mário Lúcio Marinho, cheio de LPs e livros… Marinho era, como o Gilberto, mais um mineiro importado para o Jornal da Tarde…
Virei frequentador mais que assíduo do apartamento da Vivina e Gilberto na Peixoto Gomide, bem perto do pensionato em que morei por mais de um ano, na Fernando de Albuquerque.
Em 1970, Gilberto falou de mim para o Fernando Portela, que chefiava a editoria de Reportagem Geral do Jornal da Tarde. Deve ter dito que o garoto sabia Português, coisa e tal – e o Portela me aceitou como estagiário na reportagem. De funcionário do escritório de loja de ferramentas na Florêncio de Abreu virei jornalista…
Em 1973, Vivina e Gilberto foram os padrinhos do meu casamento com a Suely. Em 1975 quisemos que o obstetra que ajudasse Fernanda vir ao mundo fosse o mesmo que tinha ajudado Vivina a ter a primogênita, Mariana.
Vivina ficou amiga da Suely. A ponto de demonstrar desgosto quando decidi, de repente, sair de casa para perseguir uma paixão inesperada.
É uma das minhas amigas mais absolutamente queridas.
Vivina e o Bernardo, o filho do meio dos três dela, nos trouxeram para casa depois que terminou a interminável cerimônia do Jabuti.
O Bernardo nem precisava do Waze: conhece bem a rua em que a gente mora. Moram nela amigos queridíssimos dele. Pura coincidência.
28 e 29/10/2028




