Entre dois corruptos, quem você prefere? O que rouba mas faz ou o que rouba e nada faz?
Calma, pessoal! Não estou falando dos atuais candidatos. Falo dos corruptos do passado. Um deles, que foi o primeiro a incorporar o dito “rouba mas faz”, nem a ditadura militar de 64 engoliu. Ademar Pereira de Barros foi o maior político animador do golpe de 64 e, no entanto, foi um dos primeiros cassados por, digamos, excesso de corrupção. Não sou eu quem diz. O “diploma” de cassação diz lá: cassado por corrupção. Ninguém protestou. Mas o Ademar estava só contratando 400 funcionários públicos para cobrir vagas de aposentados. Não era corrupção. Se fosse só um funcionário, passava. Mas 400 era bom demais para a Redentora armar um barraco e tirá-lo do caminho.
Na verdade, Ademar era um concorrente civil ao regime dos generais. Ele havia liderado marchas “memoráveis” pedindo a ditadura. Foi idéia dele juntar senhoras sem noção a rezar o terço no meio da rua, junto com um padre televisivo trazido dos EUA, contra a iminente ascensão não de Nossa Senhora mas do comunismo internacional no Brasil.
Mesmo assim, a ditadura passou-lhe a espada de um ato institucional no pescoço. Num ato seguinte, a ditadura também passou nos queixos outro grande líder do golpe de 64, outro ex-governador, este do então Estado da Guanabara, Carlos Frederico Werneck de Lacerda, um ex-comunista arrependido que tentara derrubar o presidente Getúlio Vargas dando um tiro no pé — não no do Getúlio mas no dele mesmo, simulando um atentado na Rua Toneleros, em Copacabana, em que morreu um guarda-costas seu, major da Aeronáutica. Até hoje não se sabe quem deu o tiro que matou o major Vaz. Samuel Weiner me contou que desconfiava do próprio Lacerda, ou por ter errado a mira ou de propósito, para criar uma crise de dimensões estratosféricas.
Para Samuel, a farsa se consubstanciava publicamente no gesso que cobria a perna de Lacerda do joelho até o malfadado pé. “Quem bota uma bota de gesso num pé ferido a bala?”, perguntava o Velho Samuca, rindo mas ainda indignado, 23 anos depois do suposto atentado. Nessa época, 1977, ele trabalhava na Folha de S. Paulo, como eu. E mostrava a foto do Corvo sendo carregado por soldados com a perna engessada até o pé e uma cara de pau inigualável, de fazer inveja a outros santos de pau oco.
A ditadura não perdeu tempo com conjecturas e, por via das dúvidas, matou politicamente o ex-governador em 1968. Não porque tivesse alguma admiração por Getúlio, ao contrário, mas porque não queria que Lacerda, um paranóico delirante, vencesse eventual eleição presidencial contra Juscelino Kubitschek, que a ditadura acusava sem provas de ser tão corrupto quanto o Ademar, também sem provas. Mas entre o médico pé de valsa mineiro e o médico populista paulista, quanta diferença!
O mineiro, que não roubava, tinha uma popularidade fantástica, tudo fazia e acontecia, e entre um sorriso e outro fez Brasília do nada e a indústria automobilística nacional também. Ademar nem virou nome de rua em São Paulo — apesar de ter feito na capital e no interior um trem de obras considerável em sua longa vida pública.
Ademar e Juscelino faziam a alegria dos eleitores. Lacerda também, seja jogando mendigos no rio da Guarda, seja fazendo túneis e aterros na Guanabara ou botando fogo em favelas.
Não consta que Lacerda roubasse. Só era histérico e louco. Um dia, Ipanema acordou com todas as amendoeiras cortadas pela raiz. Lacerda, já em plena ditadura, justificou que dava muito trabalho recolher todos os dias as folhas secas caídas no calçadão à beira da praia. Daí, cortou tudo.
As favelas do Pinto e da Catacumba tiveram o mesmo fim. Lacerda cansou delas e pôs fogo em tudo. Antes, felizmente, removeu os moradores para a Cidade de Deus. Projeto de seu arqui-inimigo Dom Hélder Câmara, a Cidade de Deus foi ocupada por Lacerda sem estar pronta, ainda sem escolas para as crianças, sem posto de saúde, sem linha de ônibus, sem nada.
Entre suas realizações, fez o aterro do Flamengo, o túnel Santa Bárbara, iniciou o túnel Rebouças, removeu as favelas do Pasmado e do Esqueleto, também para a Cidade de Deus, fora as já mencionadas.
A classe média do Rio, que odiava e odeia pobres, dava-lhe apoio incondicional. A ditadura não perdoou. Cortou-lhe a cabeça no Ato 5, em dezembro de 68, por tentar emplacar, desde 1966, a Frente Ampla contra a Ditadura, com Juscelino e Jango, de quem era arqui-inimigo nos idos de 60/64.
O rouba-mas-faz também fez a fama de Paulo Maluf, esse ainda vivo. Roubou tanto que, coisa raríssima, acabou na cadeia. Mas dificilmente perdia uma eleição, devido ao generoso voto dos paulistas aos amigos do alheio.
Mas chega do passado. Hoje temos que escolher entre, de um lado, um notório corrupto campeão de rachadinhas, dono de chocolataria para lavar o dinheiro do peculato e achacador de banqueiro ladrão preso pelo maior escândalo financeiro da história brasileira. Do outro, um presidente que tenta a reeleição após ter sido reabilitado jurídica e politicamente pelo STF ante a notória parcialidade do juiz federal que presidiu seu processo por ter aceitado da construtora OAS cozinhas novas num apartamento que não era dele e num sítio que não era seu.
Entre as realizações deste último, a retirada do Brasil do Mapa da Fome no mundo; a abertura em tempo recorde de 60 novos mercados para as exportações brasileiras — que crescem mesmo com o tarifaço do Salão Oval do Laranjão da Casa Branca —; o aumento real do salário mínimo e a isenção de IR para beneficiar 100 milhões de pobres e remediados, o agro e a indústria, que precisam de mais mercados consumidores como água de beber.
Entre as do outro, fora os malfeitos, nada consta.
Nelson Merlin é jornalista aposentado e ainda crente em algum resquício de racionalidade na classe mérdia brasileira — a que decide as eleições.
8/9/2026
