Em seu disco de 1979, Recent Songs, Leonard Cohen gravou uma canção imensamente distante de todas as demais de seu repertório, um peixe fora d’água, uma nota destoante, uma surpresa inesperada – “Un Canadien Errant”.
Apenas três anos depois, Renato Teixeira fez uma adaptação da canção que é uma pérola, uma gema rara – a perfeita tradução do que nossa geração sentia, uma radiografia do Brasil naquele ocaso da ditadura.
Deve ter gostado do que conseguiu realizar com aquele seu talento de ourives sempre em busca do simples – essa coisa mágica, misteriosa, que é criar jóias cuja beleza procura esconder a complexidade do trabalho de criação. Deu ao seu álbum de 1982, o último dos anos na sua primeira gravadora comercial, a RCA Victor, o nome da canção, “Um Brasileiro Errante”.
São duas gravações belíssimas, maravilhosas, excepcionais, a do canadense errante que viveu longo tempo na Grécia e percorreu boa parte do mundo acima do Equador e a do paulista de Santos criado em Ubatuba e depois Taubaté que conhece cada passo deste chão.
Aconteceu de um dia eu ouvi-las logo após chegar de uma viagem, eu, que, dotado pelo Criador (ou pelo destino) de uma pesada bola de ferro atada à minha perna, na altura do tornozelo, não sou propriamente chegado a viagens, a errâncias – mas sou um mineiro nascido em Goiás com passagem pelo Paraná radicado em São Paulo há quase 60 anos. E aí deu uma vontade imensa de escrever um pouco sobre elas. Um texto mezzo informativo, mezzo suelto, cheio de lembranças minhas.
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O álbum Recent Songs foi o sétimo de Leonard Cohen. Veio depois de New Skin for the Old Cerimony, de 1974, e de Death of a Ladies’ Man, de 1977. Em New Skin, estavam maravilhas como “Lover Lover Lover”, “There is a War” e “Who by Fire”. Em Death of a Ladies’ Man, um disco que, confesso, nunca ouvi muito bem, ele gravou canções feitas em parceria com Phil Spector – letras dele, claro, músicas do homem do muro de som.
Não me lembro exatamente o ano em que comecei a ouvir Leonard Cohen, nem em que ordem fui ouvindo seus discos, mas sei perfeitamente que ouvi Recent Songs na primeira metade dos anos 80 sem parar, quase até a agulha furar o LP, que tem as pérolas “The Guests”, “Came So Far For Beauty”, “Ballad of the Absent Mare” e “The Gypsy’s Wife”. Era uma época em que, naquela bela sala do apartamento da Ministro Godoy, eu ouvia muitas vezes a pergunta “where, where, where is my gypsy wife tonight?”, quando eu de fato não sabia onde estava Regina, my gypsy wife daqueles anos.
Raríssimas vezes Leonard Cohen gravou canções que não são de sua própria autoria. Raríssimas. Em Songs From a Room, de 1969, seu segundo disco, o que tem a foto de Marianne sentada diante de uma máquina de escrever na contracapa, na ilha grega em que os dois moraram, há “The Partisan”, de Anna Marly-Hy Zaret, uma canção sobre um lutador da resistência grega à invasão nazista.
Joan Baez também gravaria “The Partisan”, em 1972, em seu primeiro disco na nova gravadora, a A&M, depois de ter feito toda a sua carreira até ali na pequena Vanguard. Ela deu ao álbum o título tirado da letra em inglês de “The Partisan”, Come from the Shadows. Isso, diacho, é um detalhe que não tem nada a ver com o tema deste suelto. Embora um suelto, afinal de contas, seja um texto solto, sem apego a propriamente nada…
O fato é que são raríssimas as canções que Leonard Cohen gravou que não tenham sido compostas por ele. Só consigo me lembrar de “The Partisan” e de “Un Canadien Errant”.
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Ensina a WIkpedia que “Un Canadien Errant” foi escrita em 1842 por Antoine Gérin-Lajoie, depois da rebelião de 1837-1838, em que alguns rebeldes foram condenados à morte e outros forçados a se exilar. “A canção se transformou em um hino patriótico para certos grupos de canadenses que, em algum ponto de suas histórias, experimentaram a dor do exílio.”
Meu Deus! Como diz a Mary, tantos séculos depois de Sócrates, a gente não sabe de nada, de coisa nenhuma. Não tenho a mínima idéia do que seja The Lower Canada Rebellion, ou a Upper Canada Rebellion – mas, também… Que eventual leitor desta bobagem aqui sabe o que foram a Cabanagem, a Sabinada, a Revolta dos Malês, a Balaiada, ou mesmo a Revolução Farroupilha e a Guerra do Contestado?
Bem… Voltando à canção, para que este suelto não fique solto demais da conta, aqui vai um detalhe estranho, estranhíssimo. Embora tenha nascido na província de Quebec, de língua francesa, Leonard Cohen, filho de família judia de origem polonesa, foi criado em inglês – e seu francês em “Un Canadien Errant” tem tanto horroroso sotaque inglês quanto o “Ne me quitte pas” de Nina Simone.
Meu, é tão forte o sotaque, é tão distante do francês um pouquinho mais próximo do francês, que até parece que Leonard Cohen, um mestre com as palavras, estava forçando a barra, fazendo um fake francês falado por alguém de língua inglesa!
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Eis a maravilhosa letra da canção que, como aprendi agora, foi escrita em 1842, e, depois de 137 anos, foi gravada por um dos maiores compositores de música popular desde que a humanidade aprendeu a gravar o que é cantado:
Un canadien errant
Banni de ses foyers
Un canadien errant
Banni de ses foyers
Parcourait en pleurant
Des pays étrangers
Parcourait en pleurant
Des pays étrangers
Un jour triste et pensif
Assis au bord des flots
Au courant fugitif
Il adressa ces mots
Si tu vois mon pays
Mon pays malheureux
Va, dis a mes amis
Que je me souviens d’eux
O jours si pleins d’appas
Vous êtes disparus
Et ma patrie, hélas, je ne la verrai plus
Non, mais en expirant
O mon cher Canada
Mon regard languissant
Vers toi se portera
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Mais ou menos assim:
Um canadense errante, banido de sua casa, percorreu chorando países estrangeiros. Um dia, triste, pensativo, sentado à beira da água, à corrente fugidia, ele disse estas palavras: ‘Se você vir meus país, meu triste país, vá, diga a meus amigos que eu me lembro deles. Ó dias tão cheios de encanto, vocês desapareceram e minha pátria, nunca mais verei. Não, mas no meu último suspeito, meu querido Canadá, meu olhar se voltará para você.”
Meu Deus…
Impossível não lembrar de Gonçalves Dias, que, em 1843, apenas um ano depois de Antoine Gérin-Lajoie, escreveu aqueles versos que me parecem dos mais belos que já foram escritos na Última Flor do Lácio, Inculta e Bela:
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
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Diacho: será que algumas, pelo menos algumas daquelas 10 mil pessoas que em 1968 vaiaram “Sabiá” no Maracanãzinho, na final da fase brasileira do III Festival Internacional da Canção, porque queriam a vitória de “Caminhando”, sabiam que a maravilha de Francisco Buarque de Hollanda e Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim era uma nova “Canção do Exílio”?
Pergunta besta. Mas, diacho, suelto é suelto.
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A multidão vaiou “Sabiá” no dia 29 de setembro de 1968, o ano em que houve grandes, maravilhosas passeatas contra a ditadura militar instalada no Dia da Mentira de 1964. Poucas semanas depois, em 13 de dezembro, houve o golpe dentro do golpe, e a ditadura ficou mais dura, mais violenta.
Viriam depois as tentativas de luta armada contra o regime – e a ditadura aproveitou a deixa para ficar ainda mais dura, mais violenta.
Em 1982, o general presidente era João Baptista Figueiredo – e os generais já haviam compreendido que não dava mais para continuar.
A canção que Renato Teixeira gravou naquele ano. no quinto e último dos seus discos para a RCA, é, repito, uma dos melhores traduções do que nós todos, brasileiros errantes, sentíamos naquele momento.
Grande artista é grande, entre outras coisas, por isso: por traduzir o sentimento de seu povo.
Renato Teixeira fez o que Antoine Gérin-Lajoie havia feito em 1842, o que Gonçalves Dias havia feito em 1842. Ele exprimiu o Brasil de 1982.
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Um brasileiro errante
Como os demais eu sou
Um brasileiro errante
Como os demais eu sou
Tão pouco pra sorrir
Tanto para chorar
Acostumado a ir
Para nenhum lugar
Um brasileiro errante
Como os demais eu sou
Um brasileiro errante
Como os demais eu sou
Tão pouco pra perder
Tanto por conquistar
Quando nosso destino
Em nossas mãos pousar
Eu amo meu país
E quero seu amor
Eu amo meu país
E quero seu amor
Vamos nos reunir
Aqui neste jardim
Quando for primavera
E ele, enfim, florir
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Meu Deus do céu e também da Terra, que beleza de poesia, que coisa emocionante!
Dois anos depois, em 1984, quando ele gravou Azul, para o selo Eldorado (e, na semana do lançamento do disco, tive a sorte e a honra de fazer uma entrevista com ele ao longo de uma tarde, no apartamento dele nos Jardins, que resultou em matéria de página inteira na Variedades do Jornal da Tarde), o país vivia o sonho das diretas-já. Parecia que a primavera estava próxima – mas a emenda não passou, e o primeiro presidente civil após os duros anos de Quarta-Feira de Cinzas no país foi eleito indiretamente.
O general que preferia o cheiro de cavalo ao cheiro de povo saiu de cena pela porta dos fundos. E o político mineiro que era o símbolo da conciliação, em vez de subir a rampa do Palácio do Planalto, foi para o Hospital de Base e para uma agonia que pareceu sem fim.
O país demorava a enfim florir. Uma outra canção de imensa beleza fez a radiografia poética daquele Brasil dos anos que eram para ser de Tancredo e foram de Sarney:
Sim é verdade, a vida é mais livre
O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
Com o povo daqui
E até dá pra pensar no futuro
E ver nossos filhos crescendo e sorrindo
Mas eu não posso esconder a amargura
Ao ver que o sonho anda pra trás
E a mentira voltou
Ou será mesmo que não nos deixara?
A esperança que a gente carrega
]É um sorvete em pleno Sol
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Os textos se escrevem eles mesmos, em especial os iniciados para serem de fato sueltos. Quando comecei estas mal traçadas, queria falar da beleza de “Un Canadien Errant” cantada naquele francês pavoroso por Leonard Cohen e de “Um Brasileiro Errante” cantada naquele português suave, maravilhosamente caipira de Renato Teixeira. Aí o texto foi saindo por ele mesmo, passeou pela História do Brasil e veio parar nos versos maravilhosos que Fernando Brant escreveu para a melodia de Mirtão em “Carta à República”, de 1987.
Não sei o eventual leitor que conseguiu chegar até aqui, mas euzinho vou ouvir de novo “Un Canadien Errant” e depois “Um Brasileiro Errante”. Como o canadense banido, como Renato, eu amo meu país – e. diacho, como são belas as canções.
N.doA.: Este texto foi iniciado há muitos, muitos meses, não sei quantos, e concluído em maio de 2026. No dia 10 de junho, ele serviu como minha estréia no blog do amigo Valdir Sanches, Vivendo e Escrevendo. Foi publicado lá antes de sair aqui. (S.V.)
