Mutatis mutandis, o podre dos nórdicos europeus mudou de hemisfério séculos depois, fixando-se do outro lado do Atlântico, onde o diabo perdeu as botas. Muito antes de ingleses, franceses e espanhóis, os dinamarqueses visitaram aquelas plagas, não gostaram do que viram e caíram fora, não sem antes deixarem por lá suas maldições ancestrais.
E dessas maldições vive hoje a América de Mr. Trump. A primeira delas é que quem não dá conta de seu próprio país — sob inflação galopante, salários minguantes, escassez de alimentos e aluguéis pela hora da morte, para ficarmos só com essas mazelas —, não pode se meter a besta em dar conta de um continente inteiro e tripartite, glamourosamente chamado Novo Mundo.
Missão só possível nos filmes de Tom Cruze, não para um imperador decaído e em estado mental deplorável. Sequestrar o presidente de outro país (não importa se legítimo ou ilegítimo) para roubar seu petróleo e terras raras parece mais uma ideia de malucos para animar nova aventura da série Pirates of Caribbean.
Mas Trump é um personagem tão surreal que não se encaixa no elenco. Alguém o vê como o capitão Sparrow de Johnny Depp? Ou como o Will Turner de Orlando Bloom?
De qualquer modo, Piratas do Caribe deixaram de ser ficção depois da invasão de Mr. Trump, na qual desfilou pelo Caribe com o maior porta-aviões do mundo, o maior porta-helicópteros, dezenas de navios de apoio, dois super bombardeiros nucleares B-51 e B-52, secundados por caças de última geração, a tropa de elite Delta, centenas de mísseis tomahawk e mais alguma coisa, tudo para sequestrar de madrugada, com o auxílio de quintas colunas, um casal de idosos que dormia na residência presidencial.
Quantos milhões de dólares custou a brincadeira? Com certeza mais do que o próximo episódio de Piratas do Caribe, o sexto da franquia. Com o agravante de que a bilheteria do filme será muito maior do que a receita dos poços venezuelanos por pelo menos os próximos dez anos, tempo que seria necessário para modernizar as carcomidas e antiquadas refinarias deixadas para trás pelas petroleiras de Tio Sam, quando Hugo Chávez decidiu, soberanamente, dar outro rumo para o óleo que era do país dele, friso, não o óleo americano.
E daqui a dez anos, como será o mundo? Que importância terá o petróleo, seja onde houver e de quem for, para mover a máquina econômica do planeta baseada em hidrogênio verde, além de energia solar, eólica, geotérmica, do biogás e das marés, sem carbono e emissões, que já se avizinha?
Em tempo, as impossible missions de Mr .Trump nas duas Américas ao sul do Rio Grande vão continuar até que ele garanta para os EUA a tomada de todas as reservas existentes de petróleo e minerais raros. Não se trata de ação humanitária, como chega a dizer, mas, ao contrário, de lesa humanidade.
A instalação de governos títeres em toda a região é uma necessidade lógica do enredo geopolítico que a ultradireita estadunidense está tricotando sem que apareça ninguém no meio do caminho para impedir o grande plano.
Mr. Trump quer ficar para sempre no trono, como Chávez, Maduro, Putin, Luccachenko, Orban, Netanyahu e tantos outros. Só falta combinar com São Pedro. Será que consegue?
Nelson Merlin é jornalista aposentado que perdeu irremediavelmente o queixo com o descabido assalto da megafrota norte-americana à empobrecida Venezuela, há anos sob sanções econômicas e navais dos EUA.
6/1/2026
