Está tudo muito esquisito

Maior fraude financeira da história do país, o caso Master agudizou na semana passada. Junto com a prisão preventiva do dono do banco liquidado, Daniel Vorcaro, e da suspensão do sigilo dos dados de seus celulares, ambas por ordem do novo relator do caso no STF, ministro André Mendonça, confirmou-se a extensa rede criminosa do ex-banqueiro, com gente graúda de todas as matizes políticas e em todas as esferas de poder.

Um escândalo institucional estarrecedor que, na sexta-feira, chegou ao ápice com a revelação, pela repórter Malu Gaspar, de O Globo, de diálogos que seriam entre Alexandre de Moraes e Vorcaro, no dia de sua primeira prisão, em novembro. O ministro supremo nega e o jornal reafirma a denúncia, acrescentando mais estranhezas a um emaranhado de pontos cegos nas investigações – ou no que já veio à tona sobre elas.

Sabe-se, até agora, que a origem da revelação dos diálogos não foi a CPI do INSS, que no dia 20 de fevereiro passou a ter acesso ao conteúdo dos celulares de Vorcaro. Nas 1.565 páginas tornadas públicas, Moraes aparece oito vezes, todas elas de forma indireta, em mensagens de Vorcaro com a então namorada, a influencer Martha Graeff, a quem ele contava absolutamente tudo o que fazia, com nomes dos interlocutores e um certo deslumbramento. Ora dizia estar na casa do presidente do Senado, ora recebia figurões em sua casa, ora ia ao Planalto. Algo que em nada combina com alguém que circulava com tanta desenvoltura nos círculos de poder. Mais: que tipo de bandido deixa tantos rastros com tantos detalhes?

Da mesma forma, não soa factível que alguém tão cioso de suas comunicações, a ponto de mantê-las no “modo desaparecer”, ferramenta que apaga as mensagens após a leitura, escreva seus textos no bloco de notas do celular, fotografe e só aí envie a mensagem, deixando todas as pegadas não apenas no bloco, mas no arquivo de fotos, de fácil acesso no aparelho ou na nuvem. Muito menos que o experiente e safo Xandão trocasse quase uma dezena de mensagens com Vorcaro, uma bomba com explosão anunciada.

É preciso entender também por que as conversas Vorcaro-Moraes decriptadas pela PF não foram entregues à CPI no mesmo formato obtido pelo Globo, gerando diferentes hipóteses de interpretação. Acrescenta-se ao rol de esquisitices a justificativa da PF para não solicitar que Moraes seja investigado, diferentemente do que fez com o então relator do caso, Dias Toffoli. Os próprios investigadores afirmam que não há como saber se as mensagens do bloco de notas de Vorcaro eram mesmo para o ministro.

Há muitas outras pontas desamarradas. O suicídio de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como Sicário (cruel, sanguinário), nas dependências da PF de Minas, continua a alimentar dúvidas. Embora a PF diga que tudo foi filmado e que entregou a fita sem cortes ao STF, causa espanto imaginar que um bandido dessa importância – suspeito de ser o “justiceiro” de Vorcaro – tenha ficado sem qualquer monitoramento, nem mesmo virtual. E por tempo suficiente para se auto estrangular, com suas próprias roupas – em silêncio. A ele, Vorcaro teria pedido para golpear o jornalista Lauro Jardim (O Globo), “dar um pau”, “quebrar os dentes num assalto”.

A tentativa de suicídio foi citada pelo Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, ao rebater a critica de Mendonça de que era “lamentável” ele não ter visto “urgência” para mandar prender Vorcaro.  Em nota, Gonet afirmou que a “análise da PGR não é formalidade vazia”. Destacou que os documentos somavam mais de duas mil páginas, impossíveis de serem escrutinados no exíguo prazo determinado pelo ministro – 72 horas.

Os episódios envolvendo Vorcaro escancaram as conhecidas rivalidades entre ministros do STF, PGR e Polícia Federal. Com razão, os investigadores comemoraram quando Mendonça acabou com os limites impostos por Toffoli, que chegou a indicar os peritos para analisar os celulares do ex-banqueiro. Por outro lado, Mendonça teve uma atitude inusual ao determinar que o sigilo incluísse superiores, até o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Não funcionou. Houve vazamentos em série – pela CPI do INSS ou pela própria PF.

Outras brechas podem até beneficiar o criminoso. Embora a PF possa pedir a prisão de um investigado diretamente ao STF, a Lei nº 13.964, de 2019 – rubricada por Mendonça, então Advogado-Geral da União de Jair Bolsonaro -, e a jurisprudência conferem à PGR a atribuição de solicitar a prisão preventiva de um suspeito. Teria sido mais prudente, portanto, que Mendonça aguardasse a PGR por mais uns dias, o que não mudaria o estado das coisas. No máximo ficaria adiada a eclosão do novo episódio do escândalo. Teme-se que o caminho escolhido pelo ministro possa fundamentar a alegação de nulidade de partes do processo.

A suspensão de sigilo e os vazamentos também causaram apreensão. Ainda que Mendonça tenha mandado investigar a origem das goteiras, só o fez a pedido da defesa de Vorcaro.

Á despeito dos diálogos negados por Moraes, o ministro deve explicações, a começar pelo contrato milionário de sua mulher Viviane Barci com o Master, de R$ 129 milhões em três anos.  O ex-relator Toffoli continua obrigado a esclarecer suas tretas com Vorcaro na venda do resort Tayayá e na carona de jatinho. Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), ambos em mudez absoluta, também deveriam esclarecer por que estão segurando – pelo menos enquanto dá – a criação de uma CPI para investigar os podres do Master.

O caso deve continuar sacudindo o país, podendo até evoluir para uma delação premiada de Vorcaro. E todo cuidado é pouco. Mendonça, o heroi da vez, que já cometeu pequenos deslizes, não pode errar. O país está cansado do mesmo filme. Moraes, que liderou com garra a condenação ao golpismo, encarnou a figura do todo-poderoso, ares que também subiram à cabeça do juiz Sérgio Moro, na Lava Jato, e de Joaquim Barbosa, no Mensalão. Ninguém quer ver uma reprise.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 8/3/2026. 

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