Malhação de Judas!

Nem chegou o carnaval ainda e já estou eu aqui pensando no domingo de Páscoa e no dia que o antecede.

De repente me vi num Sábado de Aleluia, que a gente esperava com ansiedade, só pra poder espancar um esfarrapado boneco de pano pendurado no poste.

Como manda a tradição católica, Sábado de Aleluia é dia de castigar Judas Iscariotes, o traidor de Cristo.

O boneco que o representa é preparado pelos moradores do bairro com antecedência e muito entusiasmo. Cada um colabora com um retalho de tecido, com a linha com que será costurado, com os sapatos velhos e com outros adereços.

Boneco pronto, hora de pendurar no poste e esperar o relógio da igreja-matriz bater meio-dia (a essa hora minha mãe mandava a gente lavar os olhos; até hoje não sei por quê). Aí era sair pra farra: homens, mulheres, crianças, todo mundo dava um jeito de fustigar o maledeto. Levava muita porrada de cabo de vassoura e pedradas, até que o infeliz ficasse reduzido a uns trapos pendurados. Nessa hora, pra ter certeza de que o mal havia sido totalmente expurgado, atiçavam fogo no que restava do traidor.

Cada bairro confeccionava seu próprio boneco e ai de quem viesse de outras plagas tentar “matar” o boneco da comunidade. Podia não. “Esse Judas é nosso, ninguém tasca”. Era assim que a coisa rolava.

Mas por que tô falando sobre isso agora, se nem o Dia de Reis chegou ainda?

Talvez porque veja Nicolás Maduro como o traidor de Cristo. Só que esse foi traidor da sua Pátria e do seu povo. Povo que sofreu a miséria imposta pelo seu regime ditatorial, comendo o pão que o diabo amassou (quando havia pão), que não teve a chance de mudar de governo porque ele fraudou o resultado das urnas, que não aguentou permanecer no seu país por não ter o que comer, obrigando-o a se espalhar pelo mundo, com a roupa do corpo e os filhos a tiracolo.

Por essas e mais outras, Maduro não merecia ser pendurado num poste pela população, por todos os males que já causou a tanta gente? Na minha opinião, merecia.

Mas daí chegar um morador de outro lugar querendo malhar esse Judas, sem pedir licença aos donos do boneco, considero, como diria, uma apropriação indébita, no mínimo.

E faz a gente a pensar que talvez nossos Judas também podem vir a ser queimados por forasteiros um dia.

Pode não! Dos nossos cuidamos nós, right?

Como diria meu pai, cada um co seu, cumadre ca dela.

4/1/2025

 

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