Tetê Espindola tem celebrado seus quase 50 anos de carreira com o show “Da Raiz ao Contemporâneo”.
Fiz a conta: faz 44 anos que eu levei minha filha, então uma garotinha linda de morrer de 7 aninhos de idade, ao Theatro Municipal de São Paulo para ver o show de Tetê absolutamente acústico, sem microfone algum. Fernanda e eu tivemos a sorte, a honra de sentar ali pela quarta fila da platéia do Municipal.
Mary e eu fomos ver Tetê no seu show de comemoração dos quase 50 anos de carreira na Bona Casa de Música, ali no Sumaré. Não há lugar marcado, quem chega cedo escolhe a mesa que quiser – e pegamos uma quase encostada no palco, bem no gargarejo. Vimos e ouvimos Tetê cantando a uns quatro metros de nós, se tanto, em uma casa intimista onde não cabem mais de talvez umas 50, 60 pessoas – 44 anos depois de eu carregar Fernanda para ver e ouvir Tetê num teatro com capacidade para 1.500.
A apresentação de 1982, “Tetê Acústica”, é descrita hoje para quem procura no Google como “um marco histórico por ter sido o primeiro show essencialmente acústico feito por um artista nacional no Brasil, cantado sem nenhuma amplificação para um público de duas mil pessoas em duas sessões. O espetáculo lhe rendeu o Prêmio Revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)”.
Tetê era então uma gata linda de 28 aninhos – de 1954, ela é 4 anos mais jovem que eu. Nunca tinha feito essa conta, e ela me surpreende um tanto; praticamente todos os meus ídolos da música são um pouco mais velhos do que eu, nascidos nos anos 40, de Chico a Dylan, de Nara a Joan Baez, passando, é claro por todos os outros gigantes, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Milton, Paul McCartney, Paul Simon, e dá-lhe etc. nisso.
Ela era de fato jovem demais, assim como seus colegas daquilo que era chamada, ali no final dos anos 70, início dos 80, de A Vanguarda Paulista, a geração do Lira Paulistana, Luiz e Paulo Tatit, Ná Ozzetti, Geraldo Leite e todos do Rumo, do Premê, do Língua de Trapo, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé – que a chamou, em uma faixa da qual não me lembro o nome, de Teresinha… (O que é perfeitamente correto. Na certidão expedida em algum cartório de Campo Grande ela é Teresinha Maria Miranda Espíndola.)
A Tetê que surgiu à nossa frente, ali bem pertinho da gente, no palco da Bona Casa de Música, era uma senhorinha um pouquinho rechonchuda, longos cabelos brancos, uma microvestido vermelho vivo bem ousadamente micro, botinhas, e o rosto bonito simpático, risonho, sapeca, espevitado, de pessoa de bem consigo, com a vida, com os outros. E com a música que iria tocar.
No palco, só ela – ela e sua famosa, reverenciada craviola. Ela, sua craviola e sua voz.
A voz da Tetê de 72 anos permanece fantástica como a da Tetê de 28. Agudérrima, firme, forte, ampla, vibrante. Os pássaros estão lá na sua garganta, como quando ela saiu de seu cantinho paulistano e encantou o Brasil no Festival dos Festivais da Rede Globo, no Maracanãzinho, em 1985, com a canção que ela não cita pelo nome, diz apenas que é “aquela”.
Gosta de falar com seu público. Fala sobre a canção que vai apresentar, sobre o autor, contextualiza. E, sobretudo, pede ao público que a acompanhe.
Ao apresentar canções que falam do Pantanal, uma de suas grandes paixões, ensina ao público como fazer o som dos sapos, dos grilos. Divide as tarefas de homens e mulheres, rege o coral, faz o sinal para o início, faz o sinal para que todos se quietem. Sorri ainda mais abertamente ao perceber que o povo entrou na dela, fez o que ela pediu – e não poupa elogios à sua platéia.
Na setlist havia diversas canções desconhecidas para mim, algumas de Arnaldo Black, seu parceiro, marido, pai de seus filhos Dani e Patrícia, presente ao show, sentado – pelo que deu para perceber pelos gestos dela – ao fundo do pequeno e gostoso espaço da Bona Casa de Música. A segunda canção que apresentou era dele – e era a primeira vez que ela a cantava em show. Mary e eu não registramos o título.
Diversas canções desconhecidas – o que mostra que não acompanhei bem a carreira de Tetê nos últimos anos –, mas entremeadas por clássicos de seu repertório.
Não teve “Índia” desta vez, embora ela tenha cantado a velha guarânia em outra apresentação deste mesmo show “Da Raiz ao Contemporâneo”, segundo li depois. Nem “Vida Cigana”, nem “Rio do Luar”, de que gosto especialmente. Mas teve a maravilhosa “Trem do Pantanal”, de Paulo Simões e Geraldo Roca, e uma apresentação maravilhosa – “Esta vocês conhecem”, anunciou ela – de “Tocando em Frente”, de Almir Sater, seu conterrâneo de Campo Grande, como ela lembrou, e Renato Teixeira, autor da letra que ela elogiou vivamente depois dos aplausos.
E teve ainda, deixando o Pantanal e cruzando a fronteira com o Paraguai, a mais antiga que andar pra frente “Recuerdos de Ypacaraí”, numa interpretação que seus autores, Zulema de Mirkin e Demetrio Ortiz, seguramente aplaudiram de pé, lá de suas nuvens.
Após pouco mais de uma hora de show que obviamente encantou aquele pequena mas fidelíssima platéia, pôs-se de pé, sapeca sempre, disse um “É isso aí”, desapareceu por alguns minutos, para voltar logo depois para o devido bis.
Chegou a perguntar algo como “O que vocês querem?” – ao que um senhor idoso, careca, de barba grisalha, em uma das mesas do gargarejo, gritou “Cunhataiporã!” – mas não fui, perdão, não foi atendido. Ela cantou mais uma desconhecida pelo tal senhor idoso, e depois brincou com uma frase tipo: – “Ah, será que vocês querem aquela?”
E os teteístas, em coro: “Aquela!”
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Em seu livro Prepare Seu Coração – A História dos Grandes Festivais (Geração Editorial, 2003), Solano Ribeiro, o cara que criou os grandes festivais da canção dos anos 60, conta que um figurão da TV Globo criticou o Festival dos Festivais, depois da primeira das apresentações das finalistas escolhidas entre as mais de 10 mil canções inscritas, realizada no Recife: – “Foi um fracasso. Eu não vi nenhum nome consagrado, nenhum Chico, Gil ou Caetano”.
Ao que Solano respondeu: – “Esse e um evento para revelar gente nova, como sempre aconteceu em todos os festivais que realizei”.
Bem. Em 1985, Tetê não era exatamente “gente nova”. O álbum Tetê e o Lìrio Selvagem é de 1978. Piraretã, na foto, saiu em 1980, e em 1982, o ano em que ela fez os dois shows no Municipal de São Paulo, foi lançado Pássaros na Garganta. Mas tudo bem: a moça era da Vanguarda Paulista, conhecida no circuito entre o Teatro Lira Paulistana, em Pinheiros, e o Sesc Pompéia, bairros próximos um do outro, tudo na Zona Oeste de São Paulo – e, é claro, bem famosa em Campo Grande. Foi ao soltar seus pássaros na garganta no Ginásio do Ibirapuera, na semifinal paulista, e depois na finalíssima, no Maracanãzinho e ao vivo e em cores para todo o Brasil pela Rede Globo, que Tetê virou figura nacional. Como diz Solano Ribeiro., fechando o capítulo de seu livro dedicado ao Festival dos Festivais: “A grande vitoriosa, Tetê Espindola, com tesão, cumpriu a sua missão de mostrar o que estava Escrito nas Estrelas”.
O uso da palavra “tesão” pelo homem que criou os festivais de música que marcaram minha geração e transformaram em figuras de projeção nacional Chico, Caetano, Gil, Geraldo Vandré, Sidney Miller e tantos outros mais não é à toa. “Escrito nas Estrelas” foi a primeira canção da MPB que ousou usar o termo, que era, até aqueles meados dos anos 1980, se não propriamente um palavrão, ao menos uma expressão tida como chula, vulgar, deseducada…
(Ah, faço questão de registrar: nas duas apresentações, a do Ibirapuera e a do Maracanãzinho, estavam lá Fernanda, então já uma criança crescidinha, de 10 anos de idade, e seu pai. Sempre achei que, junto conosco, estavam também Regina e Inês, mas as indicações são de que não, de que éramos só a Fê e eu.)
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Eu nem sabia disso, mas “Escrito nas Estrelas”, “aquela” música de Arnaldo Back e letra do poeta Carlos Rennó, tem sido regravada. Está na Wikipedia: “Em 2023, 38 anos após seu lançamento original, ‘Escrito nas Estrelas’ recebeu atenção renovada após a atleta Márcia Fu cantá-la durante a 15.ª edição do reality show A Fazenda. Tal momento viralizou na Internet, tornando-se um meme e levando a canção ao primeiro lugar da parada Viral 50 no Spotify.
“Foi regravada por outras artistas, como Ivete Sangalo e Lauana Prado. A versão de Lauana, intitulada “Me Leva Pra Casa/Escrito nas Estrelas/Saudade”, também foi impulsionada no streaming após o meme, conquistando o topo da parada Top Brasil e a 24.ª posição da Top 50 Viral (mundo), ambas do Spotify. Além disso, foi alçada ao primeiro lugar da Billboard Brasil Hot 100 e ficou entre os vídeos mais assistidos no YouTube durante esse período.”
Tetê cantou suas canções pantaneiras, seus clássicos e “aquela” em Inhotim, em julho de 2025, em um festival que também teve Mônica Salmaso, o Ilê Aiyê, e mais as desconhecidas para mim Cécile McLorin Salvant, Josyara (BA), Brisa Flow, Djuena Tikuna e Luiza Brina,
Voltou a apresentar basicamente o mesmo repertório, o mesmo show, no Blue Note do Conjunto Nacional da Avenida Paulista em novembro, e, agora em julho de 2026, na B|ona Casa de Música.
Se algum eventual – e heróico – leitor tiver chegado até aqui, eu aconselharia a ficar de olho para ver onde essa maravilhosa artista vai apresentar de novo sua viagem “Da Raiz ao Contemporâneo”.
17 e 18/7/2026




