Às vésperas do carnaval, João Santana, ex-marqueteiro de Lula e de várias campanhas do PT, divulgou um vídeo que passou quase despercebido. Nele, fazia um alerta. Era preciso olhar para fora da avenida e avaliar os efeitos políticos que viriam após o desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo enredo celebrava a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua advertência era clara: a narrativa da escola poderia agradar à bolha petista, mas produzir efeitos negativos duradouros no universo evangélico e nas regiões onde o agronegócio possui peso econômico e cultural.
O alerta não foi levado em consideração. Passado o carnaval, veio a ressaca. Para consumo externo, membros do governo minimizaram as consequências do episódio. Nos corredores palacianos, porém, a avaliação era distinta. Pesquisas em redes sociais e tracking indicaram que o desfile foi um desastre para o governo Lula, especialmente na relação com o eleitorado evangélico. E com risco de produzir dano duradouro.
Longe de ampliar pontes, o episódio aprofundou o distanciamento entre o governo e parcelas relevantes da sociedade, especialmente entre os evangélicos. Ao retratar de forma crítica a chamada “família conservadora”, tocou em dois pilares centrais da visão de mundo da maioria dos brasileiros: religião e família. Ao estigmatizar esses valores, o desfile ultrapassou o campo do carnaval e atingiu um universo cultural amplo, enraizado na experiência social do país.
O episódio revela algo mais profundo do que um erro de comunicação política. Ele expõe a dificuldade recorrente de parte da esquerda em reconhecer que divergências morais e religiosas não constituem atraso social, mas expressão legítima de uma sociedade plural.
Esse episódio tornou visível uma dificuldade estrutural que há anos marca a relação entre o Partido dos Trabalhadores e o eleitorado evangélico. O problema não é apenas eleitoral, mas cultural e político: a incapacidade de estabelecer um diálogo que reconheça o papel social efetivo das igrejas evangélicas, especialmente nas periferias urbanas e em áreas de vulnerabilidade onde o Estado é ausente ou insuficiente. Com frequência, o eleitor evangélico não é percebido como adversário político legítimo, mas como alguém suscetível à manipulação ou incapaz de formular escolhas próprias, uma forma sutil de desqualificação que pouco contribui para o diálogo democrático.
Nesses territórios, as igrejas não são apenas espaços de culto. São redes de acolhimento, solidariedade, orientação moral e organização comunitária. Em muitos casos, funcionam como estruturas substitutivas do poder público, oferecendo apoio social, emocional e material. Ignorar essa dimensão equivale a ignorar um dos principais mecanismos de coesão social das periferias brasileiras.
Os efeitos políticos dessa desconexão são mensuráveis. Levantamento da Mar Asset, divulgado em janeiro de 2025, mostrou a profundidade da mudança estrutural no comportamento eleitoral dos evangélicos. Em 2010 e 2014, o PT venceu com apoio de cerca de metade desse segmento. A partir de 2016, contudo, ocorreu inflexão significativa: o apoio evangélico ao PT caiu para aproximadamente 30% e permaneceu nesse patamar nas eleições seguintes, mesmo quando a legenda voltou a vencer nacionalmente, como em 2022.
Esse deslocamento possui também dimensão geográfica estratégica. A expansão do protestantismo evangélico seguiu padrão territorial claro: consolidou-se no Sudeste, avançou para o Sul, expandiu-se pelo Centro-Oeste e Norte e passou a crescer no Nordeste, principal base eleitoral histórica do PT. Se a tendência demográfica se mantiver, o impacto político será inevitável.
O crescimento evangélico, nessa perspectiva, não representa apenas mudança religiosa, mas reconfiguração progressiva do mapa eleitoral brasileiro. O fenômeno ajuda a explicar dificuldades recentes do PT em estados como Ceará, Bahia e Rio Grande do Norte.
Diante desse cenário, a superação do fosso entre esquerda e evangélicos torna-se necessidade pragmática. Evidências empíricas confirmam a profundidade dessa transformação social, presentes na pesquisa conduzida pela Fundação Perseu Abramo em 2016, no livro Povo de Deus de Juliano Spyer, e também nos estudos reunidos em Brasil no Espelho de Felipe Nunes. Eles revelam um retrato consistente do brasileiro contemporâneo: valoriza religião e família, deseja prosperidade material, demanda serviços públicos eficientes e expressa posições morais frequentemente classificadas como conservadoras.
A interpretação do afastamento eleitoral como ingratidão tampouco é nova e reaparece ciclicamente quando parcelas do eleitorado deixam de responder às expectativas políticas de governos que supõem manter vínculo permanente com determinados grupos sociais. A pergunta inevitável é: como se formou um distanciamento tão profundo entre esse perfil social majoritário e a esquerda política?
Parte da resposta está em erros estratégicos acumulados ao longo do tempo. Um deles foi a radicalização de agendas identitárias percebidas como hostis a valores tradicionais. Outro foi a leitura frequentemente depreciativa da chamada teologia da prosperidade, tratada como mera expressão de individualismo neoliberal. Ao desqualificá-la, ignorou-se algo fundamental: o desejo de ascensão econômica e autonomia material é aspiração legítima e disseminada entre setores populares.
O empreendedorismo nas periferias, muitas vezes descrito como ideologicamente problemático, é, na prática, estratégia de sobrevivência e dignidade. Esse cacoete ideológico levou à estigmatização de valores de parcelas importantes da população, rotuladas como “pobres de direita”.
Há ainda equívoco teórico mais profundo: a persistência de uma visão da família como simples mecanismo de reprodução da ordem social. Essa interpretação remonta à análise clássica de Friedrich Engels em A Origem da Família, da Propriedade e do Estado. Embora influente, mostra-se insuficiente para compreender o papel concreto que a família exerce hoje, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social.
Uma abordagem sociológica mais funcional, como a formulada por Émile Durkheim, oferece chave distinta. Para ele, a família é instituição fundamental de socialização, transmissão de valores coletivos e estabilização da vida social. Em sociedades marcadas por desigualdade e violência, essa função integradora torna-se ainda mais relevante.
Assim, a estigmatização da família como “conservadora” ou “tradicionalista” pouco contribui para o debate público. A viseira ideológica impede respostas adequadas ao cenário concreto das periferias brasileiras, onde a desestruturação familiar frequentemente se associa à expansão do narcotráfico e à fragilização dos vínculos comunitários.
Em democracias maduras, o problema raramente é o eleitor, mas a incapacidade das lideranças políticas de aceitar que apoio social nunca é definitivo nem automático.
Diante desse quadro, uma estratégia política racional exigiria algo diferente do confronto cultural permanente. Exigiria o reconhecimento institucional do papel das comunidades religiosas, evangélicas ou não, na sustentação da vida social em contextos de fragilidade estatal. Não se trata de abdicar da laicidade, mas de reconhecer parceiros sociais efetivos na promoção da coesão social brasileira.
Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 25/2/2026.
