Poucos anos após o término da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a jornalista, autora e tradutora alemã Jella Lepman (1891-1970) mobilizou um grupo de pessoas ligadas à literatura infantil em torno de uma idéia: os livros poderiam aproximar povos separados pelo conflito e contribuir para a construção da paz. Dessa iniciativa nasceu, em 1953, o International Board on Books for Young People (IBBY).
A idéia de Lepman era simples e poderosa: crianças que conhecem as histórias umas das outras crescem mais preparadas para compreender culturas diferentes da sua. Mais de sete décadas depois, essa missão permanece atual, embora tenha adquirido novas dimensões.
Sociedades democráticas não dependem apenas da liberdade de falar, mas também da disposição para ouvir. A literatura, especialmente aquela oferecida às novas gerações, constitui um dos primeiros espaços em que se aprende a conviver com experiências, valores e visões de mundo diferentes.
O tema escolhido para o 40º Congresso do IBBY, realizado em Ottawa, “escutar as vozes uns dos outros”, oferece uma chave interessante para compreender essa transformação. Mais do que um lema institucional, ele sintetiza uma mudança de paradigma. O debate internacional parece deslocar-se da tradicional pergunta: que livros devemos oferecer às crianças, para outra, mais abrangente: quais vozes conseguem chegar até elas?
A programação do congresso tornou essa evolução particularmente evidente. Povos indígenas, crianças refugiadas, jovens leitores e bibliodiversidade apareceram de forma recorrente nos debates. Temas distintos, mas unidos por uma preocupação comum: assegurar que toda criança possa encontrar nos livros tanto um espaço de reconhecimento quanto uma oportunidade de conhecer realidades diferentes da sua.
Essa perspectiva amplia a compreensão do papel da produção voltada à infância. Além da alfabetização, da formação e do incentivo à leitura, ganha espaço outra dimensão: a construção da alteridade. A boa literatura oferece espelhos, nos quais o leitor se reconhece, e janelas, pelas quais descobre o mundo.
A produção destinada aos adolescentes, assim como a tradução, a ilustração e a bibliodiversidade, faz parte desse mesmo movimento. Ampliar o repertório significa permitir que diferentes experiências, idiomas, culturas e formas de representar a infância e a juventude cheguem aos leitores. O Brasil, com uma sólida tradição de literatura infantil e juvenil, construída por nomes como Ana Maria Machado, Lygia Bojunga e Ruth Rocha, tem muito a contribuir para esse debate, e também razões para refletir sobre ele.
O contraste com alguns episódios recentes no país é inevitável. Obras vêm sendo questionadas ou retiradas de escolas e bibliotecas não por sua qualidade literária, mas pelo desconforto provocado por determinados temas, personagens ou visões de mundo. É legítimo discutir adequação etária, critérios pedagógicos e mediação da leitura. Outra coisa é pretender proteger crianças eliminando de seu horizonte aquilo que contraria as convicções dos adultos.
Nesse ponto, Ottawa oferece uma inversão reveladora. Enquanto no Brasil, em alguns casos, se discute quais vozes devem deixar de ser ouvidas, o debate internacional procura identificar quais vozes ainda não estão sendo escutadas. São movimentos em direções opostas. Um reduz o repertório; o outro procura ampliá-lo.
A diferença não é apenas literária ou pedagógica. É também política. Uma sociedade democrática não se constrói oferecendo às novas gerações apenas ideias com as quais seus pais, professores ou governantes concordam. Forma-se para a democracia quando se desenvolve a capacidade de entrar em contato com perspectivas diferentes, examiná-las criticamente e conviver com a divergência. O oposto do cancelamento não é a concordância. É a convivência.
Isso não significa transformar qualquer livro em obra adequada para qualquer idade nem retirar das famílias e dos educadores a responsabilidade sobre a formação das crianças. Significa reconhecer a diferença entre mediação e interdição. A primeira contextualiza, acompanha, educa e promove o diálogo; a segunda simplesmente elimina a possibilidade de encontro com aquilo que incomoda.
A literatura infantil assume, assim, uma responsabilidade que ultrapassa a formação de leitores. Ela participa da formação de cidadãos capazes de viver em sociedades culturalmente complexas, nas quais diferenças não são acidentes a serem corrigidos, mas parte constitutiva da vida em comum.
“Escutar as vozes uns dos outros” recupera, mais de 70 anos depois, a intuição de Jella Lepman. Livros não eliminam conflitos nem fazem desaparecer divergências. Podem, entretanto, ensinar algo indispensável às sociedades democráticas: o outro não precisa pensar como nós para ter o direito de contar sua história. Antes de aprender a conviver com a diferença, é preciso reconhecer sua existência. E estar disposto a ouvi-la.
Hubert Alquéres é vice-presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Karine Pansa é diretora da CBL. Ambos participaram do 40º Congresso do International Board on Books for Young People (IBBY), realizado em Ottawa, Canadá, entre os dias 6 e 9 de agosto de 2026.
22/8/2026
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