Antes eram só dois — o Bananinha e o neto do Figueiredo, irmanados na luta diária para quebrar a economia brasileira, o Judiciário e o Executivo federal e, em meio ao caos tão sonhado, promover a invasão do território nacional pelas forças militares dos EUA, visando a restabelecer a ordem, a família, a pátria e a liberdade deles de cometer crimes sem castigo.
Agora são três. Uniu-se a eles na empreitada o agora engomadinho 01, pré-candidato a golpista e terrorista. Apesar de toda a patifaria que vem protagonizando, tem 31% das intenções de voto no primeiro turno e 40% no segundo.
Perde, mas com uma montanha de votos nos bolsos. Isto é que deixa meu amigo marciano intrigado com a sanidade mental de tantos brasileiros.
“Em Marte temos um manicômio escpeializado nesse tipo de distúrbio mental” — disse, retirando o capacete de proteção para vôos interplanetários.
Fiquei curioso e ele seguiu adiante.
“Quando acontece um troço desses em Marte, uma equipe interdisciplinar de médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais e oficiais da polícia especial entra imediatamente em ação”.
Polícia especial?
“Sim! Como é que você pensa que vamos pegar essa cambada? Tem que ser no laço”.
E aí vocês levam em camisa-de-força para o manicômio?
“Sim! Não tem outro jeito. Ou você pensa que eles iriam cantando e sambando para o hospício?
E isso dá resultado?
“Em geral dá. O pessoal começa a pensar na vida, não tem mais lavagem cerebral, não tem mais ninguém buzinando sandices nas orelhas deles. Não tem mais rede social para se informarem das últimas mentiras, o pessoal começa a ter uma cabeça normal”.
E depois, o que acontece?
“Eles passam por um teste de fogo. A equipe de assistentes eleitorais cria uma eleição no manicômio. Um candidato é o filho do Napoleão e o outro é o candidato dos marcianos comuns, gente que trabalha para ganhar a vida, recebe salário mínimo e faz jornada 3×4, 4×3, 5×2, 2×5, 6×0 etc…
E aí?
“Aí que quem votar no filho do Napoleão fica mais uma temporada e os outros são liberados. Isso acontece todos os anos, até o manicômio não ter mais nenhum lunático”.
Não tem casos perdidos?
Tem. Uns 15%. Esses não têm jeito. E para não ficarem ocupando espaço dos outros que vão chegando nós botamos num cargueiro espacial e desembarcamos eles na Lua”.
Na Lua? — pergunto assustado, pois ela está aqui pertinho.
“Sim. E fazemos eleição lá também, todos os anos. É uma forma de terapia e controle de casos. Os primeiros estão lá faz cinco anos e continuam votando no filho do Napoleão da quinta geração.”
Não tem cura?
“Parece que não. Eles querem nos matar no cansaço. Mas nós não desistimos. O mais importante, pra nós, não é curar esses que não têm mais cura. Mas limpar o nosso manicômio.”
E por que na nossa Lua? — arrisco a perguntar.
“Ué, vocês queriam que fosse aqui?”
Nelson Merlin é jornalista aposentado e crente, até certo ponto, nas medidas marcianas para problemas terráqueos de difícil solução. Escrita como crônica em modesta homenagem a meu colega e amigo amado Fernando Portela, que hoje partiu em viagem para outros mundos.
2/6/2026
