Já faz quase uma semana desde a entrega do Oscar, e o buchicho em torno do filme O Agente Secreto, que concorreu ao prêmio em quatro categorias, continua borbulhando nas redes sociais.
Não levou nenhuma estatueta, mas continua levando bordoadas da direita alucinada, que torceu muito contra o filme e, principalmente, contra o ator “comunista” Wagner Moura. Mas tá levando também muitos elogios dos adoradores de filmes chamados, digamos, cult.
Eu assisti ao filme e, confesso, esperava mais. Talvez porque tenha assistido em dia de mar nervoso, e o barulho das ondas não me permitia ouvir tudo, mesmo com o som ligado no máximo. Aliás, pra mim, este sempre foi um dos grandes problemas dos filmes nacionais (e dos portugueses também). Não sei se o som é ruim mesmo, se me acostumei a ler legendas ou se tô ficando que nem a véia surda da praça. Só não estou totalmente convencida da última hipótese porque pulava de susto no sofá quando o frevo entrava de sola no carnaval de rua pernambucano, que passava ao largo.
O filme retrata momentos de perseguição, tortura, mortes, desaparecimentos e a censura prévia nos meios de comunicação, ocorridos durante a ditadura militar.
Conta a história de um professor universitário que deixa São Paulo e retorna a Recife, para encontrar seu filho pequeno que vive com os avós. Marcelo (ou Armando), que não é agente secreto nem nada, vai trabalhar no instituto de identificação da polícia.
Essa é apenas mais uma página infeliz da nossa história vivida por muitos durante o longo período da ditadura militar, ditadura essa que prendia e arrebentava quem não rezasse sua cartilha ou que não andasse olhando pro chão.
Na minha modesta opinião, o filme não atinge a classe menos esclarecida que ainda acha que o Brasil não teve ditadura, porque nunca viu nenhum parente ou vizinho seu ser preso. Tá mais pra aqueles filmes que a gente assistia na sessão da meia-noite, que servia para reunir um grupo de “intelectuais” pra um papo-cabeça no bar ao lado do cinema.
Algumas coisas não ficaram muito claras na trama escrita e dirigida por Kleber Mendonça Filho. Faltou explicar o significado da “perna cabeluda”, por exemplo. Até mesmo alguns que já vivenciaram essa época não sabiam que era uma lenda urbana (corria no Recife que essa perna saía à noite chutando bundas e aterrorizando a população), e acabou virando um recurso jornalístico local que escrevia “perna cabeluda” no espaço cortado da matéria pela censura prévia, que fazia plantão nas redações. No Estadão, eram trechos de poesias; já o Jornal da Tarde usava partes de receitas de doces ou salgadas, que geravam um certo descontentamento nos leitores menos avisados e adeptos da culinária.
Mesmo assim, torci para que o Brasil levasse pelo menos uma estatueta. Não levou, e isso recebeu aplausos e rojões da parte da direita mais fanatizada. Os mesmos aplausos e rojões que emitiram quando Trump resolveu f*der nosso país com um tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros vendidos aos EUA.
Não gostar de um filme porque não faz seu gênero ou porque é chato, é uma coisa. Aplaudir sua derrota por achar que é coisa de comunista é outra. E essa coisa tem um nome: ignorância.
Copiou, Ratinho? O apresentador que costuma fazer propaganda política para seus mitos em seu programa mandou um recado pro Wagner Moura esta semana: “Cala a boca! Vc não tem de falar de política!”
Ele tem de falar do quê, senhor Little Mouse? Diz aí pra gente!
Esta crônica foi originalmente publicada em O Boletim, em 20/3/2026.
