Hoje amanheci mais feliz. Meu amigo Marciano me trouxe cedinho a notícia da descoberta de uma nova Terra, novinha em folha, aqui mesmo na Via Láctea, a somente 150 anos-luz de distância.
Para quem não sabe, 150 anos-luz não é nada em matéria de distâncias intragaláticas. É como se puséssemos o olho na casa da vizinha que acabou de se mudar para a janela em frente. Solteira, bonita, novinha e cheia de vida.
Claro que não é mais para o meu bico, beirando aqui os 80 anos terrestres. Meu consolo é que não é para o bico de ninguém. Pois para chegar até a janela dessa flor sideral, o mais abusado terráqueo levaria 150 anos chispando no espaço à velocidade da luz. Chegaria lá um caco!
Não é pra qualquer um e, sendo sincero, não é para ninguém. Podem tirar o cavalinho da chuva. Essa Terrinha nova, batizada HD 137010 b pelos astrofísicos que a descobriram, é para futuríssimas gerações. Se é que vamos chegar lá. Fiz umas contas com meu amigo Marciano e vai levar uns 100 milhões de anos terrestres para termos a tecnologia de fechar os olhos por um instante e, ao abrirmos novamente, estarmos dentro da casa da vizinha!
De qualquer forma, achei uma boa saber da novidade e pensar em como será o mundo daqui a milhões de anos.
Não vamos ter mais a famiglia do Bozo para aturar, mesmo que presa em penitenciária de máxima segurança; não vamos ter mais um governador carioca para desgovernar São Paulo, a caminho da falência fiscal; não vamos ter mais Xupetinhas para amamentar com dinheiro público; não vamos ter mais evangélicos para encher o saco com o lema “Deus é fiel” no pára-brisas do caminhão — uma coisa que, levada ao pé da letra, é o absurdo dos absurdos. E se não for levada ao pé da letra, é a coisa mais ridícula de todas as idiotices que a mente humana é capaz de criar.
Ora bolas, me parece que nós é que teríamos de ser fiéis a Deus, nosso criador incognoscível, e não o contrário! É a pretensão mais imbecil que já vi nesta vida.
Aprendi no meu colégio de infância, o jesuítico Anchieta de Porto Alegre, que Deus ama esconder-se. A revelação de Deus às suas criaturas é como uma formiga querer subir até o cume das orelhas de um elefante africano. No meio do caminho, sua tromba põe a formiga a correr para baixo.
“Aí é seu lugar, sua pestinha”. E a vida segue. Mas a danada não desiste e lá está ela escalando o elefante outra vez. Como pode uma formiga pretender que o elefante seja fiel a ela, naquelas proporções, se toda vez despenca lá de cima?
Mas voltando ao planetinha, ele é visto no momento com 50% de chances de ter água em estado líquido, condição essencial para a vida acontecer, e é só 6% maior que a nossa Terra. A notícia diz ainda que a distância para sua estrela é mais ou menos a mesma entre nossa Terra e o planeta Marte.
Meu amigo Marciano ficou animado!
“Isto a coloca na zona habitável do sistema solar em que nasceu. De repente, pode até ter vida humana lá — espero que num estado mais avançado e civilizado que o de vocês”.
Agradeci os elogios e segui em frente com minhas especulações. Se pode ter vida lá, como vamos saber?
Por ondas de rádio, pensei. Mas o Marciano logo me corrige. Impossível — diz ele. O som não se propaga no espaço sideral!
Quer dizer que o Spika da minha avó, que guardo com tanto cuidado e tantas lembranças, não serve para fazer esse contato?
“Não — diz ele, implacável. Guarde o radinho da sua avó antes que um aventureiro lance mão. Vale uma nota entre colecionadores do alheio. Mas para isso aqui não vale nada.”
Então, o que se há de fazer? — pergunto.
“Esperar, meu amigo. Coisa que vocês não sabem fazer. Querem logo respostas para tudo e dinheiro no bolso. Elegem dementes pedófilos como o Trump no Hemisfério Norte e parasitas como os bolçonaro no Hemisfério Sul. E ainda querem saber o que se passa em outros mundos? Onde vocês estão com a cabeça? E como se fosse pouco, vossas crianças e até vossos policiais ainda matam a tiro e paulada animais indefesos nas ruas. Vocês têm é que pastar. E esperar.”
Depois desse discurso, recolhi minha viola, aqui estou sem mais palavras e dando toda razão ao meu amigo.
Nelson Merlin é jornalista aposentado e ciente de que há bilhões de planetas como a Terra neste imenso universo sem porteira…
31/1/2026
