A crise institucional que tem o Supremo Tribunal Federal no centro do furacão deu mais um salto de patamar com a revelação da investigação sobre o vazamento de dados fiscais de ministros e familiares. A decisão de conduzir o caso no âmbito do inquérito das Fake News, já existente, provocou críticas no Congresso e também dentro do próprio tribunal, onde houve quem visse no ato conflito de interesses e defendesse a abertura de procedimento autônomo, com distribuição regular.
Esse ambiente de tensão já havia ganho novos contornos quando vieram à tona os diálogos entre ministros na reunião em que foi acertado o afastamento de Dias Toffoli da relatoria do caso Master. Ali instalou-se uma crise de confiança no interior do próprio tribunal, agravada pelo conflito com a Polícia Federal, que passou a ser vista, por parte da Corte, como agente hostil.
Estamos diante de um fato inédito. Pela primeira vez na história republicana, o Supremo ocupa o epicentro de uma crise política de larga proporção; posição que, em outros momentos de turbulência, coube ao Executivo ou ao Legislativo.
Ainda que se deva guardar cautela na análise do teor das gravações que, na opinião de alguns ministros, não expressam o conteúdo global da reunião, algumas evidências saltam aos olhos. Pelos diálogos divulgados no portal Poder360, o corporativismo aparece como elemento estruturante da mentalidade dominante entre os membros do tribunal. Oito entre dez participantes da reunião optaram por proteger o colega antes de considerar os danos institucionais envolvidos.
Com as honrosas exceções dos ministros Edson Fachin e Cármen Lúcia, a maioria preferiu defender Toffoli a qualquer custo, inclusive ao preço de comprometer, de forma quase irreversível, a credibilidade da instituição. A imagem que fica é a de um corpo que reage como casta, como um clube fechado, imune a controles externos e convicto de que suas palavras gozam de fé pública, mesmo quando se distanciam da realidade dos fatos.
O ministro Flávio Dino sintetizou esse espírito ao definir o grupo como “o STF Futebol Clube”. A metáfora não é apenas de mau gosto. Ela revela um ambiente em que a lógica de patota se sobrepõe à lógica institucional. Nesse campo, a transparência não entra em jogo, e a vaidade de seus protagonistas frequentemente se impõe ao coletivo. O resultado é um tribunal fragmentado em decisões monocráticas, onde a soma das individualidades raramente produz coesão institucional.
É nesse quadro de esgarçamento da imagem da Corte que o ministro André Mendonça assume a relatoria do caso Master. Os olhos do país se voltam para sua atuação. Seu primeiro desafio é restabelecer um estilo sóbrio e não conflitivo, pondo fim à guerra aberta com outras instituições. Ao relator o que é relato; à polícia o que é investigação.
Se o homem é ele e suas circunstâncias, como definiu Ortega y Gasset, as circunstâncias parecem indicar que Fachin é o homem certo na hora certa. Não há dúvida sobre seu compromisso com a autocorreção institucional por meio da adoção de um Código de Ética. Mas ele e Cármen Lúcia são duas ilhas em um arquipélago pouco disposto a reformas. Seus pares o vêem como um Dom Quixote de idéias exóticas e operam para inviabilizar mudanças. Talvez Fachin tenha a ingenuidade de um Giordano Bruno ao “pedir a quem tem o poder para reformar o poder”.
Ainda assim, é admirável sua obstinação. Deve-se à sua “santa teimosia”, e também à de Cármen Lúcia, o fato de, ainda que por caminhos tortuosos, Toffoli ter sido afastado da relatoria. Se tivesse cedido à pressão para “matar no peito” e confirmar o colega no posto, como queria a maioria, o problema teria se espraiado por todo o corpo institucional.
A escolha de um novo relator é um alento, mas seria ingenuidade imaginar que a crise se encerra aí. As veias do tribunal continuam abertas, sangrando em praça pública. A necessidade de um freio de arrumação por meio de um Código de Ética tornou-se inadiável. Se a autocorreção não vier de dentro, virá de fora. O próprio presidente da Corte fez esse alerta ao abrir o ano judiciário.
Momentaneamente, o corporativismo pode estar acuado, tal o isolamento social da instituição. A divulgação das gravações adicionou um novo elemento corrosivo: o vírus da desconfiança interna. Entre ministros, já circula a suspeita de que um deles tenha sido o responsável pelo registro. As suspeitas recaem sobre Toffoli, já que vieram a público apenas trechos que o favorecem e expõem outros integrantes da reunião. É possível que ele já não desfrute do mesmo apoio de antes.
Contudo, seria um erro imaginar que o corporativismo perdeu força ou capacidade de reação. Tampouco um Código de Ética, ainda que necessário, será solução suficiente. Os problemas são mais profundos: excesso de vaidades, decisões monocráticas em profusão, fronteiras porosas entre o público e o privado, entre o direito e a política, e a erosão prática do princípio da separação dos poderes.
Nos últimos meses, consolidou-se também uma relação simbiótica entre o presidente da República e parte dos ministros identificados como o núcleo político da Corte, o que constitui, por si só, uma anomalia institucional. No próprio caso Master, essa proximidade ficou evidente quando Lula se reuniu com Toffoli e o pressionou a deixar a relatoria sob o argumento de que o escândalo afetava a imagem de seu governo. Trata-se, porém, de matéria do Poder Judiciário. Ou, eventualmente, do Legislativo, caso se entenda necessária a abertura de investigação parlamentar.
As veias abertas do Supremo não são apenas uma metáfora retórica. São hoje um diagnóstico institucional. O sangue que escorre não é apenas o da credibilidade ferida, mas o da autoridade moral de uma Corte que deveria ser o último refúgio da confiança republicana. O país assiste, perplexo, a um tribunal que julga a nação enquanto luta para não ser julgado por ela.
Se o Supremo não estancar a própria hemorragia com transparência, disciplina e autolimitação, corre o risco de descobrir tarde demais que nenhuma instituição sobrevive quando perde a confiança pública. Na história das democracias, as feridas que não são tratadas acabam sempre por se transformar em cicatrizes irreversíveis.
Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 18/2/2026.
